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Diário Liberdade
Domingo, 06 Janeiro 2019 13:24 Última modificação em Terça, 15 Janeiro 2019 21:17

A Grande Fraude Financeira do Pentágono

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País: Estados Unidos / Laboral/Economia / Fonte: O Diário

[Dave Lindorff] O Pentágono não é apenas o cerne da maior máquina de agressão militar do mundo. É também um gigantesco poço sem fundo para os gastos militares dos EUA, em muito maior escala do que é conhecido.

E, para não ter de prestar contas, tem um sistema de contabilidade de tal forma fraudulento que nenhuma entidade, interna ou externa, consegue decifrar. A rapina imperialista não poupa nem mesmo o dinheiro dos contribuintes norte-americanos.

A 15 de Novembro, Ernst & Young e outras firmas privadas contratadas para auditar o Pentágono anunciaram que não conseguiam acabar o trabalho. O Congresso tinha ordenado uma auditora independente ao Departamento da Defesa, o maior centro de custos discricionário do governo (o Pentágono recebe 54 cêntimos de cada dólar gasto por dotação federal), depois do Pentágono não conseguir ao longo de décadas auditar-se a si próprio. Essas firmas concluíram contudo que os registos financeiros do Departamento da Defesa estavam envolvidos por tantas deficiências, irregularidades e erros contabilísticos que uma auditoria fiável era simplesmente impossível.

O Subsecretário da Defesa, Patrick Shanahan, tentou disfarçar as coisas o melhor que pôde dizendo aos repórteres “Chumbámos na auditoria, mas nunca esperámos passar.” Shanahan insinuava que o Departamento da Defesa devia ter o crédito de tentar uma auditoria, dizendo “Tratou-se de uma auditoria a uma organização de 2,7 milhões de milhões de dólares, de maneira que o facto de termos feito a auditoria já é importante.” A verdade, contudo, é que o Departamento da Defesa foi empurrado para esta auditoria a espernear e a guinchar devido à frustração de ambos os partidos no Congresso e o resultado, se se tratasse de uma grande empresa, teria sido provavelmente um desastre na bolsa.

Conforme o senador republicano Charles Grassley do Iowa, crítico frequente das práticas financeiras do Departamento da Defesa, disse na sessão do Senado de Setembro de 2017, o permanente falhanço do Pentágono em fazer uma auditoria como deve ser reflecte “vinte e seis anos de um escandaloso arrastar de pés” da parte do Departamento da Defesa, onde “a resistência interna a auditar os livros é profunda.” Em 1990, o Congresso aprovou o Chief Financial Officers Act (Lei das Direções Financeiras), que exigiu a todos os departamentos e agências do governo federal o desenvolvimento de sistemas contabilísticos auditáveis e submetê-los a auditorias anuais. Desde então, todos os departamentos e agências cumprem o estabelecido, excepto o Pentágono.

Agora, uma investigação do The Nation descobriu uma explicação para o arrastar de pés do Pentágono. Durante décadas, os dirigentes e técnicos de contas do Departamento da Defesa têm perpetrado uma gigantesca fraude contabilística inconstitucional, cozinhando os livros para enganar deliberadamente o Congresso e elevar os orçamentos do Departamento ainda mais, independentemente das necessidades militares. O Departamento da Defesa inventou números de propósito para os relatórios financeiros anuais ao Congresso, representando milhões de milhões de dólares de transações aparentemente não existentes, sabendo que o Congresso confiava nesses relatórios enganadores quando decidia quanto atribuir ao Departamento da Defesa no ano seguinte, isto de acordo com registos do governo e entrevistas com actuais e antigos funcionários do Departamento da Defesa, fontes do Congresso e peritos independentes.

“Se o Departamento da Defesa fosse honesto, iria ao Congresso e diria ‘Todos estes orçamentos propostos por nós são um monte de lixo’,” disse Jack Armstrong, que levou mais de cinco anos no Gabinete de Inspector Geral do Departamento da Defesa como director supervisor de auditorias antes de se reformar em 2011.

A fraude funciona da maneira que se segue. Quando o Departamento da Defesa submete o pedido de orçamento anual ao Congresso, envia juntamente os relatórios financeiros do ano anterior, que contêm números fabricados. Estes números disfarçam o facto de o Departamento da Defesa nem sempre gastar todo o dinheiro que o Congresso aprova para cada ano. No entanto, em vez de devolver esses fundos não despendidos ao Tesouro dos EUA, conforme a lei estipula, o Pentágono por vezes branqueia e muda esse dinheiro para outras partes do orçamento do Departamento da Defesa.

