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Diário Liberdade
Quarta, 09 Novembro 2016 21:20 Última modificação em Sexta, 11 Novembro 2016 21:20

Silvio Rodríguez: A valentia é não renunciar ao socialismo

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País: Cuba / Cultura/Música / Fonte: PCB

Este mês se celebra o quinto aniversário de seu tour de shows gratuitos pelos bairros mais humildes de Cuba.

Momento ideal para que Silvio Rodríguez faça uma retrospectiva dos caminhos que Cuba enfrenta a partir de sua aproximação com os Estados Unidos, analise os desafios da cultura cubana ante as reformas econômicas que se desenvolvem no país e, também, por que não, faça uma apaixona defesa da poesia.

– A aproximação de Cuba e Estados Unidos abre muitas possibilidades, porém também representa desafios para a cultura cubana.

– A nível cultural, sempre existiu intercâmbio com os Estados Unidos. Que existam condições para que se aumente esse intercâmbio será como derrubar barreiras para que tudo flua com mais naturalidade. Se existe algo frustrante não é porque seja negativo o contato, mas porque pode aumentar a distorção causada pelas propensões de deslumbrar-se acriticamente. Digamos que o mimetismo pode voltar-se ainda mais presente, se tal coisa for possível.

– Cuba é também uma potencia cultural, mas sem o poder econômico da cultura estadunidense. Não teme que a cultura cubana se veja obrigada a “passar pelo filtro” para acessar ao mercado dos Estados Unidos?

– Sempre existiram artistas que pensam em mercados e em conveniências, e artistas que antepõem a arte sobre tudo. Nunca esqueço aquele ditado martiano que nossos ramos podem ser do mundo, porém que o tronco se mantenha conosco. Satyajit Ray começou sua célebre trilogia de Apú com um pensamento muito lúcido: “Conte sua aldeias e contarás o mundo”. Só a banalidade é capaz de disfarçar-se de “mundo” e dar as costas ao mesmo, pensando no sucesso fácil.

– Quais são as principais fortalezas da cultura cubana para enfrentar o caminho da nova aproximação com os Estados Unidos?

– Creio na identidade. Sem confundi-la com o característico radicalismo, que pode resultar caricaturesco, como essa pintura do cubano que parece seduzir a tantos. É que a identidade também evolui com a instrução de um povo, como é neste caso. Inclusive, quando não tínhamos a consciência que nos deu meio século de confronto político, Cuba resistiu e seguiu sendo Cuba. Por que não deveria fazê-lo agora?

– Quais seriam suas principais fraquezas?

– Suponho que a superficialidade e, ocasionalmente, alguns brotos de oportunismo.

– No momento em que as reformas visam o autofinanciamento de todos os setores, como você acredita que pode fazê-lo a cultura? O podem fazer o balé ou o cinema?

– Atividades artísticas que requerem infraestruturas mais ou menos complexas, como o balé e o cinema, são impraticáveis em países em desenvolvimento. Porém, muito mais se não existe a vontade de construí-las e sustentá-las. Em Cuba, se desenvolveram pela vocação humanista de Fidel Castro e pelo incentivo de personalidades como Haydeé Santamaría, Alicia e Fernando Alonso, Alfredo Guevara, Julio García Espinosa e muitos outros. Inclusive, países com desenvolvimento, como Espanha, estão em constante luta pelo cinema, pela música clássica e outras manifestações. Isto ainda quando em muitos lugares essas expressões sobrevivem graças ao mecenato. Porém, se supõe que um Estado socialista deve ser mais responsável, mais benevolente. Inclusive, tratando-se de um Estado pobre, bloqueado, cada vez com menos ajudas e ainda por cima com uma crise econômica mundial, como pano de fundo. Cabe perguntar-se o que pode significar para Cuba sair do bloqueio e cair nas mãos do FMI. Seja como for, é preciso ser muito valente para declarar que não renunciamos ao socialismo.

Os cineastas cubanos se mostram conscientes da realidade; também, daí suas ideias de independência e de uma lei cinematográfica. Não creio que o balé vá desaparecer, porém as instituições dificilmente sobreviverão sem mudanças. É admirável que figuras como Liz Alfonso e agora Carlos Acosta levem adiante seus projetos. Por outro lado, também existem outras experiências novas e interessantes, como a Fábrica de Arte, de X Alfonso.

Estruturas como as Fundações foram tomadas em Cuba com reserva, talvez por temor de que se tornassem demasiado independentes. Assim, existem projetos que levam anos esperando por uma anunciada revisão da Lei de Fundações. Pois creio que uma forma de salvaguardar algumas boas atividades que começaram com a Revolução é transformando-as precisamente em fundações ou instituições semelhantes. E que cada iniciativa prove na prática sua capacidade e sua vigência.

– O turismo em Cuba cresceu muito. Dizem que muitos turistas querem conhecer o país “antes que cheguem os norte-americanos” Você acredita que realmente Cuba corre o risco de americanizar-se, de que os McDonald’s suplantem o pão com pernil?

