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Diário Liberdade
Domingo, 17 Dezembro 2017 17:57 Última modificação em Domingo, 17 Dezembro 2017 18:26

Pelo que vale a pena...

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Joao

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“A década de 1960 representa ainda hoje um exemplo inspirador de que as pessoas podem superar as velhas atitudes, ideais e estruturas e fazer um mundo melhor”. É o que sustenta o professor de história da USP, Sean Purdy, referindo-se às diversas reações populares ocorridas ao longo da década de 60 em diferentes partes do mundo, com especial atenção aos episódios de 1968.

No entanto, seria um erro crer que naquele momento histórico havia uma nuvem de plena consciência revolucionária "pairando" sobre as cabeças das pessoas que integravam os movimentos insurrecionais, principalmente no que diz respeito ao movimento estudantil. “Seria um erro absoluto entender a juventude contestadora como totalmente politizada ou revolucionária. Às vésperas do incêndio, a parcela de estudantes esquerdistas permanecia minoritária”, é o que diz o historiador e cineasta Patrick Rotman.

Certo é que a revolução nos costumes, no comportamento, na mora sexual e nos demais valores transformados ao longo da década de 1960 possui uma explicação material e bastante complexa. Foram anos em que conviveram em intensa contradição as lutas por liberdades de toda ordem, de um lado, e sufocamento e repressão pelo aparato militar estatal, de outro. 

A paradigmática ocupação da Tchecoslováquia pelo exército soviético é ainda um ponto de inflexão que contribuiu, junto com a ideologia do stalinismo e a crise da URSS, para a descrença naquela que seria a alternativa ao capitalismo. Surge a nova esquerda.

No mesmo sentido contribuiu também a Guerra Fria e seus desdobramentos em conflitos armados em países como Angola, que teve a guerra pela independência aprofundada pela bipolaridade mundial ressoando nos dois principais polos de oposição política e militar do país, UNITA e MPLA, e é claro o Vietnã.

A Revolução Cultura Chinesa surgiria para dar ainda mais ânimo ao movimento de esquerda, impactando diretamente em programas políticos, nas artes em geral e também na compreensão teórica, inclusive oxigenando as teses economicistas que passaram a dominar o marxismo, contribuindo para demonstrar que a contradição entre forças produtivas e relações de produção não é a única capaz de abrir o cenário para a revolução, incorporando novamente a perspectiva da luta de classes como o motor da história.

A Ofensiva Tet no Vietnã. O massacre dos estudantes em Tlatelolco, no México. A “sexta-feira sangrenta”, que resultou na morte de dezenas de pessoas, no Rio de Janeiro. A “batalha da Maria Antônia”, que resultou na morte do secundarista João Guimarães após um tiro disparado do prédio do Mackenzie contra os estudantes que se reuniam na Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo. O ato de Tommie Smith e John Carlos nas Olímpiadas do México ao fazerem o símbolo do black power durante a execução do hino nacional estadunidense. A resistência contra os regimes ditatoriais na América Latina. O movimento estudantil, operário e intelectual francês. A luta contra a segregação racial nos Estados Unidos. As diversas lutas pela liberdade civil e política. Todo esse cenário de horror e esperança contribuiu para conformar uma década de relevante impacto social e político para as gerações futuras.

“Pelo que vale a pena” é o título da canção composta por Stephen Stills e interpretada no calor dos movimentos que lhe deram origem em 1967. Apesar de sua vinculação aos movimentos contrários à Guerra do Vietnã, o que é mesmo proporcionado pelo conteúdo da letra, o cenário de criação da música diz respeito ao confronto entre a polícia norte-americana do estado da Califórnia e jovens estudantes e hippies que ocupavam as ruas da agitada área comercial e financeira de Los Angeles, a Sunset Boulevard.

A canção é a descrição sem desfecho de uma conjuntura que vai progressivamente se tornando mais e mais delicada, que caminha para uma tragédia anunciada. No estilo folk, que ao lado do jazz e blues originariam o rock and roll, as letras produzidas naquele momento refletiriam “a frustração e a rebeldia da juventude e se tornava a forma mais popular da música nos Estados Unidos e em vários países do mundo”, afirma “Sean Purdy”.

A letra de “for what it’s worth”, mesmo tendo como plano de fundo uma movimentação bastante pontual no centro da cidade de Los Angeles, somente pode ter sua força compreendida num cenário mais ampliando, que nos permita visualizar a relação – talvez tíbia e nem sempre direta – entre as diversas mobilizações insurrecionais que tomaram os países do Ocidente e do Oriente ao longo da década de 1960.

Meio século depois, muitos versos produzidos naquele período seguem cheios de vida, mas será que algum dia chegaremos a dar um desfecho à canção e finalmente responder: pelo que vale a pena lutar? Pelo que vale a pena viver?

 

*João é estudante (ProUni) de Direito da PUC-SP, coordenador do Grupo de Pesquisa Marxismo e Direito (GPMD) e Secretário Político do Comitê Jurídico da corrente sindical Unidade Classista.

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