Funcionários mais antigos do Pentágono dizem que esta prática viola o Artigo I, Secção 9 da Constituição dos EUA, que estipula:

“Nenhum dinheiro será retirado do Tesouro a não ser em consequência de dotação feita por Lei e será publicada periodicamente uma declaração e um balanço dos recebimentos e despesas de todo o dinheiro público.”

De entre as tácticas de lavagem que o Pentágono utiliza está o chamado “dinheiro para um ano” (fundos que o Congresso destina a serem gastos num único ano fiscal), o qual é transferido para um fundo comum de dinheiro para cinco anos. Esta manobra explora o facto de a lei federal não exigir a devolução do “dinheiro de cinco anos” não despendido durante esse período de alocação de cinco anos.

Os números falsos são mencionados internamente no Pentágono como “plugs” (tampões), como se tapassem um buraco, segundo referem actuais e antigos funcionários. “Nippering” (pinçar), referência a instrumento cortante usado para arrancar pontas de arame ou metal, é o jargão do Pentágono usado para extrair dinheiro da sua finalidade autorizada pelo Congresso para um fim diferente. Essa operação pode ser repetida múltiplas vezes “até que os fundos se tornem virtualmente não rastreáveis,” diz um veterano da orçamentação no Pentágono que exigiu anonimato de forma a salvaguardar o seu emprego como membro de grupo de pressão no Pentágono.

Os “tampões” podem ser de tamanho impressionante. No ano fiscal de 2015, por exemplo, o Congresso destinou 122 mil milhões de dólares para o exército dos EUA. No entanto, os registos financeiros do Departamento da Defesa para o orçamento de 2015 no exército incluíam uns fantásticos 6,5 milhões de milhões de dólares em tampões (sim, milhões de milhões!). À maior parte destes tampões “falta[va] documentação de suporte,” segundo a branda terminologia da fiscalização interna do Departamento, o Gabinete do Inspetor Geral GIG). Por outras palavras, não havia entradas em livro ou recibos para justificar como é que os 6,5 milhões de milhões tinham supostamente sido gastos. De facto, mais de 16 mil registos que poderiam mostrar quer a origem ou o destino de alguns dos 6,5 milhões de milhões tinham sido “removidos”, segundo o relatório do GIG.

Desta forma, o Departamento da Defesa impulsiona a despesa militar dos EUA ano após ano cada vez mais para cima, mesmo quando o país não está combatendo nenhuma guerra importante, diz Franklin “Chuck” Spinney, antigo denunciante do Pentágono. As revelações de Spinney ao Congresso e as notícias dos media sobre as despesas inflacionadas do Pentágono ajudaram a desencadear protestos públicos nos anos 80. “Arranjam os números e depois pedem mais dinheiro todos os anos,” disse Spinney ao The Nation”. Os fundos que o Pentágono tem acumulado ao longo do tempo através de manobras de contabilidade falsa “podem facilmente representar 100 milhões de milhões de dólares,” calculou Spinney.

De facto, o Congresso destinou uma quantia record de 716 mil milhões de dólares para o Departamento da Defesa no ano fiscal de 2019. Tal representa um aumento de 24 mil milhões sobre os 686 mil milhões do ano fiscal de 2018, que por sua vez esteve 6 mil milhões acima dos 686 mil milhões de 2017. É esta largueza que leva a despesa militar americana a ser mais elevada do que a dos dez países mais gastadores todos juntos, acrescentou Spinney. Entretanto, aquilo que mais se aproxima de uma guerra aberta que os Estados Unidos actualmente combatem é no Afeganistão, onde estão instalados cerca de 15.000 soldados, ou seja, apenas 2,8 por cento dos que se encontravam no Vietnam no auge da guerra.

As práticas contabilísticas do Departamento da Defesa parecem ser uma tentativa intencional para evitar a prestação de contas, diz Armstrong. “São utilizados uma quantidade de tampões – não todos, mas uma porção substancial deles – para obrigar recibos de contabilidade geral a concordar com os relatórios do orçamento geral, donde o que se encontra nos relatórios do orçamento é basicamente deixado à imaginação das pessoas,” diz Armstrong, que acrescenta “Será que o Departamento da Defesa gastou indevidamente fundos para uma finalidade aprovada noutra finalidade? Quem o pode dizer?”

