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Diário Liberdade
Domingo, 21 Abril 2019 17:56

Assange e os vilões

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Atilio Borón

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Um indignado e certeiro texto, que aponta com clareza a extrema indignidade da perseguição empreendida contra Assange, a grosseira violação de regras fundamentais do direito internacional na sua detenção, o vergonhoso servilismo do presidente do Equador e dos governos europeus face à arbitrariedade com que o poder em Washington quer ajustar contas com alguém que nada mais fez do que expor o seu apodrecimento moral e o seu gangsterismo político.


Pouco resta a acrescentar a tudo o que já foi dito, e estava sendo dito, do caso Assange. Uma operação absolutamente violatória do direito internacional tal fora estabelecido pelo Grupo de Trabalho da ONU contra as Detenções Arbitrárias que, numa extensa resolução datada de 4 de Dezembro de 2015 estabelecia que a prisão do fundador do Wikileaks era arbitrária e ilegal e ele devia ser libertado. E não apenas isso, no seu item 100 requeria que “os governos da Suécia e do Reino Unido ... garantissem a situação do sr. Assange para assegurar a sua segurança e integridade física, facilitar o exercício do seu direito à liberdade de movimentos da forma mais expedita possível e assegurar e para assegurar o pleno gozo dos direitos garantidos pelas normas internacionais relativas à detenção de pessoas.”
Num sistema internacional em que com cada vez mais frequência se atropela a legalidade laboriosamente construída desde o final da Segunda Guerra Mundial, não é surpreendente o que aconteceu. Nesta verdadeira tragédia para a humanidade - porque é isso que significa a perseguição a Julian Assange - há alguns vilões.

Em primeiro lugar, Lenin Moreno, (a) “Judarrás” repugnante síntese de Judas e Barrabás que privou o australiano nacionalizado equatoriano do asilo diplomático concedida há sete anos, pouco depois de ele, privado de acesso à internet e telefonia, ter supostamente sido quem trouxe à luz pública as negociatas obscuras de Moreno. O comportamento do “Judarrás” é também duplamente detestável porque nem sequer teve a coragem de o expulsar da sede da embaixada equatoriana em Londres, antes solicitou à Polícia Metropolitana que, violando a imunidade diplomática, entrasse no referido recinto para prender pela força o asilado. Poucas vezes se viu um tal exemplo de baixeza e servilismo perante as ordens do império, desejoso de aplicar uma humilhação exemplar a Assange como sinal intimidatório para os muitos que como ele querem garantir o direito à informação, componente essencial de uma ordem política democrática.

Em segundo lugar, a Casa Branca é o outro vilão, que desde o tempo do “progressista” Barack Obama fez o impossível para conseguir que Assange fosse extraditado para os EUA. Se isto vier a acontecer, caso esta solicitação seja aceite, espera o jornalista ser sujeito a “duríssimas técnicas de interrogatório” (um eufemismo para evitar dizer tortura), uma sucessão interminável de processos judiciais e acusações, a prisão e, provavelmente, o seu assassínio numa bem orquestrada “rixa entre condenados” numa prisão povoada de bandidos, narcotraficantes e criminosos da pior espécie. A sua eventual morte numa rixa de prisioneiros evitaria aos EUA a acusação de ter condenado à morte um homem que quis que a verdade fosse conhecida.

Terceiro, os inapresentáveis “representantes do povo” ​​na Câmara dos Comuns do Reino Unido e os congressistas dos Estados Unidos. Os primeiros irromperam em grandes manifestações de júbilo quando a primeira-ministra Theresa May informou da prisão de Assange. O mesmo ocorreu no Senado e na Câmara de Representantes do Congresso dos EUA, constituída em grande parte por politiqueiros que enriqueceram na sua função legislativa protegendo os lobbies e as empresas que financiaram as suas carreiras políticas e condenando a maioria da população do seu país a crescentes dificuldades económicas, a ponto de “os 1% mais ricos dos EUA terem rendimentos maiores do que 90% da população”. Estes personagens são os que tornaram possível que o assalariado médio desse país “necessite de trabalhar mais de um mês para ganhar o que um CEO ganha numa hora.” Pois bem: foi esta a gentalha que celebrou com alvoroço a prisão de Assange. (Ver estes e outros dados em: Nicholas Kristof: : “An Idiot’s Guide to Inequality”, no New York Times, 22 de Julho de 2014, e na nota de William Marsden, “Obama’s State of the Union speech will be call to arms on wealth gap”, em https://o.canada.com/news, 26 de Janeiro de 2014.)

Em quarto e último, os governos europeus que não somente consentem este ataque de Washington contra o livre fluxo da informação e a imprescindível transparência da gestão pública como admitem, vassalos indignos que são, que os desejos da Casa Branca e as leis ditadas pelo Congresso desse país possuam validade extraterritorial e se apliquem nos seus próprios países sem tentarem o menor assomo de protesto ou resistência. Tem esse sentido o seu vergonhoso acompanhamento das decisões de Washington: desde o caso Assange até às sanções económicas contra a Rússia; ou desde a criminosa campanha contra Kadhafi na Líbia até à brutal agressão contra a Síria; ou desde o bloqueio a Cuba até à palhaçada da opereta cómica montada em torno da figura de Juan Guaidó na Venezuela, tudo diz muito claramente que a arte do bom governo é algo que parece ter-se perdido numa Europa que descartou qualquer pretensão de soberania e dignidade nacionais e se resignou a cumprir o desonroso papel de compincha de quantas tropelias queira perpetrar o imperador de turno.

Fonte: La Haine.

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