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Diário Liberdade
Quarta, 03 Abril 2019 14:25 Última modificação em Sábado, 13 Abril 2019 19:27

A actual crise na Argélia

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País: Argélia / Institucional / Fonte: O Diário

[Djamel Labidi] Este texto tem duas qualidades: o ajudar a reflectir sobre a situação na Argélia, e a forma como observa o ponto de vista dos media dominantes da antiga potência colonial sobre a questão.

Os mesmos que cobrem de insultos o movimento dos “Gilets Jaunes” no seu país cobrem paternalmente de elogios a movimentação popular na Argélia. Pode ser que lhes saia mal em ambos os casos.

Terça-feira, 12 de Março de 2019. No Cnews, canal francês de informação contínua, a emissão de Yves Calvi: “A informação do verdadeiro”. Discute-se aí a situação actual na Argélia. Uma emissão como temos visto actualmente muitas outras sobre este assunto em canais de notícias franceses.

No estúdio, como aliás em outros lugares, Yves Calvi manifesta grande ternura em relação às redes sociais argelinas. Que contrasta com a desconfiança, até mesmo a hostilidade dos mesmos intervenientes em relação às redes sociais francesas quando se trata de “Coletes amarelos”. Esses, foram acusados ​​de antissemitismo, de racismo, de propagadores de ódio, “conspiração”, de difundir “fake news”. Verdade deste lado dos Pirenéus, erro do lado de lá …
Afirmações sumárias: o Presidente Bouteflika é qualificado de “ditador corrupto”, nada menos, com surpreendente desenvoltura, como o faria qualquer anónimo no Facebook. Este cenário da Cnews alinhará, a título de explicação, todos os clichês habituais: “ditadura militar”, “corrupção generalizada” na Argélia. Certamente, podemos sempre dizer que os próprios argelinos o afirmam. Quer seja empregado na França ou na Argélia, o argumento do “todos podres” nunca é saudável e nunca ajudou a reflexão e a democracia. Termina, além disso, perniciosamente, por atingir um país inteiro.

É mau caricaturar uma realidade. Não ajuda a ver claramente. Se houve, somente, tudo isso na Argélia - uma ditadura tão horrível - como explicar que centenas de milhares de pessoas possam manifestar-se pacificamente, sem violência de um lado nem de outro, e que a festa seja mesmo tão alegre . É necessária a existência de duas partes antagónicas, forças da ordem e manifestantes, para que a violência se instale. Mesmo que as forças da ordem tenham, por definição, uma responsabilidade maior. O que aconteceu com os “Coletes amarelos” em França comprova-o amplamente. Desde o início, os manifestantes, embora muito menos numerosos do que na Argélia, foram cruelmente reprimidos a fim de, podemos supor, evitar que as manifestações se desenvolvam. Na Argélia, bem pelo contrário, o sentimento de segurança de todos contribuiu para permitir uma participação cada vez maior. A contradição não constrange os presentes na Cnews.

É certo que não se deve enveredar pelo angelismo ou pelo inverso do chauvinismo. Esses tipos de situações históricas são, sabemo-lo, de alto risco. Nenhum povo é melhor que outro, e a história muitas vezes vacila entre o sonho e o pesadelo.

Neste cenário Cnews, como em tantos outros, fica-se por dizer acerca da comparação entre o movimento popular francês e o da Argélia que “as situações não são comparáveis.” Um dos participantes no debate, indicará a este respeito e como argumento definitivo que “é impensável que na Argélia haja um caso Benalla porque o menor artigo sobre um tal tema não poderia ser publicado.” É maravilhoso podermos até este ponto dar lições. Espírito de suficiência, desprezo ou grosseira ignorância da situação na Argélia. A verdade é que a liberdade de formulação da imprensa e dos canais de notícias argelinos é muito grande e é provavelmente muito maior do que em França. Sim … A grande maioria dos jornais está em oposição ao poder. A simpatia manifestada pelas cadeias privadas de TV argelinas em relação às manifestações actuais seria impensável em França.