“O governo dos Estados Unidos colecta todos os anos milhões de milhões de dólares com o objetivo de financiar funções essenciais, incluindo os esforços de segurança nacional no Departamento da Defesa,” afirmou ao The Nation o senador Grassley. “Quando burocratas não eleitos usam mal, gerem mal e gastam indevidamente dinheiro dos contribuintes, não só desviam recursos de funções vitais da governação, como enfraquecem a confiança dos cidadãos no seu governo.”

Esta fraude financeira do Pentágono é para Spinney mais uma vez um “déjà vu”. Já nos anos 80, ele e um grupo de outros colegas com intenções reformistas expuseram como o Departamento da Defesa usara um truque contabilístico semelhante para dilatar a despesa do Pentágono e acumular dinheiro para programas “fora dos livros”. “O Departamento da Defesa sobrestimou rotineiramente as taxas de inflação dos sistemas de armamento,” lembrou Spinney. Quando a inflação actual acontecia ser mais baixa do que as estimativas, não devolviam os fundos em excesso à Tesouraria, conforme exigido por lei, mas subtraíam-nos através de qualquer coisa como uma “Conta de Junção de Excedentes”, disse ele.

“Dessa forma, o Pentágono conseguiu criar um saco azul de quase 50 mil milhões de dólares (cerca de 120 mil milhões ao valor actual), acrescentou Spinney. Admite ele que são usados presentemente truques semelhantes para financiar programas secretos, possivelmente incluindo a actividade das Forças Especiais dos EUA na Nigéria. Esse programa parece ter sido iniciado sem conhecimento da sua natureza pelo Congresso, que só veio à luz quando uma unidade de Forças Especiais caiu numa emboscada no ano passado com a morte de quatro soldados americanos.

“Devido aos tampões, não há a possibilidade de se fazer uma auditoria para rastrear o financiamento e as despesas do Pentágono,” explica Asif Khan do Gabinete de Contas do Governo (GCG), que fiscaliza a burocracia federal. “Nas auditorias, é fundamental possuir-se um registo financeiro fiável dos anos anteriores de forma a poder-se auditar os livros do corrente ano,” faz notar Khan, o chefe da unidade de Gestão de Activos da Segurança Nacional no GCG. Tampões e outras irregularidades ajudam a explicar porquê o Pentágono está desde há muito no topo ou perto da lista das agências de “elevado risco” do GCG propensas a significativas fraudes, desperdícios e abusos, acrescentou.

The Nation submeteu perguntas escritas pormenorizadas e pediu entrevistas a funcionários superiores do Departamento da Defesa antes de publicar este artigo. Só pessoal das relações públicas prestou declarações. Numa resposta por email, Christopher Sherwood do gabinete de Relações Públicas do Departamento da Defesa negou qualquer irregularidade contabilística. Toda a transferência de fundos entre uma conta orçamental e outra “exige uma acção de reprogramação” pelo Congresso, escreveu Sherwood, acrescentando que qualquer dessas transferências de valor superior a 1 porcento do orçamento oficial do Departamento da Defesa requer aprovação por “todos os quatro comités congressionais de Defesa.”

A escala e as manobras da fraude contabilística do Pentágono começaram a ser descobertas no ano passado por uma persistente equipa de investigação liderada por Mark Skidmore, professor de economia especializado em finanças de governação estatal e local na Michigan State University. Skidmore e dois estudantes graduados passaram meses a examinar minuciosamente as revisões dos balanços financeiros do Departamento da Defesa feitas pelo Gabinete do Inspetor Geral do Departamento. Escavando em profundidade no relatório do gabinete sobre o balanço do Exército de 2015, os investigadores depararam-se com alguma informação peculiar. O Apêndice C, pág.27, mencionava que o Congresso tinha atribuído nesse ano 122 mil milhões de dólares ao Exército dos Estados Unidos. Mas, o apêndice parece também mencionar que o Exército tinha recebido um depósito em dinheiro do Tesouro dos EUA de 794,8 mil milhões. Esta verba era mais de seis vezes superior à atribuída pelo Congresso – de facto, era superior ao orçamento total do Pentágono para esse ano. O mesmo apêndice mostrava que o Exército tinha contas a pagar (facturas em dívida) no total de 929,3 mil milhões de dólares.

“Pergunto-me como se podiam conseguir estes dois tipos de ajustes a partir de um orçamento de 122 mil milhões,” lembrou Skidmore. “Pensei inicialmente que aquilo era absurdo e no entanto tudo o que o Gabinete do Inspector Geral parecia fazer era dizer ‘Aqui estão ‘tampões’ e depois mais nada. Embora esta espécie de coisa devesse ter uma bandeira vermelha, passava à frente. Por isso, decidimos ver mais profundamente.”

