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Diário Liberdade
Quinta, 22 Março 2018 00:00

Os “Manuscritos sobre Economia e Filosofia”. Voltando a Marx

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Chema Naya

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Os Manuscritos sobre Economia e Filosofia, escritos no 1844, som umha obra póstuma de Karl Marx (1818-1883) continuando inéditos até case cinquenta anos do seu passamento.


 A sua ediçom no 1932 significou umha transformaçom nos estudos arredor do pensamento marxiano e umha critica demolidora aos enfoques economicistas e mecânicos da sua obra. Os debates entre os escritos do “Marx Jovem” (onde amossa o peso do conceito de alheamento e a importância do humanismo filosófico na obra do pensador alemã) e o “Marx Maduro” (após identificar a classe operária como sujeito político revolucionário) alimentam a polémica entre a continuidade e ruptura em diversos pontos do seu pensamento.

A importância e peso da obra olvidada de Marx durante mais de oitenta anos, e a sua complexidade ao compendiar os processos evolutivos chaves no pensamento do Jovem Marx além da sua importância no grandioso pensamento marxiano exigem umha divisom do estudo da mesma em diferentes artigos, resenhas ou novas. Nesta primeira parte faremos umha contextualizaçom do momento histórico no que se da a sua redaçom assim coma um percurso polas etapas de maduraçom filosófica que decorrera Marx até o 1844.

Fazendo um exercício de contextualizaçom histórica situamos a época de redaçom dos Manuscritos coma a época triunfal da burguesia, já que trás a instauraçom de Luís Felipe no trono francês e a consolidaçom da independência belga, a meirande parte do Ocidente europeio desfruta de monarquias institucionais. Com o progresso da História a sociedade burguesa assegura o cumprimento da “soberania da razom” que as sacudidelas intermitentes das esporádicas rebelions mais armadas de raiva e exasperaçom motivo das despiedadas condiçons vitais da subalternidade que de ideias razoadas e razoáveis logram apenas inquietar. No resto de Europa luta-se contra os vestígios do Ancien Régime, onde no Sul as forças do progresso e a tradiçom atopam-se numha encarniçada sorte de ofensivas e reaçons infrutuosas e improlíficas por ambas as partes. No caso do Estado espanhol o ano de redaçom dos Manuscritos coincide com a abertura do reinado de Isabel II, e o início da chamada década moderada umha das quatro grandes etapas do seu reinado, que estaria marcado coma no conjunto do Sul pola tenssom entre dos blocos históricos em pugna que culmina com a criaçom dum Estado Liberal com fortes tendências conservadoras e absolutistas. Nos países do Centro e do Leste vencedores no fim dos encontros napoleônicos subsistem as velhas formas e a nobreza mantém a meirande parte da terra e com ela os seus privilégios tradicionais. A Rússia prega-se sobre sim mesma e configura-se coma baluarte da reaçom contra os ventos da História.

Assim os primeiros movimentos do chamado “quarto estado” percebem-se nas naçons modelo do Ocidente, e os ventos de transformaçom na Renânia natal do Marx onde começa a abrolhar umha moderna indústria, ao tempo que a burguesia indígena se orienta cara a formula da monarquia constitucional e frea-se ante o perigo preconizado nos países mais adiantados polo ator que luita por configurar-se coma motor da história. Apesar das suas caraterísticas particulares, a naçom alemã é no tempo um povo subdesenvovido econômica e politicamente mas nom na sua contemporânea filosofia se o comparamos com as potencias industriais e políticas da altura. Subjaz entom no pensamento do Marx a tentativa revolucionária ao naturalizar um pensamento maximalista onde coma intelectual progressista vê-se tentado a postular nom umha reforma se nom a revoluçom que aforre os males inerentes a situaçom atual dotando a sociedade da sua estrutura óptima.

Este processo exposto fai-se perceptível no ingente pensamento marxista. Observamo-lo com claridade um ano antes da escritura dos Manuscritos quando conclui a Introduçom a crítica da Filosofia do Direito de Hegel que constitue um dos escritos mais fortes da obra do Marx nos que distancia o seu pensamento de Hegel e começa a focar um novo antagonismo de classe ainda sem demarcar nitidamente o binômio burguês-proletário. Aponta-se aqui também que o povo alemão “que padece todos os males da sociedade moderna sem gozar de nenhum dos seus benefícios” deve estabelecer um apoio simbiótico com umha força universal na sua mesma situaçom para fazer umha transformaçom que só sendo universal, será. O recurso ao proletariado e o seu rol revolucionário e internacional entra no cenário antes do seu estudo econômico para introduzir a forma na que superar o status-quo atual.

Este encontro de Marx com o movimento obreiro é um processo dilatado e gradual que se dá entre o 1838-1844 e que tem como ponto de partida o berlinense Clube dos Doutores dinamizado por Bruno Bauer1. Para o movimento hegeliano a qual ele pertence é a crítica a tarefa a realizar como abertura de todo (seguindo o esquema de opor a realidade a sua noçom assinalam-se as imperfeiçons da outra e impulsa-se a mudança) mas esta tarefa pode ser entendida de diversas formas, nas que observamos como tipos polares a crítica de Bauer ou a de Marx que chocam na obra da Questom Judea. Posteriormente a ruptura com Bauer é desde a tribuna redatora do Rhenische Zeitung2 onde entra em contato com o poder real contra as que resulta impotente a mera crítica e decata-se de que contra os feitos opacos de nada servem as declaraçons vigorosas ou as mais lúcidas ideias, já que a censura clausura o jornal e obriga a tomar a Marx um novo caminho3.

