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Sexta, 30 Novembro 2018 00:21

Coreia: Unificação, mas não ao “estilo alemão” Destaque

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País: Coreia do Norte / Institucional / Fonte: Resistir

[Andre Vltchek] É estranho que quando nos aproximamos da DMZ (Zona Desmilitarizada, que divide a Coreia em duas partes) vindos do Sul encontramos muitas bandeiras e slogans sentimentais pela “paz” – mas nada que represente pontos de vista do povo norte-coreano.

Todas as bandeiras são as da República da Coreia (ROC), também conhecida como Coreia do Sul.

Muitas pessoas próximas à linha divisória transformaram toda esta área numa armadilha para turistas, com torres de observação “para ter um vislumbre da Coreia do Norte”, com lojas a venderem “souvenirs” militares ROC e dos EUA, até mesmo velhos equipamentos militares. Como se os norte-coreanos fossem uns animais raros a viverem numa jaula, fascinantes para estudar e observar mas perigosos para tocar.

Sim, aqui todas as bandeiras são da ROC. Mesmo se duas bandeiras estiverem cruzadas, no que deveria ser uma fraternal união simbólica, as duas são sempre idênticas – as da Coreia do Sul. Isto parece realmente bizarro, mas é assim.

Algo parece sempre estar desesperadamente em falta nesta “aspiração à paz” sul-coreana, a favor da Coreia reunida. E o que falta é alguma coisa totalmente básica: é pelo menos alguns simbolismo essencial do Norte – a RDPC!

Conheço ambas as partes da Coreia – a RDPC e a ROC. E o que me preocupa é que aparentemente é como se o Sul pensasse que poderia avançar sozinho com todo este “assunto da unificação”, sem considerar as necessidades e desejos do outro lado.

E o ocidente toma como garantido que o Norte será, no final das contas, simplesmente engolido pelo Sul. Porque ele costuma obter o que quer. Porque no seu zelo fundamentalista não é sequer capaz de considerar as sensibilidades e objectivos de outros sistemas políticos, filosóficos e sociais.

O plano tanto do ocidente como da Coreia do Sul é simples, embora nunca seja claramente definido por “razões estratégicas”. “Uma vez chegado o momento da unificação potencial, a RDPC simplesmente deixaria de existir, tal como a Alemanha do Leste cessou de existir três décadas atrás. Imediatamente após, toda a Coreia seria dirigida sob princípios capitalistas, sob o “patrocínio” e o diktat do ocidente.

E tanto o povo quanto a liderança da Coréia do Norte cairão de joelhos e se renderão, depois de as massas derrubarem as cercas das fronteiras com as suas mãos nuas. As pessoas comuns renunciarão alegremente ao seu sistema, bem como a muitas décadas de luta e sacrifício determinados. Tudo será lançado no altar das poderosas corporações sul-coreanas e do regime pró-ocidental. Correcto? Continue a sonhar!

A Coreia não é a Alemanha. E a segunda década do século XXI é muito diferente daqueles anos bizarros e confusos em que Gorbachev demonstrava brilhantemente ao mundo quanto dano um idiota ingénuo e útil podia causar ao seu próprio país e a todo o planeta.

A verdade é que a Coreia do Norte nunca se desintegrará como a Alemanha do Leste por muitas razões. Uma delas é que a história alemã é muito diferente: a Alemanha foi dividida entre quatro potências vitoriosas após a II Guerra Mundial. A parte ocidental não queria necessariamente ser capitalista e pró ocidental (os EUA e o Reino Unido forjaram as eleições do pós-guerra) e o Leste não queria necessariamente estar na órbita soviética. Sejamos honestos: todo aquele país estava, pouco antes, enlouquecido, gritando slogans bizarros e salivando sob suásticas, a admirar maniacamente um psicopata assassino.

Não, a Coreia do Norte não foi e não é a Alemanha do Leste! Ela não foi “designada” para qualquer bloco. Ela combateu uma batalha tremenda pelo seu próprio sistema; perdeu milhões do seu povo durante a guerra brutal e genocida, cometida pelo ocidente. E acabou, depois de receber ajuda fraternal da China, finalmente por vencer.

Desde o princípio a RDPC foi um país internacionalista, tal como Cuba. Ainda não recuperada completamente daquela devastação horrenda, ela ajudou a libertar grandes partes da África.