Para garantir que o ano fiscal 2015 não constituía uma anomalia, Skidmore e os seus estudantes graduados alargaram a investigação, examinando os relatórios do Gabinete do Inspector Geral sobre os registos financeiros do Pentágono recuando até 1998. Novamente, encontraram que as verbas mencionadas como tendo circulado para e do Departamento da Defesa eram gigantescas, muitas vezes reduzindo a minúsculas as verbas que o Congresso tinha aprovado: 1,7 milhões de milhões de dólares em 1998, 2,3 milhões de milhões em 1999, 1,1 milhão de milhões em 2000, 1,1 milhão de milhões em 2007 e 1,7 milhão de milhões em 2012, mais verbas da ordem das centenas de milhar de milhões noutros anos.

Ao todo, pelo menos uns mirabolantes 21 milhões de milhões de dólares de transações financeiras do Pentágono entre 1998 e 2015 não conseguiam ser seguidas, documentadas ou explicadas, segundo concluiu Skidmore. Para dar uma ideia da dimensão desse total, 21 milhões de milhões de dólares é aproximadamente cinco vezes a despesa federal total do governo durante um ano. É mais que o Produto Interno Bruto dos EUA, o maior do mundo num valor calculado em 18,8 milhões de milhões. E esses 21 milhões de milhões de dólares incluem apenas tampões descobertos em relatórios do Gabinete do Inspetor Geral, que não abarcam toda a despesa do Pentágono.

Para ser claro, Skidmore, num relatório em coautoria com Catherine Austin Fitts, anterior secretária assistente do Departamento do Desenvolvimento Habitacional e Urbano que se lamentava de semelhantes tampões nos balanços financeiros desse departamento, não afirma que todos esses 21 milhões de milhões de dólares eram financiamentos secretos ou indevidamente utilizados. E de facto encontram-se tampões em ambos os lados positivo e negativo do livro de contas, desse modo potencialmente se anulando um ao outro. Mas, a contabilidade do Pentágono é tão obtusa que, acrescentaram Skidmore e Fitts, é impossível seguir o rasto das actuais fontes e destinos dos 21 milhões de milhões. Além disso, o desaparecimento de milhares de registos acrescenta incerteza. A consequência disso é que ninguém consegue saber com certeza quanto é que desses 21 milhões de milhões foi ou não foi gasto legitimamente.

Isso mesmo se pode aplicar à liderança sénior do Pentágono. Um bom exemplo disto foi Donald Rumsfeld, o notório microgestor secretário da Defesa durante o governo Bush/Cheney. Em 10 de Setembro de 2001, Rumsfeld convocou uma dramática conferência de imprensa no Pentágono para fazer um anúncio surpreendente. Referindo o enorme orçamento militar da sua responsabilidade, disse que “de acordo com algumas estimativas, não conseguimos encontrar 2,3 milhões de milhões de dólares de transações.” Esta notícia chocante de que uma verba mais de cinco vezes superior ao orçamento do Pentágono do ano fiscal 2001 com um valor estimado de 313 mil milhões se tinha perdido ou era mesmo simplesmente impossível de rastrear constituiu, pelo menos durante um ciclo noticioso de 24 horas, uma grande estória nacional, tal como o foi o comentário do secretário Rumsfeld de que o adversário da América não era a China ou a Rússia, mas antes algo “mais próximo de casa: a burocracia do Pentágono.” Igualmente espantoso foi o aviso de Rumsfeld de que o rastreio dessas transações em falta “podia ser... uma questão de vida e de morte.” Nenhum responsável do Pentágono tinha alguma vez afirmado tal coisa, nem algum alguma vez o fez desde então. Mas, a exposição de Rumsfeld morreu rapidamente quando, na manhã seguinte a 11 de Setembro, quatro aviões a jacto comerciais desviados mergulharam a toda a velocidade nas duas torres do World Trade Center, no Pentágono e num campo da Pensilvânia. Desde então, não houve qualquer seguimento, nem também qualquer tentativa para encontrar o dinheiro em falta.

Lembrando a sua permanência de décadas dentro do Pentágono, Spinney salientou que a escorregadia contabilidade e os resultantes balanços financeiros fraudulentos não são devidos à incompetência dos contabilistas do Departamento da Defesa. “Não se deve olhar para isto como uma aberração,” disse. “É a manobra habitual. O objectivo é paralisar o Congresso.”