Diz-me quem te paga, dir-te-ei quem és

E há no cenário do programa os inevitáveis ​​especialistas “locais”, no sentido de que vivem em França e vêm do país em questão. Supõe-se que têm competência e fornecem dados factuais. Estranha ideia, como se um francês vivendo há décadas na Argélia fosse chamado a um estúdio argelino para fazer uma análise sobre a França. Jornalistas franco-argelinos, directores de centros de investigação com nomes pomposos, especialistas em questões árabe-magrebinas e muçulmanas, professores eméritos de universidades francesas, eles estão lá, argelinos ou franco-argelinos, como ontem estavam sírios ou líbios, para rivalizar em zelo para provar a sua competência e justificar os seus confortáveis salários . Mas nunca os veremos correr o risco, em nome da liberdade de crítica com que se enfeitam, de apoiar intelectualmente os “Coletes amarelos”, ou denunciar por exemplo a intervenção na Líbia, em suma correr o risco de um confronto com seu patrão.

Se eles fizessem ao menos o seu trabalho, se ao menos contribuíssem com dados factuais para elevar o debate … As suas supostas especialidades, em sociologia, em ciência política ou mesmo em história, servem-lhes apenas como máscaras para esconder a pobreza de um pensamento intelectual esvaziado por décadas de ausência do terreno, do país. Eles amam-no efectivamente demais para sofrerem viver lá. Os dados que fornecem não costumam exceder o nível dos rumores, dos lugares comuns ou da coscuvilhice, provavelmente recolhidos em alguma conversa telefónica com a Argélia.

É assim que um deles dirá, peremptoriamente, que os recursos de hidrocarbonetos representam 95% dos recursos da Argélia. Falso, eles representam 95% dos recursos divisas, mas apenas 30 a 40% do seu PIB (de acordo com as variações do preço do petróleo).

Outro lugar comum: “A Argélia é um país rico cuja população é pobre”. Falso, a Argélia não é um país rico. Possui actualmente um PIB per capita de cerca de US $ 4.000. Em comparação, a Turquia e o Líbano têm um PIB per capita duas vezes e meia maior, a Grécia cinco vezes maior, a Espanha sete vezes maior. Erros destes confinam com propaganda.

O mesmo especialista dirá que 800 milhares de milhões de dólares foram gastos em 20 anos na Argélia sem que nada tivesse daí resultado. Outro tema da pura propaganda que não ajuda a racionalidade. Este valor corresponde ao montante dos investimentos. Apresentado desta forma pretende suscitar a imaginação. Mas 800 milhares de milhões ao longo de 20 anos são 40 milhares de milhões por ano. Já é outra coisa. Por outro lado, é inexacto dizer que a Argélia não faz nada desde 1962.

Comparemos. A França tem um PIB per capita de 45.000 dólares, mais de 10 vezes o da Argélia. Tem 170.000 sem-abrigo, um desemprego de 9% que chega aos 39% nos jovens sem qualificação. Com uma média de US $ 5.000 per capita no mesmo período, a Argélia há 20 anos que se vem modernizando. As transformações são visíveis, espetaculares em todo o país: rodovias, hospitais, universidades às dezenas, habitação por milhões, barragens, generalização da electricidade. Há quinze anos, as grandes cidades sofriam com a escassez de água, electricidade, hoje isso não passa de uma lembrança. As aldeias nas montanhas têm gás. A esperança de vida é a mesma que a dos países desenvolvidos.

Em 1962, a Argélia tinha 9 milhões de habitantes. Ela havia sido devastada pelo colonialismo e pela guerra. Tem hoje mais de 40 milhões. Pôde no entanto resolver os problemas básicos do desenvolvimento, educação, saúde etc. A França tinha em 1962 40 milhões de habitantes. Imaginemos qual seria a sua situação se hoje tivesse 160 milhões de habitantes, ou seja, um aumento da mesma ordem. Estaria numa crise sem nome.

É necessário dizer tudo isto, não para branquear as responsabilidades do poder, mas para manter a razão. As inverdades não acrescentam nada à solução de uma crise que já é suficientemente séria em si mesma e cujas causas verdadeiras devem ser procuradas.

