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Sábado, 20 Agosto 2016 15:00 Última modificação em Sábado, 20 Agosto 2016 17:09

Rio 2016: a Olimpíada das mulheres

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País: Brasil / Mulher e LGBT / Fonte: Carta Capital

As Olimpíadas são uma fonte copiosa de símbolos que ajudam a ilustrar certas abstrações da teoria social.

Entre críticas ao modelo de execução e questionamentos acerca do legado cabe um sem-fim de outras análises, como aquela que contrasta a recepção calorosa dada à delegação de refugiados na cerimónia de abertura do evento com o tratamento dado aos refugiados em geral, que revela a euforia cínica da sociedade do espetáculo.

Tensões raciais, muito embora variedade étnica seja esperada visto que o evento é global, também podem ser articuladas ao ser levantado o histórico de proibições impostas a não-brancos no evento. (Proibições impostas por pessoas brancas, vale ressaltar o óbvio.)

No referente à diversidade sexual, o maior número de atletas assumidamente lésbicas e gays da história dos jogos, e com o dobro do número computado em Londres, pode ser um sinal positivo de maior aceitação social.

Questionar o caráter binário da divisão de género do evento pode parecer uma proposta, digamos, futurista para muita gente (embora seja importante lembrar que romper o binário noutras esferas já seja a realidade de outro tanto), e é de dentro dele que faço minha análise.

Esta é a Olimpíada com a maior participação feminina da história: 45% das atletas em disputa no evento são mulheres. Isso é motivo de celebração, e deve ser: nunca estivemos tão próximas da equidade, ainda que apenas no número de participação.

É significativo que estejamos a celebrar o que ainda nem conta como equidade plena: é indicativo de que a luta feminista pela equidade é mesmo por equidade, pois a equidade nem sequer existe se tivermos em consideração que a mais alta percentagem histórica de participação de mulheres numa Olimpíada não chega aos 50%.

Além dos números e da indefectível objetificação do jornalismo tarado, também vale prestar atenção à ênfase dada à conquistas por homens em detrimento das conquistas por mulheres.

Durante esta Olimpíada, os créditos já foram atribuídos ao marido e treinador da húngara Katinka Hosszú por uma conquista que, mesmo com a ajuda dele, é primordialmente dela (nessa nota, nunca vi ninguém a creditar Judy Murray, mãe e ex-técnica do tenista Andy Murray, pelas suas múltiplas vitórias), e uma manchete do Greeley Tribune, jornal do Colorado, nos EUA, destacou a prata de Michael Phelps deixando para segundo plano os quatro novos ouros e recorde mundial de Katie Ledecky.

Tudo isso só na natação, que ainda por cima acabou por ser viral porque a nadadora chinesa Fu Yuanhui atribuiu a má performance na disputa a estar com a menstruação. Nada – além dos aparentemente difíceis de enxergar machismo e misoginia – explica que falar sobre algo tão prosaico para portadoras de úteros como menstruação ainda seja quebrar um tabu.

Vale a pena resgatar a introdução de Pierre Bourdieu ao texto Da dominação masculina, preâmbulo de seu quase homónimo livro: “A dominação masculina está tão arraigada no nosso inconsciente que já não a percebemos, está tão de acordo com nossas expectativas que até nos sentimos mal em questioná-la. Mais do que nunca, é indispensável destruir as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que realizam o trabalho de reprodução do ‘eterno masculino’? É possível neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles conseguem obstruir?”

A luta pela equidade dá-se em múltiplos domínios. No contexto Olímpico, a busca pela metade que nos cabe (e metade no mínimo, lembrando que somos 52% da população mundial, ou seja, nunca fomos uma “minoria”) está a acontecer e vai continuar, seja a exigência pela representatividade com números, por representação livre de objetificação, ou por protagonismo, material ou simbólico.

No tenso jogo que levou a seleção feminina de futebol às semifinais, Chloe Logarzo fez um gesto em campo que contribuiu para o coro da #OlimpíadaDasMulheres justamente por fazer o que Bourdieu propõe: “explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico”.

A jogadora australiana obstruiu a doxa patriarcal com medalha de ouro na modalidade iconoclastia do falocentrismo vigente, mesmo que na transmissão ao vivo por rádio e TV os comentadores tenham descrito as suas mãos espalmadas e unidas pelas pontas dos dedos mais ou menos na altura do útero – provavelmente representando uma vagina – como “um coração”.

O que poderia ter sido descrito como uma manifestação gestual do empoderamento feminino – para dar um exemplo de um eufemismo possível, já que falar sobre vaginas ou pénis em canal aberto também é tabu – foi imediatamente ressignificado como o genérico “coração”.

Quer tenha sido por ausência de (re)conhecimento ou por pudor, a manifesta vagina simbólica de todas as formas foi apagada da narrativa dos média para ser reconfigurada como um outro símbolo, menos contestado. Um coração não é mais ameaçador do que uma vagina – mas parece que simplesmente falar sobre um deles é.

Outro espetacular lembrete disso tudo, que antecipou as inevitáveis e esdrúxulas comparações que os média insistem em fazer entre atletas mulheres e homens, foi condensado na seguinte declaração: “Eu não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”.

Asserção simples, que demonstra a força verdadeiramente transformadora da premiada ginasta dos Estados Unidos. #BlackGirlMagic desobstruindo a doxa patriarcal com medalha de ouro nas modalidades protagonismo e poder de fala.

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