Foi esse certamente o efeito. Conforme um funcionário do Congresso, com longa experiência de investigação dos orçamentos do Pentágono, disse ao The Nation anonimamente devido à necessidade de continuar a lidar com funcionários do Pentágono, “Não sabemos como é gasto o dinheiro do Pentágono. Sabemos que financiamento total é atribuído em cada ano, mas não sabemos quanto desse financiamento é gasto nos programas que são referidos, quanto custam as coisas realmente e se os pagamentos vão para as contas devidas. Se este género de coisas acontecesse no sector privado, as pessoas seriam despedidas e processadas.”

Os funcionários do Departamento da Defesa desde sempre insistiram em que as suas práticas contabilísticas e financeiras são correctas. Por exemplo, o Gabinete do Inspector Geral tentou explicar que os tampões absurdamente grandes existentes nos balanços financeiros do Departamento da Defesa constituíam uma prática comum largamente aceite como prática contabilística no sector privado.

Quando se perguntou a Bridget Serchak, na altura porta-voz de imprensa do Gabinete do Inspector Geral, sobre os 6,5 milhões de milhões de dólares de tampões no ano fiscal 2015, ela respondeu “Fazem-se ajustamentos aos dados do balanço financeiro do Fundo Geral do Exército ... Por exemplo, houve um ajustamento líquido não justificado de 99,8 mil milhões de dólares que foi feito no balanço de 0,2 mil milhões reportado a Contas a Receber.”

Existe um grão de verdade na explicação de Serchak, mas apenas um grão.

Como perito em orçamentação governamental, Skidmore confirmou que é prática aceite fazer ajustamentos nos relatórios orçamentais para fazer ambos os lados do livro-razão concordarem. Esses ajustamentos podem ser utilizados quando se perderam os recibos, por exemplo num fogo, ou quando os fundos foram incorrectamente classificados como pertencendo a uma divisão dentro de uma empresa em vez de outra. “Mas, essa espécie de ajustamentos deviam ser excepção, não a regra, e deviam significar uma pequena percentagem apenas do orçamento global,” afirmou Skidmore.

Pela sua parte, o Gabinete do Inspector Geral condenou os números falsos que se encontram em muitos balanços financeiros do Departamento da Defesa sobre o Serviço de Finanças e Contabilidade da Defesa (SFCD), uma grande operação contabilística do Departamento da Defesa com base em Indianápolis, Indiana. Em sucessivas revisões, o Gabinete do Inspector Geral apontou que o SFCD tinha vindo a criar números “não sustentados” para meter tampões nos balanços financeiros do Departamento da Defesa, inventando entradas no livro-razão para apoiar esses números inventados e por vezes até “removendo” registos de transações que podiam documentar essas entradas. No entanto, o Inspector Geral jamais advogou passos punitivos contra funcionários do SFCD, uma falha que sugere que os superiores do Departamento da Defesa aprovam tacitamente as fraudes.

Skidmore, segundo diz, requereu repetidamente explicações para estas práticas contabilísticas, mas a resposta do Pentágono foi de obstrução e encobrimento. Mesmo o Gabinete do Inspector Geral, cujos relatórios disponíveis têm criticado estas práticas durante anos, recusou uma resposta às questões do professor. Em vez disso, o Gabinete começou a retirar do seu website relatórios arquivados. (Skidmore e os seus estudantes graduados, em antecipação a essa possibilidade, tinham já descarregado os documentos, que foram mais tarde restaurados para acesso público em diferentes endereços de rede).

Inquéritos do The Nation encontraram resistência idêntica. Caso em questão: um recente relatório do Gabinete do Inspector Geral do Departamento da Defesa sobre o balanço financeiro da Marinha dos EUA para o ano fiscal 2017. Embora os relatórios de auditoria do Gabinete do Inspetor Geral em anos anteriores tivessem sempre estado disponíveis em linha sem restrições ou censura, este relatório em particular apareceu de repente sob forma pesadamente truncada: não apenas os números incluídos, mas inclusive o título! Só por desleixo burocrático se permitiu ver que o relatório se referia às finanças da Marinha: os censores falharam algumas referências à Marinha no corpo do relatório, conforme se vê nas passagens reproduzidas.

