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Diário Liberdade
Domingo, 20 Janeiro 2019 21:48

Não é possível ser internacionalista sem ser anti-imperialista

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Valério Arcary

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O nacionalismo é hoje o vocabulário de uma extrema direita neofascista em inúmeros países. “Brasil acima de tudo” foi um dos slogans que levou Bolsonaro à vitória eleitoral. Este discurso tem uma história.


O nacionalismo é a ideologia do Estado-Nação. Ela nos remete a uma tradição ideológica que nasceu com a revolução francesa. Conquistou peso político de massas na Europa, em disputa contra o conservadorismo, liberalismo, e socialismo, nas últimas décadas do século XIX. O nacionalismo foi a ideologia que, em distintas versões, turbinou a legitimação dos imperialismos modernos. E conduziu a humanidade à beira do abismo da destruição da vida civilizada, em guerras totais, por duas vezes no século XX.

           A força do conceito de nação na percepção burguesa do mundo residia na ideia que o Estado deveria ser a “expressão de um povo”. E cada povo teria uma tradição própria, um caráter singular e um destino único. Portanto, alguns povos ou até raças, como então se dizia, seriam superiores e outros inferiores. Quanto mais exaltado o nacionalismo, mais formidável seria sua história, mais extraordinário o seu caráter, e mais grandioso o seu destino. O nacionalismo dos países centrais sempre foi racista e reacionário. A versão totalitária foi o nazi-fascismo.

          A esquerda já foi internacionalista. Em tempos passados toda a esquerda compreendia as reivindicações de um programa nacional nos países periféricos que sofrem a opressão imperialista como progressiva. Mas não nos países centrais. Porque o nacionalismo nos países centrais que dominam o mundo equivalia, e continua sendo indivisível, da defesa de um imperialismo contra outro.

         Progressiva é toda luta que, embora parcial, ou incompleta, quando em comparação com o programa socialista, se apoia em uma dinâmica, historicamente, justa. A esquerda apoiava a luta nacionalista nos países periféricos e, ao memo tempo, denunciava as ambições nacionalistas nos países centrais, ou seja, era anti-imperialista. A II Internacional explodiu quando o nacionalismo contagiou suas fileiras, e as socialdemocracias francesa e alemã apoiaram as suas respectivas classes dominantes, no alvorecer da I guerra mundial.

         Acontece que, sobretudo depois da restauração capitalista, nem toda a esquerda é socialista. E, claro, nem toda a esquerda socialista é marxista. Há uma esquerda que defende a regulação da economia de mercado, com políticas públicas que ofereçam compensações para diminuir o aumento da desigualdade social. Há outra esquerda que defende o socialismo, mas é hostil ao projeto revolucionário. E há uma esquerda anticapitalista e internacionalista. Entre estes três grandes blocos, presentes na maioria dos países mais urbanizados e industrializados, há várias formas híbridas intermediárias.

         Não obstante, a necessidade da luta antimperialista não diminuiu. Isso hoje significa, por exemplo, defender a Venezuela contra a iminência de precipitação de uma guerra civil incentivada pelos EUA e pelo Grupo de Lima, independentemente, de uma posição, energicamente, crítica em relação ao governo Maduro.      

         O marxismo sempre se distinguiu por considerar que os antagonismos de classe seriam os conflitos decisivos no mundo contemporâneo, embora não fossem, evidentemente, os únicos. Inúmeras lutas democráticas desenvolvem-se simultânea e, incontáveis vezes, inseparáveis do enfrentamento entre capital e trabalho. Lutas democráticas contra regimes autoritários, tirânicos, ditatoriais. Lutas democráticas contra as opressões racista, machista, lgtbfóbicas. Lutas democráticas pela defesa de um programa ambiental contra a iminência de uma catástrofe ecológica provocada pelo aquecimento global. Não menos importante, a luta democrática das nações oprimidas pelo direito à libertação nacional. Todas estas lutas são progressivas e devem ser incorporadas ao programa dos socialistas.

         O marxismo sublinhou que, se a luta entre as classes era um combate que se iniciava dentro de fronteiras, se decidiria na arena mundial. Toda revolução socialista nacional, mais cedo ou mais tarde, teria que medir forças com a contrarrevolução internacional. Esta bússola é o fundamento granítico do internacionalismo. O nome deste programa é revolução permanente.

A ordem imperialista mundial não pode ser mantida, indefinidamente, sem guerra

         Estas conclusões repousam em uma análise da nossa época. Em perspectiva histórica, a obra mais importante do capitalismo foi impulsionar a formação do mercado mundial liberando forças produtivas, até então, inimagináveis. Mas essa façanha teve um custo catastrófico para a humanidade: a luta pelo domínio imperialista do mundo. Alguns poucos Estados controlam, comandam e oprimem a imensa maioria dos países e impõem a sua ordem. E disputam para manter suas posições de poder, ameaçando, regularmente, a paz mundial.

        

           O nome deste sistema é ordem mundial imperialista. Ela não pode ser preservada sem guerras. O capitalismo é um obstáculo intransponível para a tendência mais profunda do desenvolvimento histórico que o próprio capital potencializou. Esta tendência é somente uma possibilidade, não um destino: a crescente unificação da humanidade em uma civilização mundial. Mas o capitalismo não pode unificar a humanidade. O socialismo é o nome desse programa. Ser de esquerda é ser anti-imperialista.