Ela sempre soube o que queria, combateu por isso e acabou por alcançar grande parte dos seus objectivos!

Ela nunca desmoronou sob as sanções e a propaganda combinada da ROC e dos seus apoiantes ocidentais.

Mesmo depois de o Bloco Soviético ter entrado em colapso, ela não mudou a sua rota.

Trata-se de um país admirável, não importa o que algumas pessoas pensem acerca do seu sistema político. E os norte-coreanos são um povo admirável (fui privilegiado por filmar ali, o meu filme “poético” de 25 minutos “Faces of North Korea” ). Eles não venderão seus ideais por grandes automóveis e um par de jeans. Tal como Cuba, a pátria norte-coreana não é uma mercadoria.

Imagine também a China e a Rússia (cada vez mais ameaçados pelo Ocidente) quão “estarrecidos” ficariam se toda a Coreia caísse nas mãos norte-americanas. Imagine aquelas bases militares a ameaçar Herbin, Dalian, Pequim, Khabarovsk e Vladivostok!

A Coreia do Sul suspeita que o Norte não irá ceder.

Eles tentaram tudo, como erguer enormes palácios de propaganda tal como aquele infame “Museu da Guerra” em Seul.

Eles difundem seus sermões de propaganda através de estações de rádio e até através de enormes alto-falantes colocados junto à linha divisória. Eles juntaram-se aos esforços do ocidente para tentar isolar, mesmo esfaimar, seus próprios irmãos no norte. Nada conseguiram.

A ROC costumava censurar a imprensa, desaparecer e assassinar seus próprios dissidentes, torturar e violar prisioneiros políticos. Tudo isso a fim de romper qualquer simpatia que restasse no Sul pelos ideais comunistas. A campanha de terror sul-coreana foi horrível, só comparável àquelas na América do Sul sob ditaduras de extrema-direita e, naturalmente, àquela na Indonésia pós 1965.

Seul nunca realmente se desculpou junto às vítimas. Ao contrário de Formosa, nenhuns monumentos ou museus foram erguidos para recordar as vítimas do terror da extrema-direita.

A tentativa de “suavizar” a RDPC através de sanções, corrida às armas e intimidação não trouxe quaisquer frutos. E nunca trará. Exactamente o oposto. A Coreia do Norte conseguiu fortalecer-se, mobilizar e aprender a produzir basicamente tudo: desde automóveis a foguetes, de computadores a equipamentos médicos e medicina de ponta.

O único meio de as duas partes da Coreia encontrarem uma linguagem comum é mostrar respeito profundo uma à outra. O cenário alemão nunca funcionaria aqui.

Ambas as bandeiras têm de drapejar uma junto à outra. Ambos os sistemas políticos e económicos têm de ser respeitados. Quando se fala acerca da unificação, ambos os “caminhos” deveriam ser considerados.

Se a Coreia do Sul fosse “devorar” o Norte, nada de bom sairia daí: só mais tensão, descontentamento e possível confrontação. O Norte é uma terra orgulhosa. Conseguiu muito, sozinha. Sobreviveu contra todas as probabilidades. Ajudou partes oprimidas do mundo, honestamente e generosamente. Tem muito do que se orgulhar. Portanto, nunca se renderá.

No entanto, a Coreia é uma só nação e anseia pela união. Ela conseguirá, mas primeiro: as “duas irmãs”, ambas belas, ambas brilhantes, ambas muito diferentes, têm de se sentar juntas e falar de modo honesto e sincero. Elas já o fizeram antes e farão novamente. Ambas, juntas, estão a constituir uma família. Mas não podem viver juntas num quarto. Ainda não. Em um edifício, sim, mas em dois apartamentos diferentes.

E quando elas falam e tentam construir seu lar, mais uma vez, não deveria haver interferência externa. Elas não precisam de ninguém para lhes dizer o que fazer. Elas sabem, elas encontrarão uma linguagem comum se deixadas sozinhas. Tudo isto é possível e espero que, em breve, aconteça. Mas não no “caminho alemão”. Isto acontecerá no “caminho coreano” ou não acontecerá.

[*] Filósofo, romancista, director de cinema e jornalista de investigação. É o criador de Vltchek’s World in Word and Images .

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