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Sábado, 23 Fevereiro 2019 15:45 Última modificação em Domingo, 10 Março 2019 22:49

A carta de Silvio Rodríguez a Rubén Blades: "Umha revoluçom nom é umha tranquila, pacífica obra de beneficência" Destaque

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País: Venezuela / Cultura/Música, Direitos nacionais e imperialismo / Fonte: Diário Liberdade

[Traduçom do Diário Liberdade] Traduzimos a carta que o revolucionário e artista cubano Silvio Rodríguez dirigiu ao também cantor Rubén Blades, com motivo do posicionamento pró-imperialista do panamenho em relaçom à Venezuela.

Carta de Silvio Rodríguez a Rubén Blades

As verdadeiras revoluçons som sempre difíceis. Che Guevara sabia algo disso e dizia que, nas verdadeiras, se vence ou se morre, porque umha revoluçom nom é umha tranquila, pacífica obra de beneficência, como quando as damas presunçosas da alta sociedade saem a fazer caridade por aqueles nom tenhem justiça.

Umha revoluçom é umha viragem, umha ruptura, umha abrupta mudança de perspectiva. É quando os oprimidos deixam de acreditar em que os que mandam –os que os oprimem– tenhem a verdade do seu lado e pensam que o mundo pode ser diferente de como foi até entom.

Mas é claro que os opressores nom se resignam a abandonar as suas posiçons de domínio e luitam a vida ou morte por elas, embora aparentemente os "outros" sejam os seus compatriotas: em seguida se alheiam da maioria do povo, porque as revoluçons –nom os golpes de estado– sempre som obra da maioria.

Num respeteioso diálogo com o presidente venezuelano, embora nom tanto consigo mesmo, o cantor Rubén Blades, há anos um dos represenantes da cançom social na América Latina, expom o seu conceito de revoluçom:

“Para mim, a verdadeira revoluçom social
é a que entrega melhor qualidade de vida a todos,
a que satisfai as necessidades
da espécie humana, incluída a necessidade
de ser reconhecido e de chegar ao estádio
de autorealizaçom, a que entrega oportunidade
sem esperar servidom em troca.
Isso, desafortunadamente, nom ocorreu
ainda com nengumha revoluçom[1].

Nem vai acontecer em nengumha revoluçom verdadeira, Rubén. Nom era senom a vontade de melhorar a qualidade de vida das pessoas o que inspirou a Reforma Agrária cubana, que entregou terras a milhares de camponeses sem terra e, essencial para tentar melhor qualidade de vida, foi a literacia cubana de 1961 –porque nom há autorrealizaçom sem saber ler– mas, em seguida, chegárom a invasom da Baía dos Porcos e o bloqueio económico que é repudiado cada ano na ONU, embora acabe de completar 52.

Fascina-me essa ideia de que umha revoluçom social "satisfai as necessidades da espécie humana" e claro que isso só o fai umha revoluçom quando é vista historicamente: nom haveria democracia nem direitos humanos sem a prédica dos iluministas: sem Voltaire, Montesquieu, Rousseau, mas os que levárom adiante essas ideias na prática social, os que as impugérom como "necessidades da espécie humana" –Danton, Marat, Robespierre, porque as monarquias governavam por direito divino– guillotinaron a aristocracia francesa que se rebelou contra elas, a aristocracia que afogava em sofrimentos, em miséria os direitos ds sans culottes, talvez os que Evita Perón chamou no seu momento "os descamisados" e Martí "os pobres da terra".

O tempo transcorreu, lembra-nos Blades, mas os direitistas venezuelanos chamam "los tierrúos" a esses pobres sem sapatos que eles exploram no século XXI. É impossível que umha revoluçom faga felizes os dous grupos, porque a revoluçom vai dar justiça, e fazer justiça nom é umha festa de aniversário.