São precisamente os progressos feitos que tornam possível entender a explosão actual. Todos concordam hoje em dizer que a juventude argelina é educada e é a alma dessas manifestações. É bem uma prova dos progressos. Há trinta anos, em 1988, as manifestações, especialmente as islâmicas, arrastavam massas de homens pobres em cortejos intermináveis, o rosto marcado, os olhos ardendo de privações. Nada a ver com os desfiles dos jovens de hoje, cheios de modernidade. O nível de vida aumentou. Há trinta anos, os desfiles destruíam à sua passagem todos os símbolos da economia do Estado, armazéns do Estado “Souks el fellah”, empresas estatais, que acusaram de todos os males que sofriam. Hoje, eles querem proteger a cidade, o seu país, o seu ambiente. Limpam tudo. Se a juventude se pôs em movimento, é simplesmente que ela tem novas necessidades, novas aspirações económicas e políticas, que aspira a uma melhor qualidade de vida e a mais liberdade e, portanto, a mais democracia. Assim é a vida. Os progressos feitos criam novos problemas, novas necessidades. Aqui, na Argélia, o sistema político mostrou-se demasiado estreito para essas novas necessidades históricas. Não se colocou ao nível da nova Argélia. No Brasil, foi justamente no momento em que este país se tornou uma das maiores potências económicas do mundo, a oitava, que ocorreram explosões sociais e políticas.

Seria portanto muito mais interessante pensar nessas questões do que continuar a pensar com base em categorias usadas em países “em déficit de democracia”, para os quais o Ocidente viria exportar a sua democracia. Vimos o que aconteceu com isso e as terríveis tragédias humanas a que conduziram as intervenções estrangeiras.

Mas do que dizer com presunção que o movimento dos “Coletes amarelos” não tem nada comparável com o movimento popular na Argélia, não seria mais interessante, pelo contrário, ver o que lhes é comum num mundo em que sopra por toda a parte o vento da democracia?. Não foi aliás o “desalinhamento” da revolução tunisina que ganhou, a partir de 2011, os países europeus, a Espanha, depois a Grécia, para chegar hoje à França e afectar toda a classe. Política francesa e finalmente o presidente Macron. Hoje, na Argélia, o movimento popular rejeita também o “sistema”, toda a classe política, incluindo os partidos da oposição, cujos líderes são expulsos das manifestações quando se apresentam para participar. Recusa qualquer estruturação. Organiza-se em redes sociais. É inteligente e criativo. Diz “nós somos o povo soberano”. Desfralda a bandeira argelina em toda a parte, tal como os “Coletes amarelos” fazem com a bandeira francesa, não por nacionalismo estreito, mas como sinal de unidade e fraternidade nacionais.

Um país, duas sociedades

Pensando nisso, a queda do Muro de Berlim não foi a vitória da democracia contra o totalitarismo, como foi dito com talvez demasiada pressa, mas o vector de uma necessidade geral de mais democracia no mundo. e uma crítica global dos costumes e processos da democracia existente. Essa crise diz respeito tanto às antigas democracias quanto às democracias nascentes. É geral: apresenta-se com pontos comuns em todos os lugares, ao mesmo tempo em que expressa de maneira particular, nas condições específicas de cada país.

A Argélia, como descrito anteriormente, certamente que se modernizou. Mas problemas nacionais importantes e vitais não foram resolvidos.

Na frente económica, os problemas são bem conhecidos, nomeadamente o do seu atraso em diversificar as exportações. Permaneceu, assim, prisioneira da exportação dos seus hidrocarbonetos, o que a torna vulnerável. Por muito tempo, ela permaneceu em simultâneo cativa de uma economia estatal cuja contrapartida política é uma burocracia estatal autoritária e sobranceira, muitas vezes vulnerável ao tráfico de influências.

Outra questão nacional vital, a Argélia, diga-se o que se disser, não se libertou realmente do colonialismo e aqui portanto da influência francesa. Isso explica a sua extrema sensibilidade à questão e a natureza recorrente desse tema, ou as acusações sobre esse tema na política argelina. Funcionários políticos ou administrativos são regularmente acusados ​​de pertencer ao “partido francês”. Um país, como o Vietname, é muito mais sereno sobre a questão, prova de que a resolveu e de que virou realmente a página. A questão da binacionalidade franco-argelina permanece muito sensível. O francês permanece a língua dominante, enquanto língua de negócios e trabalho, face às línguas nacionais, o árabe e o amazigh, que são marginalizados e que apenas têm utilização política. É essa aliás a razão de seu ressurgimento em todos os grandes movimentos políticos, como é agora o caso.