         Quando dizemos que a ordem mundial se estrutura, pelo menos nos últimos cem anos, como uma ordem imperialista não estamos afirmando que exista um governo mundial. O capitalismo não conseguiu superar as fronteiras nacionais dos seus Estados imperialistas. O Brexit é mais uma demonstração de que permanece intensa a competição entre as burguesias dos países centrais nas disputas por espaços econômicos e arbitragem de conflitos políticos. Não se confirmou a hipótese de um superimperialismo, discutida na época da II Internacional: uma fusão dos interesses imperialistas dos países centrais. O ultraimperialismo nunca foi senão uma utopia reacionária.

        Turbulências crescentes dentro do sistema internacional de Estados

          Seria obtuso não reconhecer que as burguesias dos principais países imperialistas conseguiram construir um centro no sistema internacional de Estados, depois da destruição quase terminal da II Guerra Mundial. Ele se expressa ainda hoje, institucionalmente, vinte e cinco anos depois do fim da URSS, pelas organizações do sistema ONU e Bretton Woods, portanto, através do FMI, do Banco Mundial, OMC, e BIS de Basileia e, finalmente, no G7. A contrarrevolução aprendeu com a história.

       No centro de poder da ordem imperialista está a Tríade: os EUA, a União Europeia e o Japão. União Europeia e Japão têm relações associadas e complementares com Washington, e aceitam a sua superioridade desde o final da II Guerra Mundial. A mudança de etapa histórica em 1989/91 não alterou este papel da Tríade e, em especial, o lugar dos EUA.

         Embora sua liderança tenha diminuído, ainda prevalece. A dimensão de sua economia com um PIB acima de US$21,5 trilhões (o PIB mundial está estimado em US$88 trilhões, o da China em US$14 trilhões)[1]; o peso de seu mercado interno; o apelo do dólar como moeda de reserva ou entesouramento; a superioridade militar; e a capacidade de iniciativa política permitiu, entre outros fatores, apesar de uma tendência de debilitamento, manter a posição de liderança no sistema de Estados. O papel de Trump é preservar este lugar, em especial, diante da China.

         Nenhum Estado da periferia passou a ser aceito no centro do sistema nos últimos vinte e cinco anos. China e Rússia são Estados que preservaram a independência política, embora tenham restaurado o capitalismo, inclusive, recorrendo a endividamento no mercado mundial, e exercem papel protoimperialista em suas regiões de influência.

          Mas mudanças ocorreram na inserção dos Estados da periferia. Alguns têm uma situação de dependência maior, e outros uma dependência menor. O que predominou, depois dos anos oitenta, foi um processo de inserção subalterna, ou “recolonização”, ainda que com oscilações. Há uma dinâmica histórico-social em curso. E ela é inversa daquela que predominou entre 1945/75, depois da derrota do nazi-fascismo, quando a maior parte das antigas colônias na periferia conquistou, parcialmente, independência política, ainda que no contexto de uma condição dependente, ou mesmo semicolonial.

         A maioria dos Estados que conquistaram independência política na onda de revoluções anti-imperialistas que se seguiram à vitória da revolução chinesa, coreana e vietnamita perdeu esta conquista: Argélia e Egito, ou Líbia, Iraque e Síria são exemplos, entre outros, desta regressão histórica, posterior a 1991. Alguns regrediram à condição de Protetorados. Ainda existem, porém, governos independentes, como Venezuela, Irã e Cuba.

                     Não se pode ser internacionalista pela metade

           Uma análise que equaciona os conflitos entre as classes nos países ou continentes decisivos ignorando o lugar e a política dos Estados na situação mundial diminui a força da contrarrevolução. O caminho inverso é ainda mais desanimador. Quando se subestimam os conflitos entre as classes em cada sociedade, a análise redundará, fatalmente, em avaliações superficiais exagerando a força da contrarrevolução.

          Esse segundo caminho foi percorrido por boa parte da esquerda mundial no século XX, sobretudo, aquela que considerou que o destino da causa socialista estava, indissoluvelmente, associado ao futuro do governo da URSS e seus aliados. Infelizmente, o internacionalismo quase desapereceu.

          Este “nacionalismo da URSS” ou estalinismo não deve ser confundido com o internacionalismo, e merece ser denominado de campismo socialista. A existência de países onde a propriedade privada dos grandes meios de produção foi expropriada, ainda que os seus regimes políticos fossem aberrações burocráticas, um híbrido histórico, necessariamente transitório, colocou a esquerda internacionalista, no pós-guerra, em uma situação paradoxal e desconcertante.

         Deveria defender a natureza social dos Estados diante da pressão imperialista pela restauração capitalista. Mas, ao mesmo tempo, apoiar as mobilizações dos trabalhadores pelas liberdades democráticas. Ou seja, uma defesa condicionada ao signo de classe do conflito. Algo muito mais complexo do que uma defesa incondicional ou uma oposição incondicional. A oscilação do pêndulo foi sempre muito complexa originando desequilíbrios: estalinofilia ou estalinofobia.

         O mesmo problema político se coloca hoje face à Venezuela ou Cuba. A defesa de países independentes perante a agressão imperialista não desobriga da crítica contra estes regimes. O desafio é a análise concreta de qual é, em cada conjuntura, o maior perigo imediato para os trabalhadores. Porque nunca é possível lutar contra todos ao mesmo tempo. Os dilemas do internacionalismo são complicados.

       Mas só uma esquerda internacionalista é digna de futuro.

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