A um pedido ao Gabinete do Inspector Geral para se obter o documento não censurado foi dada a seguinte resposta: “Foi decisão da Marinha censurá-lo e não podemos nada quanto a isso.” A pedido do The Nation, o gabinete do senador Grassley também pediu ao Gabinete do Inspetor Geral para não censurar o relatório. De novo, o Gabinete recusou. Aguarda resposta um pedido a coberto do Acto da Liberdade de Informação feito pelo The Nation para conseguir o documento não censurado. Khan, do Gabinete de Contas do Governo (GCG), não ficou admirado com o falhanço da auditoria independente ao Pentágono deste ano. Segundo apontou, o sucesso teria requerido “um esforço de boa-fé por parte dos funcionários do Departamento da Defesa, mas até à data tal não surgiu.” Acrescentou que “como resultado de auditorias parciais feitas em 2016, o Exército, a Marinha, a Força Aérea e os Fuzileiros têm mais de 1000 situações encontradas pelos auditores a precisar de correcção. As auditorias parciais ao orçamento de 2017 foram uma repetição, Até agora, praticamente nada foi corrigido.”

Deixemos as coisas assentar: tal como estamos, ninguém sabe com segurança como é que o maior item do orçamento federal está actualmente a ser gasto. Mais ainda, o Congresso no seu todo mostrou pouco interesse em investigar este escândalo de proporções épicas. Os tampões absurdamente gigantescos jamais sequer foram postos em questão nas audições do Comité dos Serviços Armados e Orçamento.

Uma parte interessada actuou, mas essa actuação provavelmente vai perpetuar a fraude. O Quadro Consultor das Normas da Contabilidade Federal estabelece as normas contabilísticas para todas as agências federais. No início do ano, este quadro propôs novas linhas de orientação dizendo que as agências trabalhando com programas classificados deviam ser autorizadas a alterar números dos balanços financeiros e mudar a atribuição de fundos para esconder as operações classificadas da agência. (Nenhuma agência do governo funciona mais com programas classificados do que o Departamento da Defesa, que inclui a Agência Nacional de Segurança.) As novas linhas tornaram-se efectivas a 4 de Outubro, a tempo dos balanços financeiros do final de ano deste ano.

Assim, é esta a situação: temos um orçamento do Pentágono que o anterior supervisor da auditoria interna do Departamento da Defesa, Jack Armstrong, classifica francamente como “lixo”. Temos um Congresso incapaz de avaliar cada proposta de orçamento do Pentágono para o novo ano fiscal porque não pode saber quanto dinheiro foi de facto gasto durante os anos anteriores. E temos um Departamento da Defesa que apenas dá conversa fiada para concertar qualquer das duas coisas. Porque haveria de o fazer? O status quo gerou orçamentos do Departamento da Defesa durante décadas cada vez mais altos, sem falar nos lucros cada vez mais altos para a Boeing, a Lockheed e outros empreiteiros militares.

Quem perde com esta situação somos todos. A fraude contabilística do Pentágono desvia muitos milhares de milhões de dólares que podiam ser dedicados a outras necessidades nacionais, como a saúde, a educação, a criação de emprego, a ação pelo clima, a modernização de infraestruturas e outras. De facto, a fraude financeira do Pentágono equivale a um roubo em grande escala, roubo não apenas aos contribuintes americanos, mas também ao bem-estar da nação e ao seu futuro.

Conforme disse num discurso de 1953 o presidente Dwight D. Eisenhower, que se reformou de militar como general de cinco estrelas depois de conduzir as forças aliadas à vitória na 2ª Guerra Mundial, “cada espingarda que é fabricada, cada navio de guerra que é lançado, cada foguete disparado significa, em última instância, um roubo aos que têm fome e não são alimentados, aos que têm frio e não são agasalhados.” O que diria hoje Eisenhower sobre um Pentágono que deliberadamente engana os representantes do povo no Congresso para conseguir mais dinheiro para si enquanto a fome, a pobreza, o colapso do clima e outros males afligem cada vez mais o país?

Correção: Uma versão anterior deste artigo mencionava 6,5 mil milhões de dólares de tampões em 2015. De facto, conforme citado no artigo, o número correcto é 6,5 milhões de milhões. O artigo mencionava também um número inexacto para a percentagem dos dólares dos impostos federais recebidos pelo Pentágono. De facto, o Pentágono recebe mais de metade de cada dólar da despesa federal e não dois em cada três dos dólares dos impostos federais. O texto foi corrigido.

Este artigo foi originalmente publicado por “The Nation “.

Tradução: Jorge Vasconcelos

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