Ou seja, que nunca houvo umha revoluçom social como entende Blades que deve ser. Será que ele nom sabe o que é umha revoluçom social? Segundo se deduz do que escreve, nom foi nem a inglesa, nem a francesa, nem a russa, nem a mexicana, nem muito menos a cubana que Fidel Castro liderou. Presumo que tampouco a venezuelana de há douscentos anos, apesar de Blades escrever dessa Venezuela que ama como "o povo de Bolívar". E o que foi que o Libertador fijo? umha tranquila e plácida obra de bem-estar social? Nom gritou Pátria ou Morte, senom que assinou um decreto de guerra a morte para os inimigos da pátria, que eram os da revoluçom.

Blades nom só o proclama agora nessa resposta a Maduro, senom que o cantava nas suas cançons latino-americanistas: "de umha raça unida, a que Bolívar sonhou". Entom, a tentativa de realizar o sonho de Bolívar nom é o processo integrador que empreendeu Chávez, e que enfrenta a um império que nos quer divididos, senom que unicamente servirá para “mover o cu” dançando salsa? E cantar em voz alta: "A to'a la gente allá en los Cerritos que hay en Caracas protégela". A "to'a esa gente" protegem-na, além de María Lionza, os médicos de Barrio Adentro, porque esses que gritam e agridem nas ruas nom se ocupárom nunca da saúde dos venezuelanos humildes.

Talvez foi María Lionza a que os mandou descer dos Cerritos, quando o golpe de estado de abril de 2002, para sitiar o ocupado palácio de Miraflores e exigir o regresso do presidente que tinham elegido. Nom te deixes confundir, Blades, "procura o fundo e a sua razom", e trata de entender as revoluçons da história, nom as que sonhamos para nos tranquilizarmos.

Para Blades, o programa político do chavismo "obviamente nom é aceite pola maioria da populaçom". O que quer dizer que a maioria que elegeu Maduro nom o é. Blades ignora as 18 eleiçons ganhas polo chavismo e os quase 60% de votantes que o PSUV obtivo nas eleiçons de dezembro? Que a direita dixo que seria um plebiscito? E declara maioria os representantes da velha direita derrocada por Pablo Pueblo, porque esse homem –lembrou-nos Neruda– acorda cada douscentos anos, com Bolívar.

Lembro a mim própria, nos anos setenta, no antigo apartamento de Silvio Rodríguez, com a sua porta negra em que tinha atingido o mundo, a descobrir os primeiros trabalhos de Rubén Blades com a orquestra de Willy Colón. Ficamos encantados de nos depararmos com umha salsa patriótica, "La maleta", embora soubéssemos que nom eram ideias unánimes entre os latino-americanos. Nengumha ideia profundamente renovadora consegue apoio unánime, ao menos quando aparece: o poder estabelecido –isso que os norte-americanos chamam stablishment– tem muitos recursos, muitas maneiras de "convencer", de impor os seus interesses, e sabe que som poucos os que nom cedem ante eles.

Umha cousa é cantar e outra viver o que se canta e cantá-lo em toda a parte. Tenho vivo a lembrança desse extraordinário salsero que é Oscar D'Leòn, cantando, nos anos oitenta, a um público cubano que o adorava, que enchia um coliseu de 15 mil localidades para o escuitar e cantar com ele. Lembro-o feliz, acocorando-se no chao do aeroporto de Havana para beijar a terra da ilha ao partir e, às semanas, vim-no a abjurar da sua viagem a Cuba, quando os magnatas do disco no Miami contrarrevolucionário, o acusárom de comunista por cantar em Havana e ameaçárom com lhe fechar todas as suas portas, que eram também as mais lucrativas da sua realizaçom como artista.

Oscar sabia que essa direita, essa burguesia –e muito menos o poder imperial que tinham detrás– nom brincavam: a Benny Morei, que era o melhor cantor da América Latina, a RCA Víctor nom lhe gravou mais um disco quando decidiu ficar a viver e a cantar na Cuba revolucionária.

Compreendo todo, mas fico com a tristeza de já nom poder escuitar Rubén Blades como esse cantor da nossa América que quijo ser.

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