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Diário Liberdade
Quinta, 09 Agosto 2018 07:50 Última modificação em Terça, 14 Agosto 2018 23:39

Quase 80% dos trabalhadores dos EUA vivem de salário em salário. Aqui está o porquê

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País: Estados Unidos / Laboral/Economia / Fonte: The Guardian

[Robert Reich, Tradução de Nina Torres Zanvettor para Carta Maior] A taxa oficial de desemprego nos EUA caiu até os incrivelmente baixos 3,8%. O Federal Reserve prevê que a taxa de desemprego alcançará 3,5% ao final do ano.

Porém, a taxa oficial esconde situações mais problemáticas: uma enorme quantidade de pessoas com curso superior superqualificadas para seus trabalhos, um crescente número de trabalhadores sob contrato sem segurança empregatícia, e um exército de trabalhadores de meio período desesperados por conseguir trabalhos de tempo integral. Quase 80% dos estadunidenses dizem que vivem de salário em salário, muitos não sabendo quão grande será seu próximo pagamento.
 
Junto com tudo isso, há a estagnação dos salários e o desaparecimento dos benefícios empregatícios. O típico trabalhador estadunidense atualmente ganha cerca de US$ 44.500 ao ano, não muito mais do que um típico trabalhador ganhava 40 anos atrás, ajustando-se a inflação. Apesar da economia dos EUA continuar a crescer, a maioria dos ganhos têm ido para relativamente poucos grandes executivos de grandes empresas, financiadores e inventores e donos de serviços digitais.
 
Os EUA não têm uma crise de empregos. Tem uma crise de bons empregos.
 
Quando os republicanos apresentaram seu corte de impostos de US$ 1,5 trilhão em dezembro do ano passado, eles previram um grande aumento salarial para os trabalhadores estadunidenses. Podem esquecer. Os salários na verdade caíram no segundo trimestre deste ano.
 
Nem mesmo a baixa taxa de desemprego atual está forçando os empregadores a aumentar os salários. Comparem isso com o final dos anos 1990, a última vez em que o desemprego chegou perto de estar tão baixo quanto está hoje, quando a porção dos rendimentos nacionais indo para salários era 3% a mais do que ocorre hoje em dia.
 
O que está acontecendo? Em resumo, a vasta maioria dos trabalhadores estadunidenses perdeu quase todo seu poder de barganha. A erosão deste poder de barganha é um dos processos econômicos mais importantes das últimas quatro décadas, mas ele é devido menos a oferta e demanda do que a instituições e política.
 
Começando nos anos 1980 e com uma crescente ferocidade desde então, os empregadores do setor privado têm lutado contra os sindicatos
 
Duas forças fundamentais mudaram a estrutura da economia dos EUA, alterando diretamente o equilíbrio de poder entre negócios e trabalho. A primeira é uma dificuldade crescente para os trabalhadores se juntarem em organizações sindicais. A segunda é a facilidade crescente das corporações para se juntarem em oligopólios ou formarem monopólios.
 
Na metade dos anos 1950, mais de um terço de todos os trabalhadores do setor privado dos EUA estavam sindicalizados. Nas décadas seguintes, os empregados públicos também se organizaram. Era exigido por lei que os empregadores não só permitissem a existência dos sindicatos, mas que também negociassem com eles de boa-fé. Isso dava aos trabalhadores um poder significativo para demandar melhores salários, horários de trabalho, benefícios e condições de trabalho (acordos em setores sindicalizados determinavam a referência para setores não sindicalizados).
 
Entretanto, começando nos anos 1980 e com uma crescente ferocidade desde então, os empregadores do setor privado têm lutado contra os sindicatos. A decisão de Ronald Reagan de despedir os controladores de tráfego aéreo da nação, que fizeram uma greve ilegal, sinalizou aos empregadores do setor privado que lutar contra sindicatos era algo legítimo. Uma onda de aquisições hostis forçou os empregadores a fazer o que fosse necessário para maximizar os ganhos dos acionistas. Juntos, eles marcaram o início de uma era de colapso dos sindicatos.
 
Os empregadores têm despedido empregados que tentam se organizar, ameaçado mudar a localização da empresa para estados mais “amigáveis a negócios” se as empresas se sindicalizarem, lançado campanhas contra a votação de sindicatos, e chamado trabalhadores substitutos quando os sindicalizados fazem greve. Grupos de empregadores fizeram pressão nos estados para que adotassem mais das chamadas "leis de direito ao trabalho”, que impedem os sindicatos de demandar mensalidades de trabalhadores que representam. Uma decisão recente da suprema corte tomada pelos cinco indicados republicanos da corte estendeu o princípio “de direito ao trabalho” aos empregados públicos.
 
Hoje em dia, menos de 7% dos trabalhadores do setor privado são sindicalizados, e os sindicatos de empregados públicos estão em grande perigo, notavelmente por causa da decisão da suprema corte. A porção decrescente de rendimentos dos EUA indo para o setor médio desde o final dos anos 1960 — definido como 50% acima e 50% abaixo da média — tem uma correlação direta com a diminuição da sindicalização (veja o gráfico abaixo).
 
