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Segunda, 03 Dezembro 2018 07:12 Última modificação em Segunda, 10 Dezembro 2018 10:08

"Viva os Cadernos do Terceiro Mundo!"

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País: Brasil / Comunicaçom / Fonte: Pátria Latina

[Paulo Mateta*] Os estudiosos da minha geração se lembrarão certamente dos Cadernos do Terceiro Mundo.

Era uma publicação em português que circulava no espaço lusófono  na década de setenta/80 e era feita por destacados anti-fascistas brasileiros,argentinos e uruguaios,empenhados na luta por uma nova ordem informativa Mundial.

A sua importância para os estudantes da época em Angola foi singular.Não havia muitos livros de história e geografia a altura das necessidades do conhecimento, nas décadas de 70 e oitenta (*primeiros anos da nossa independência) e os Cadernos do Terceiro Mundo surgiram como um oásis no deserto. Anualmente para além das informações sobre as lutas anti-fascistas e anti-imperialistas dos povos,a publicação trazia uma monografia de todos os países do terceiro Mundo, história, geografia, demografia, economia, etc vinham plasmadas nas suas edições. Coisa boa para nós ,os estudantes da época.

O Editor dos Cadernos do Terceiro Mundo era Neiva Moreira  um destacado jornalista anti-fascista brasileiro que conheci na década de 80 no Centro de imprensa Aníbal de Melo, local na altura de peregrinação de todos os jornalistas estrangeiros trabalhando em Angola que lá eram acreditados para poderem exercer o seu ofício no país. Neiva Moreira ia muitas vezes a Angola. Confesso que fiquei admirado ao conhecer Neiva Moreira que para mim era um herói, pois abraçou o desafio de romper com o silêncio até então reinante na imprensa  ocidental sobre a luta dos povos de África e América Latina pela sua autodeterminação , independência e contra o fascismo .Todo este introito para assinalar que foi com grande tristeza e comoção que tomei conhecimento do falecimento,de Neiva Moreira no dia 10 de Maio de 2012 por doença, já com 94 anos,no Maranhão,sua terra Natal. Nunca mais soubera dele depois do seu conhecido regresso ao Brasil com o fim da ditadura. Recebi a notícia através do blog de um amigo jornalista brasileiro,estava eu no Peru em Missão de serviço. Já no Brasil procurei saber mais sobre a vida de José Guimarães Neiva Moreira, um grande lutador pelas causas trabalhistas no Brasil e que fora por duas vezes líder do Partido Trabalhista Brasileiro na Câmara dos Deputados.

No site da Globo.Com G1 Maranhão TV Mirante pudemos ler:

“No início de 1961 aproximou-se do ex-governador do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, Leonel Brizola, com quem passou a percorrer o país pregando as reformas de base do presidente João Goulart e articulando as chamadas forças nacionalistas.

Pela sua actuação no Congresso, quando era um dos líderes da Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), teve seu mandato de deputado federal cassado em 9 de abril de 1964, através do Acto Institucional nº 1.

Neiva Moreira foi preso e depois obrigado a exilar-se na Bolívia, de onde depois se mudou para o Uruguai, para, novamente com Brizola, organizar a resistência à ditadura, que se prolongaria por 20 anos. Nesse período ele ajudou a organizar movimentos sociais em vários países da América Latina e África.

Nesse período ele ajudou a fundar a Revista Cadernos do Terceiro Mundo, revista de cunho político e social, ao lado de jornalistas uruguaios e argentinos.

Com a implantação da Amnistia, em 1979, Neiva Moreira retornou a São Luís, onde implantou o PDT, partido que Leonel Brizola fundara ao chegar do exílio. Depois foi para o Rio de Janeiro, onde refundou os Cadernos do Terceiro Mundo.

Além da trajectória política, foi fiscal da prefeitura de São Luís; redator do Instituto Brasileiro de Comunicação (IBC); Secretário de Comunicação Social do Rio de Janeiro (1983-1985); presidente do Banco de Desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro (Bancoderj) de 1985-1986; e membro da Academia Maranhense de Letras, ocupando então a cadeira 16.

Neiva Moreira publicou, entre outros, os livros: Fronteiras do mundo livre. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1949; O Exército e a crise brasileira. Montevidéu: 1968; Modelo peruano. Buenos Aires: La Linea, 1973 (este livro foi reeditado em diversos países, inclusive no Brasil – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975); Brasília, hora zero. Rio de Janeiro: Terceiro Mundo, 1988 (depoimento sobre a transferência da Capital Federal para Brasília, trabalho em que o autor exerceu decisivo papel).” in Globo.comG1 Maranhão TV Mirante,(adaptação de algumas palavras  do texto para o português escrito e falado em Angola).

Pelo seu papel na afirmação de Angola no Concerto das Nações ao divulgar a luta do Povo Angolano pela independência  e autodeterminação através da sua Revista não podia deixar de render essa homenagem a Neiva Moreira, um jornalista/militante. Hum...Será que existem jornalistas/ militantes?

*Paulo Mateta é jornalista angolano

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