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Sexta, 25 Janeiro 2019 12:56 Última modificação em Domingo, 17 Fevereiro 2019 17:32

Haiti: a Revolução que mudou o mundo

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País: Haiti / Reportagens / Fonte: Quilombo Cibernético

[Messias Martins] Em janeiro comemoram-se os 228 anos da Revolução Haitiana, única revolução de escravizados que não só conseguiu pôr um fim à escravidão como também proclamou a independência, formando o primeiro estado negro fora da África.

Nenhum processo revolucionário, porém, nasce do dia para noite, e a história da colônia francesa das Índias Ocidentais de São Domingos é muito anterior à presença de Cristóvão Colombo no Novo Mundo. Porém, é com a invasão realizada pelos europeus que a ilha passa a ser a colônia mais próspera da América, processo que se iniciou com o extermínio da população nativa, a qual, em quinze anos de colonização, foi reduzida de um milhão para menos de sessenta mil.

Em 1517 o padre Bartolomeu de Las Casas, junto com o rei Carlos V , organizaram a compra de 15 mil africanos como escravos para solucionar o extermínio nativo. Assim, o sacerdote e o rei, representando a Igreja e o Estado, começavam o tráfico negreiro e a escravidão africana na América.

Concomitantemente à Revolução Francesa, os revolucionários haitianos entenderam que precisavam de uma mudança brusca na realidade em que viviam, mas como esperar que os ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade chegassem à colônia que representava quase dois terços da economia da metrópole e movimentava economicamente todo o Ocidente através da escravidão e tráfico negreiro no século VIII?

Foram mais de 300 anos de sangue, suor e lágrimas até 1791 e uma insurreição realmente organizada. A ilha com até então mais de quinhentos mil escravizados (sendo 2/3 nascidos no continente africano) iniciaram o começo do fim do sistema escravista nas colônias francesas quando, após uma cerimônia voodoo, desceram o morro e atearam fogo em mais de mil fazendas, com um senhor de escravos queimando no meio de cada fogueira, enquanto dançavam e cantavam: Ê! Ê! Bomba! Heu! Heu! Canga, bafio té! Canga, mouné de lé! Canga, do ki lá! Canga, li! (“Juramos destruir os brancos e tudo que possuem; que morramos se falharmos nessa promessa.”)

Aquela era a primeira noite de uma sangrenta guerra civil, colonial e racial que durou até 1804, com a proclamação da Independência do Haiti. Toussaint L’Ouverture, que era escravo até os 45 anos, quando conseguiu comprar sua alforria, se destaca nesse processo como “o negro invencível”, proclamando a si mesmo como o responsável pela vingança e dedicando sua vida para que a liberdade e a igualdade reinassem em São Domingos.

Os revolucionários haitianos mostraram para o mundo que não era necessária educação formal nem coragem para nutrir um sonho de liberdade. Liderados por Toussaint, eles venceram os exércitos francês, espanhol, holandês e botaram para correr o até então todo-poderoso exército britânico.

Em toda a América escravagista rumores de uma revolução de escravos fazia os brancos ficarem com o famigerado “cu na mão”, e o medo de uma haitinização se espalhava. Em 1845, para citar apenas um dos diversos exemplos no continente, era preso em Recife o ex-escravizado Agostinho Pereira do Nascimento, chamado pelos seus mais de 300 seguidores de Divino Mestre, com a acusação de ensinar negros e negras a ler e escrever. Em sua posse estava o ABC do Haiti, livro que contava em verso de A a Z a vitória dos revolucionários haitianos. Não há mais registros dele após ser detido pelas autoridades da época, como aconteceu mais de 150 anos depois com o ajudante de pedreiro Amarildo, que ainda hoje permanece com seus restos mortais desaparecidos depois de ter sido levado a uma Unidade de Polícia Pacificadora.

A Revolução Haitiana e todos os obstáculos que teve de enfrentar nos dão um vislumbre de que qualquer intento de negros e negras de escrever a própria História não será tolerado pelas autoridades. Quase um ano depois de seu violento assassinato, ainda não sabemos os responsáveis pela morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Mas tanto Toussaint e seus revolucionários, como o Divino Mestre e Marielle continuam presentes em nossa luta cotidiana. Sementes que estão brotando em toda parte e suas vozes continuam ecoando através da nossa vida. As antigas autoridades tal como as atuais temem e tremem diante da organização do povo negro. Em tempos de ascensão fascista é mais do que nunca imprescindível que nos haitinizemos e que os racistas voltem a ser o carvão a queimar fogueiras em cada canto desse país.

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