Talvez ainda mais significativamente, a porção dos rendimentos totais indo para os 10% mais ricos dos EUA durante o último século é quase exatamente relacionada de forma inversa com a porção dos trabalhadores da nação que são sindicalizados (veja o gráfico abaixo). Quando o assunto é dividir o bolo, a maioria dos trabalhadores estadunidenses de hoje em dia tem muito pouco ou nada a dizer. O bolo está crescendo, mas eles estão ficando somente com as migalhas.
 
Ao longo do mesmo período de tempo, a aplicação de leis antitruste foi reduzida. O governo dos EUA praticamente deu sinal verde para as empresas que queriam ter poder de monopólio sobre as plataformas e redes digitais (Google, Apple, Amazon, Facebook); que queriam se fundir em gigantescos oligopólios (empresas farmacêuticas, seguradoras de saúde, linhas aéreas, produtores de sementes, processadores de alimentos, prestadores de serviços militares, bancos de Wall Street, provedores de internet); ou que tinham o objetivo de criar monopólios locais (distribuidores de alimentos, empresas de descarte de lixo, hospitais).
 
Isso significa que os trabalhadores estão gastando mais nesses bens e serviços do que gastariam se esses mercados fossem mais competitivos. É exatamente como se seus salários diminuíssem. O poder econômico concentrado também deu às corporações uma maior capacidade de segurar os salários em um baixo valor, já que os trabalhadores têm menos escolha sobre para quem trabalhar. E isso deixou que as empresas impusessem aos trabalhadores condições que enfraqueceram ainda mais seu poder de barganha, como acordos contra o “roubo” de empregados e de arbitragem obrigatória.
 
Este grande deslocamento do poder de barganha, dos trabalhadores para as corporações, empurrou uma maior proporção dos rendimentos nacionais para os lucros e uma menor proporção para os salários como jamais ocorreu desde a Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos, a maior parte destes lucros tem ido para salários maiores para executivos e preços de ações maiores, em vez de novos investimentos ou salário de trabalhadores. Adicione-se a isso o fato de que os 10% mais ricos dos EUA são donos de cerca de 80% de todas as ações em estoque (os 1% do topo são donos de cerca de 40%), e tem-se um retrato mais amplo de como e por quê a desigualdade ampliou-se tão intensamente.
 
Uma outra consequência: as corporações e os indivíduos ricos têm tido mais dinheiro para colocar em campanhas políticas e lobby, enquanto que os sindicatos têm tido muito menos. Em 1978, por exemplo, as contribuições de campanhas para o Congresso realizadas por Comitês de Ação Política de trabalhadores estavam em pé de igualdade com contribuições de PAC corporativas. Porém, desde 1980, as doações de PAC corporativas cresceram a uma velocidade muito maior, e atualmente a disparidade é gigantesca.
 
Não é coincidência nenhuma o fato de que todos os três braços do governo federal, assim como a maioria dos governos estaduais, tornaram-se mais “amigáveis com negócios” e menos “amigáveis com trabalhadores” do que em qualquer momento da história desde os anos 1920. Como observei anteriormente, o Congresso recentemente baixou a taxa de imposto corporativo de 35% para 21%. Enquanto isso, a suprema corte de John Robert tem ficado mais frequentemente do lado dos interesses de negócios em casos envolvendo questões trabalhistas, o meio ambiente ou consumidores do que qualquer suprema corte desde meados dos anos 1930. Durante o último ano ela não só tomou decisões contra sindicatos de empregados públicos, mas também decidiu que os trabalhadores não podem se juntar em processos de classe quando o contrato de emprego indica arbitragem obrigatória. O salário mínimo federal não aumentou desde 2009, e agora possui valor semelhante ao que tinha em 1950, ajustada a inflação do período. O ministério do trabalho de Trump está ocupado em revogar muitas regras e regulamentações projetadas para proteger os trabalhadores.
 
A combinação de altos lucros corporativos com um crescimento do poder político corporativo criou um círculo vicioso: maiores lucros geraram mais influência política, o que alterou as regras do jogo através de ações do Congresso, legislativas e judiciais — permitindo às corporações extraírem ainda mais lucro. Os maiores perdedores, de quem a maior parte dos lucros foram tirados, têm sido os trabalhadores comuns.
 
A mudança dos EUA das fazendas para as fábricas foi acompanhado por décadas de conflitos trabalhistas sangrentos.
 
A mudança das fábricas para os escritórios e outros trabalhos sedentários criou outra agitação social. O deslocamento mais recente de poder de barganha dos trabalhadores para as grandes corporações — e consequentemente, a intensa ampliação das desigualdades de renda, riqueza e poder político — teve uma consequência mais lamentável e, temo, mais duradoura: uma classe trabalhadora raivosa vulnerável aos demagogos que propagam o autoritarismo, o racismo e a xenofobia.
 
Robert Reich é professor emérito de políticas públicas na Universidade da Califórnia em Berkeley, e foi ministro do trabalho no governo Clinton. Seu último livro, The Common Good, foi publicado no começo deste ano.

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