A questão da binacionalidade franco-argelina é muito sensível tal como o é a do lugar da comunidade estabelecida na França. A fuga de cérebros continua acelerada, nomeadamente por razões culturais, com as jovens elites francófonas, especialmente os médicos que estudam em francês, a fornecer os maiores contingentes. Este êxodo sempre existiu e não deixou de aumentar proporcionalmente ao número de diplomados. O poder, como em toda parte, tem uma responsabilidade na matéria, já que este êxodo depende do ritmo do desenvolvimento económico, mas foi sobretudo o fechamento de fronteiras no mundo que imprimiu uma viragem dramática à questão, com a emigração sem visa, “os Harragas”, que se tornou um dos temas da actual revolta.

A Argélia e o poder ainda não conseguiram preencher o fosso, suprimir a dualidade existente herdada do colonialismo, entre duas sociedades, uma ocidentalista (aqui sob a forma francófona) e a outra, a sociedade profunda, Árabe-islâmica. Essa dualidade existe em toda a parte, na imprensa, nas universidades, umas francófonas e outras arabófonas, na vida económica e comercial, na ocupação do espaço com bairros ricos ou prósperos de língua francesa.

E até nas relações sociais, já que se casam em geral na sua própria sociedade, seguindo estas afinidades e determinantes culturais. As polémicas permanentes sobre a língua na escola, sobre o lugar do islamismo na Educação, atestam essas clivagens socioculturais que uma abordagem laicista não consegue captar. A existência dessas duas sociedades na Argélia (mas também em Marrocos e na Tunísia), a permanência dessa fractura sociocultural explica em profundidade as cargas de violência social e o perigo da sua repetição. Pode também explicar a rejeição do Estado, através da rejeição de certas elites estatais, administrativas e económicas, percebidas quase como estranhas às preocupações da nação.

Em Outubro de 1988, na Argélia, todos se uniram contra o poder autoritário sobre a questão da democracia e depois se dividiram sobre as questões societais. Aqueles que foram chamados “erradicadores”, a corrente democrata laica, tinham apelado à intervenção do exército contra o islamismo político e pedido a suspensão do processo eleitoral. A lei sobre a concórdia civil e a carta de reconciliação nacional conseguiram finalmente pôr fim a uma terrível guerra civil. Foi este o principal contributo histórico do presidente Bouteflika. O poder interpôs-se de alguma forma entre os beligerantes. Reside aí provavelmente o segredo dos retornos a uma gestão política autoritária, como foi o caso no Egipto.

As mesmas causas produzem os mesmos efeitos, existe portanto o perigo, na Argélia, de que tudo isso aconteça novamente, e de que as mesmas forças que hoje se entendem se dilacerem amanhã. Até agora, todos os poderes que se têm sucedido desde 1962, mas igualmente as forças políticas, nunca quiseram enfrentar essa fractura sociocultural, provavelmente por uma preocupação de unidade política nacional e social, preferindo a negação em vez de a tomar em conta a fim de a reduzir.

A Argélia espera ainda as forças políticas capazes de reduzir essa fractura e unir o tecido nacional. Hoje, no entanto, há matéria para optimismo. Os jovens agitaram por todo o lado a bandeira nacional e as actuais manifestações populares reforçaram como nunca a unidade nacional acima de todos os particularismos regionais. A juventude uniu-se. A mistura tornou-se por toda parte, de repente, sem aviso, uma realidade total nas manifestações. Mulheres e homens desfilam naturalmente lado a lado. Os seus alegres desfiles mostram esta necessidade de fraternidade nacional e de superação das clivagens socioculturais, combinando autenticidade e modernidade.
Talvez eles possam fazer o que os seus pais não puderam. Pais que, depois de libertar o país, permaneceram profundamente perturbados pela tragédia colonial. Em qualquer caso, é essa a tarefa e a missão desta nova geração que hoje surgiu poderosamente na cena política.

Fonte: https://www.legrandsoir.info/la-crise-actuelle-en-algerie.html

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