O pensador alemão abafa espartilhado no pensamento hegeliano e procede entom a umha revisom das suas ideias, nascida ao calor do pensamento de Feuerbach4 de quem recolhe a crítica positiva e realista apesar de nom acetar nunca a sua passividade de pensamento definindo-o coma “demasiado hegeliano no seu conteúdo e demasiado pouco no método”.Marx dirá pese que a crítica a Hegel por parte de Feuerbach, o autor mantém-se fiel a modelo hegeliano de geralidade ética5 ao referir-se a natureza humana como parte da natureza, opera com umha noçom de home estática através dos tempos e os contextos, omitindo as transformaçons materiais que o Mundo sofre por causa da obra humana e transformam desde um ponto inicial, o ser mesmo do género humano. Criticará o materialismo feuerbachiano como passivo já que entende a essência humana coma um mero abstraimento imanente a cada indivíduo e olvida que home como parte da natureza, cria-se a sim mesmo de jeito continuo.

Na obra da Ideologia Alemã cristaliza umha diferencia que a prostre seria determinante na configuraçom do pensamento marxista, se bem Feuerbach serve-lhe a Marx para evidenciar que só a sensível é real e que é no sensível onde há que verificar ou falsear a mudança Marx assevera que o sensível é obra humana, entendendo a Dialética coma lei do desenvolvimento da natureza, e dentro da natureza atopa-se a razom coma obra do humano, que em última instancia é quem impulsa a transformaçom e gera o novo. Recolhendo a história as pessoas nom som umha essência que se repita de jeito idêntico dumha individualidade a outra e dum jeito dado para sempre, se nom que o humano vem a ser um ser social que verte a sua potencialidade originária a cada intre dumha determinada forma nas relaçons sociais nas que interatua.

Em concorrência com esta maduraçom filosófica conhecer a sociedade do presente na forma social mais avançada, permitira deitar luz no mistério da transformaçom. Este é o objetivo de Marx na sua viagem a Paris em outubro do 1843, onde vê a lacra da miséria e conhece o maior ponto de encontro do ativismo proletário, em consonância direita com isto volca-se no estudo da Economia e crítica da mesma a cousificaçom do humano e correlaçom burguesa do home-mercadoria que é parte dum modo de ser, no que a sociedade se arquiteta cara o lucro individual entendido como ganho do processo de produçom (sem atender sequer a satisfaçom das necessidades do indivíduo para subsistir), mas para Marx o trabalho opera de jeito desinvididualizado, susceptível de ser pesado, contado, medido e orientado coletivamente.

A atividade lucrativa ou ganancial junto com o correlato trabalho-mercadoria som portanto a consideraçom subjectiva e objectiva de um determinado modo de ser da humanidade. A Economia Política nom postula ou argumenta este modo de produçom, simplesmente o apresenta e estabelece leis que governam em primeira instancia a mecânica da produçom das mercadorias e em segunda a esfera da circulaçom de bens.

Um economista parte entom do dado, e veda a análise do que pode ou deverá ser. Mas o decisivo é que mentres as ciências físicas ou naturais nom dependem do humano, a História sim. Empregar os mesmos instrumentos e esquemas mentais a realidades essencialmente distintas fornece imagens distorcidas, aceitando só os fenômenos como o paro, a pobreza ou a desigualdade coma resultados que cabem conhecer para controlar, mas que em modo algum podem ser substituídos.

Marx, e para as que nos reclamamos marxistas, entende que o mundo social é obra própria do género humano a de ser estudado e compreendido em torno a umha determinada ideia ou noçom produto dumha sociedade concreta. A reduçom a acolher o dado é admitir a ideia da imutabilidade do modo atual de ser, e negar por tanto a dialética coma lei do desenvolvimento da natureza.

A rebeliom de Marx contra a “Economia” é polo tanto um confronto contra umha Filosofia oculta, e que polo tanto amossa-se coma duplamente perniciosa. Nom vai criticar a Economia polos seus erros, senom em nome dumha realidade que ela obvia, ao admitir intrinsecamente umha Filosofia que rejeita a capacidade do homem para transformar o Mundo. Marx compreende que é da conjunçom da Filosofia e a Economia quando existe a possibilidade para estudar seriamente as sociedades modernas, podemos afirmar que este avanço epistemológico é o que cabe qualificar como fundamental para toda a sua maduraçom teórica posterior.

Este avanço constitui o porto de entrada aos Manuscritos e o é piar sobre o que se assenta a potência do pensamento marxiano. A obra compendia apreensons fertilíssimas produto dos processos fundamentais para a configuraçom intelectual do Marx, fruto dum longo estudo e maduraçom, ao constituir a focagem que vai guiar toda a sua produçom teórica posterior. Podemos falar de que estas breves páginas constituem ao fim e o cabo umha folha de rota, a qual nunca chegaria a ser rematada, onde se induzem propostas que o autor confirmaria com posterioridade.

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