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Diário Liberdade
Domingo, 10 Março 2019 22:51 Última modificação em Sexta, 22 Março 2019 12:32

A luta grevista nos Estados Unidos aumentou em 2018

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País: Estados Unidos / Laboral/Economia / Fonte: Vermelho

Os números mostram que a prática tradicional da luta dos trabalhadores está de volta: no ano passado, nos EUA, 485 mil participaram de grandes greves, como não se via há décadas.

Recentemente o Bureau of Labor Statistics (BLS) divulgou o relatório sobre as greves em 2018, e os números confirmam que a luta de classe está viva no país. Em 2017, apenas 25.000 trabalhadores participaram de grandes paralisações; em 2018 foram quase vinte vezes mais: 485.000.

Estes números foram divulgados apenas duas semanas após outro relatório do BLS ter mostrado o declínio das filiações sindicais em 2018, após uma decisão da Corte Suprema (favorável a Mark Janus, um anti-sindicalista que obteve da Corte Suprema, em fevereiro de 2018, a suspensão da cobrança a não sindicalizados da taxa de negociação coletiva - Nota da Redação). Com esta decisão, que regulamenta mais severamente o direito de greve, a diminuição nas filiações sindicais não surpreende. Mas esse declínio ocorre simultaneamente ao redespertar da militância no local de trabalho.

Antes dos dados de impacto serem divulgados, Doug Henwood havia revisado alguns números de filiados de sindicatos, observando que estavam certamente caindo, mas que essa queda não correspondia exatamente ao que os principais comentaristas haviam previsto, ou pelo menos ainda não. Mesmo que trabalhadores estejam enfraquecidos, seu principal instrumento de luta - a greve - experimentou um renascimento significativo. Isto se deve ao uso de diferentes estratégias sindicais e ao crescimento da militância nos locais de trabalho acionados (recentemente revigorados) pelos professores de Virgínia Ocidental.

Enquanto algumas seções locais focaram em envolver uma pessoa de cada vez e em barganhas agressivas para mostrar o valor da representação sindical, outras mantinham o foco na chamada "filosofia do serviço". O dirigente sindical David Rolf, da Califórnia, ficou famoso por esse tipo de abordagem; ele argumentou que a ação sindical deveria ter adotado "uma estratégia que ofereça benefícios quantificáveis através de produtos, serviços ou intervenções diferenciadas, individualmente, para resolver problemas ou melhorar as situaçõesä.

Se os sindicatos não podem garantir bons contratos e benefícios reais, deixar o sindicato pode parecer adequado a alguns trabalhadores, que pensam em economizar o valor das contribuições sindicais. Mas reduzir a filiação sindical a uma mera transação econômica para gerar benefícios imediatos, mina as bases da solidariedade de classe que ficou tão evidente na última onda de greves.

Mas para qualquer pessoa familiarizada com o movimento dos trabalhadores dos últimos cinquenta anos, isso certamente não é inesperado. A palavra de ordem do sindicalismo de negócios, de direita, que dominou o mercado de trabalho foi a cooperação com os capitalistas e "amigos" políticos para preservar a "paz social", e evitar perdas caras e greves destrutivas.

Mas, incapazes desde os anos 70 para enfrentar e neutralizar o ataque aos trabalhadores organizado numa ofensiva total, os líderes sindicais, agora burocratizados, aceitaram os acordos como regra. Foram anos e anos de salários estagnados ou em declínio. Isso abriu as portas para a questão: "então por que pagar as contribuições?".

Essa situação também se reflete no setor privado, como recentemente ocorreu nas negociações dos contratos do Teamster [United States North American Union] com a United Parcel Service (UPS). A administração de Hoffa (James Riddle "Jimmy" Hoffa, o fraudulento dirigente sindical dos Teamsters, de 1958 e 1971 - Nota da Redação) impôs, ao contrário da greve, um contrato rejeitado pelos caminhoneiros, que previa uma forma de classificação de cargos para as transportadoras com condições piores do que aquelas já em vigor. Somando-se o insulto até mesmo o dano, o salário mínimo de entrada para os trabalhadores sindicalizados da Ups é agora dois dólares menor do que o dos trabalhadores não sindicalizados, refletindo uma ação calculada das empresas para cortar pela raiz qualquer ação sindical.

O lado positivo dessa história para as mulheres trabalhadoras está no fato de que dados impressionantes sobre greves não podem ser separados de suas características específicas. O mais empolgante dessa última onda de greves é que rompeu os confins estreitos das ações programadas e libertou a energia criativa dos trabalhadores. Entre as greves de 2018, há as que foram organizadas fora do sindicato - especialmente aquelas contra o assédio sexual via Google.

Portanto, não surpreende que as seções locais dos sindicatos que lutaram por melhores contratos e convocaram greves tenham crescido ao longo do tempo. As filiações também aumentaram, até 2,2% nos estados em que em 2018 ocorreram greves combativas, onde o sindicato participou de ações diretas.A dos professores em Los Angeles foi uma greve de ponta , que colocou na mesa questões de justiça social que estavam fora dos contratos. As imagens de professores, alunos e pais que lancham juntos e dançam nas ruas inundaram o noticiário. E os grevistas conversam entre si, pelas mídias sociais, assistem transmissões ao vivo e participam de video-conferências para apoiar o movimento.

O trabalho organizado é confrontado com múltiplos ataques, uma burocracia teimosa e uma militância emergente - sinais de um momento explosivo. A escala pode facilmente inclinar em favor dos homens e mulheres que trabalham, e a base do movimento pode ser ainda mais coesa, perseguido essas ações políticas, democráticas e abertas, que agora estão reunidas em uma estratégia mais ampla de ataque ao capitalismo.

No futuro próximo, à medida em que a luta avançar, haverá mudanças na liderança sindical, lutas internas e divisões. Nem todas as batalhas serão realizadas pelos sindicatos existentes, e a sindicalização nem sempre será o objetivo mais importante.

A história da luta de classes nos EUA sempre conheceu longos períodos de grandes e silenciosas ondas de luta. Os sindicatos foram construídos precisamente nessas enormes ondas, e há esperança de renascer. Mas a esperança é também a de quebrar os limites do sindicalismo de negócios e construir um movimento que inclua toda a classe e lute pela saúde universal e gratuito, para desmantelar as reformas educacionais neoliberais, para defender e incluir os trabalhadores migrantes e derrotar o racismo e o sexismo no local de trabalho.

Talvez o movimento atual produza uma nova onda de filiação sindical. Mas acima de tudo, oferece a possibilidade de fazer algo mais importante: reformular um movimento de trabalhadores que realmente inclua todos e todos, e que lute pela classe trabalhadora.

*Amy Muldoon é escritora, socialista e membro do Communications Workers of America, em Nova York.

Fonte: Jacobin-Itália. Tradução: José Carlos Ruy

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