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Diário Liberdade
Quinta, 12 Outubro 2017 20:55 Última modificação em Segunda, 16 Outubro 2017 11:30

As meninas-mães da Guatemala

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País: Guatemala / Mulher e LGBT / Fonte: Prensa Latina

De uma fralda jogada no colo de uma pequena de menos de 14 anos, aparece a face de uma pequenina de cerca de 12 meses. É sua irmãzinha?, pergunto, e esquiva ao olhar ela corre e desaparece no mesmo instante para não admitir a vergonha de uma confissão.

A cada oito horas ao menos uma menina converte-se em mãe na Guatemala, adverte o Fundo de Nações Unidas para a Infância, que classifica a este país entre as nações da América Central com as mais altas taxas de gravidez adolescente.

Mas a cifra poderia ser enganosa porque só se conta com os partos atendidos no sistema estatal de saúde e quatro em cada 10 sucedem fora deste, principalmente nas áreas rurais.

Do total de registros na última década, 11 por cento corresponde a menores de 14 anos ou inclusive menos que isso, uma crua realidade que leva à violência sexual, não tanto por estranhos, mas por parentes próximos ou inclusive pelos próprios pais de família.

Alta Verapaz, Escuintla, Petén, Huehuetenango e San Marcos aparecem como os departamentos com mais prevalência e exclusão, mas também áreas urbanas como Guatemala exibem números alarmantes.

Segundo dados do Observatório em Saúde Sexual e Reprodutiva (Osar), entre 2010 e 2016 mais de 24 mil gravidezes foram de meninas menores de 15 anos.

Outra sondagem, a Pesquisa de Saúde Materno Infantil 2015 (Ensmi), detalha que só dois em cada 10 mulheres entre 15 e 19 anos completaram o estudo primário.

Se são mães, assegura Ousar, a possibilidade de ir às aulas reduz-se ainda mais, pois não só devem atender às crianças que não desejavam mas que carregam um estigma social por sua condição em um país onde o machismo se impõe.

Segundo o Ensmi, nascer mulher na Guatemala já é difícil. Para 2015, oito em cada 10 mulheres de 15 a 19 anos não tinha trabalho e as maternidades forçadas perpetuam as condições de exclusão às que já se enfrentam pelo mero fato de ser indígenas e pobres.

Com menores possibilidades de estudar, uma menina mãe se verá quase impossibilitada de conseguir trabalho; caso consiga, será mais temporário e pior pago, significativamente menor que os de qualquer homem, divulga o estudo Vidas Roubadas de 2015.

Se é pobre, a brecha de pobreza crescerá. E também as probabilidades de que o ciclo piore: quase é seguro que quando chegue à fase adulta, essa menina mãe seja avó precocemente, conclui para ilustrar o que considera um círculo vicioso.

O Ministério Público e o Ministério de Saúde e Assistência Social, ofereceram recentemente outras estatísticas aterradoras: a cada quatro horas denuncia-se uma violação sexual contra uma menina ou adolescente mas 98 por cento destes delitos ficam impunes; 30 por cento das mortes maternas correspondem a menores de 19 anos, e a cada cinco dias registra-se um suicídio.

São pequenas que a violência da estrutura patriarcal condenação -desde sua infância- a levar o peso da vida. Meninas-mães submetidas pelo abuso sexual e a violação. Meninas violadas por um tio, o pai, o padrasto, um irmão ou um homem desconhecido, que lhes interrompem sua infância quando mal chegam aos 14 anos.

Atualmente, a legislação guatemalteca é mais drástica na perseguição penal do delito de violação em menores de 14 anos, o que é agravado se como resultado há a gravidez.

No entanto, a mentalidade patriarcal faz que lhe ofereça muitas vezes ao perpetrador a possível solução do casamento ou a convivência com sua vítima, o que aumenta ainda mais o drama psicológico.

Muitas inclusive, além do filho produto da violação, têm que cuidar outra extensa prole do marido e começam assim um novo meio de abusos.

A cultura da denúncia vem-se impondo nos últimos anos mas ainda é insuficiente para frear a avalanche de abusos familiares e gravidezes.

Ser menina na Guatemala, na América Central, pode ser um caminho que encontra a violência precocemente, sobretudo se for pobre.

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