– Não se pode subestimar a agudeza dos cubanos. É inevitável o auge vertiginoso dos restaurantes e de outros serviços. Se chegar a Cuba, não duvido que McDonald’s acabe vendendo pão com pernil, mas ainda terá de ver como é feito. Eu queria que não mudássemos o vital do que comemos: esse é um valor nosso a ser defendido. Alguns espertinhos pressionam a natureza para que as frutas amadureçam mais rápido, o que lhes muda o sabor, além do dano dos agentes químicos. Eu espero que esses maus hábitos não se generalizem e que nunca troquemos saúde por falso crescimento. Pode ser a coisas assim que se referem com “antes que cheguem os norte-americanos”.

– Seus concertos pelos bairros populares têm repercutido muito a nível nacional e internacional.

– Começamos fazendo-os muito discretamente; repudiávamos que o trabalho que fazíamos nesses lugares se transformasse em show. Porém, com o tempo, foi inevitável que transcenda. Alguns documentários ajudaram. O primeiro, feito pelo espanhol Nico García, se chama Ojalá. Também foi feita uma exposição de painéis de Tony Guerrero e fotos minhas no Centro Cultural Pablo de la Torriente. Foram ocorrendo coisas que colocaram o projeto à luz.

– Por que você decidiu fazê-los?

– O primeiro concerto me foi pedido por José Alberto Álvarez, um policial que atendia o bairrozinho de La Corbata. Porém, acontece que ir aos bairros é viciante. Você chega ali e vê as famílias, as crianças, os velhinhos nas portas e varandas, os jovens pendurados nos telhados, e você enxerga a beleza e percebe que faz falta e que as pessoas agradecem. Não existem razões melhores.

– Quantos realizou?

– Estamos no concerto número 68 e, em 9 de setembro passado, completamos 5 anos de tour.

– Como os financia?

– Recebo um pouco de ajuda estatal. Fornecem-me o palco, a planta de eletricidade e as luzes, que são coisas que não temos. Também nos ajuda o pessoal do Departamento de Viagens do Ministério da Cultura. Todo o mais, o som, os microfones, os instrumentos e os salários de alguns trabalhadores são fornecidos pelo projeto Ojalá. Estes gastos são um capítulo fixo de nossa economia. As viagens ao exterior nos servem para ir melhorando condições, sobretudo a qualidade do som, que pouco a pouco chega a ser muito profissional. Não é demais pontuar que todos os músicos e artistas que se oferecem para o tour o fazem com absoluto desinteresse material.

– Suas opiniões sobre a situação social que encontrou nos bairros populares despertaram todo tipo de comentários. O que encontrou realmente nesses lugares?

– Não é que eu ignorasse que temos bairros assim. O projeto Ojalá tem mais de 20 anos ao lado do El Romerillo. Todos que vivem em Cuba e querem ver que isso existe, o veem. É que o trabalho constante nesses lugares faz aprofundar a visão não só sobre as carências e as condições de vida, mas a luta constante contra a indolência e a burocracia. Por isso se fez dessa forma Canción de barrio, o documentário de Alejandro Ramírez, que resume os dois primeiros anos do tour: descarnado, como é a realidade. E, por isso, no dia da estreia, convidamos os dirigentes dos lugares que iam ser expostos. Alguns foram.

– Que lhe acrescenta, como artista e como pessoa, estes concertos?

– Eu comecei a experimentar essa prática desde menino, no início da Revolução. Eu vi balé não por formação familiar ou por possibilidades econômicas, mas porque, de repente, Alicia Alonso dançava em uma praça. O que é que conta o primeiro documentário de Octavio Cortazar, Por primera vez? A visita de caminhão projetor às montanhas, onde nunca tinha estado o cinema. Que fazíamos em nossa juventude nós mesmos, constantemente, senão cantar em todas as partes? Eu nunca deixei de cantar assim, sobretudo em meu país.

Pode ser que você não saiba, mas jamais cobrei um concerto em Cuba. Bom: uma vez Luis Eduardo Aute e eu cobramos um, no Karl Marx, e doamos o dinheiro a San Antonio de los Baños, para que a prefeitura tivesse um fundo (que dizia não ter) e pudesse pagar os trabalhadores que limparam o rio Ariguanabo. Porém, também afora cantei assim. Fiz muito isso no México, onde comecei a ir por aquelas Jornadas de Solidaridad com Uruguai. O fiz na Colômbia, em Venezuela, em Angola, na República Dominicana, no Equador, na Bolívia, no Paraguai. O fiz em alto mar, durante meses, quando estive com a Frota Cubana de Pesca. O fiz nas prisões várias vezes. Há muito pouco tempo, fizemos um show em Villa Lugano, em Buenos Aires. No Chile, falei com Michelle Bachelet para que fizesse uma lei que obrigasse os estrangeiros a fazer um show gratuito. Parece que não foi possível.

Conseguir a sistematização da Gira por los Barrios en Cuba (também conhecida como Gira Interminable) me deu uma satisfação muito grande. Mais que qualquer outra coisa.

– Como você vê as possibilidades de se manter o projeto social da Revolução?

– Os projetos sociais humanistas, revolucionários, serão mantidos sempre que existirem aqueles que os levem a cabo.

Por Fernando Ravsberg

Fonte: http://elinciso.com/silvio-rodriguez-la-valentia-es-no-renunciar-al-socialismo/

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

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