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Diário Liberdade
Sábado, 16 Junho 2018 14:01 Última modificação em Quarta, 20 Junho 2018 23:07

Resultados reais do encontro Trump-Kim - 'Você congela, eu congelo' (e coisas engraçadas)

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País: Coreia do Norte / Resenhas / Fonte: Moon of Alabama

[Tradução do Coletivo Vila Vudu] O que se vê depois do encontro Trump-Kim em Singapura confirma o que escrevi antes. Os dois lados assinaram um compromisso de "você congela, eu congelo" que a Coreia do Norte já oferecia desde, no mínimo 2015. Os EUA põem fim aos ameaçadores exercícios de guerra, e a Coreia do Norte suspende os testes nucleares e de mísseis. Os dois lados comprometem-se a voltar a conversar sobre um tratado de paz em troca de algum desarmamento nuclear.

Sob pressão dos linhas-duras, o governo Trump tenta divulgar outras concessões que os coreanos teriam feito na declaração divulgada ao final do encontro. Diz que a Coreia do Norte ter-se-ia comprometido a tomar medidas "verificáveis e irreversíveis". Erro tático, porque simplesmente não é assim. Só conta o escrito: "A República Popular Democrática da Coreia compromete-se a trabalhar na direção de completa desnuclearização  da península coreana". Nem uma palavra a mais ou a menos.

Em 1970 os EUA comprometeram-se a fazer o próprio desarmamento nuclear, total, completo, pelo Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares:


Artigo VI – Cada Parte deste Tratado compromete-se a entabular, de boa fé, negociações sobre medidas efetivas para a cessação em data próxima da corrida armamentista nuclear e para o desarmamento nuclear, e sobre um Tratado de desarmamento geral e completo, sob estrito e eficaz controle internacional.


As duas formulações são desiderativas: "trabalhar na direção" e "entabular negociações" são formulações intencionalmente vagas de igual determinação.

O ponto realmente importante do encontro de Singapura foi a decisão em termos de "você congela, eu congelo" com a qual se comprometeram os EUA e a República Popular Democrática da Coreia.

Depois que a Coreia do Norte testou com sucesso um aparelho termonuclear e um míssil de alcance intercontinental, os EUA perderam a capacidade de fazer guerra contra aquele país sem risco de ver destruída alguma das principais cidades dos EUA. Os EUA passaram a ter de negociar algum tipo de trégua com a Coreia do Norte que reduzisse o risco de conflito nuclear. "Você congela, eu congelo" é o primeiro passo nessa direção.

A Coreia do Norte teve razões econômicas para buscar armas atômicas. O custo de eterna prontidão militar contra um sempre possível ataque norte-americano estava matando a economia:


Cada vez que EUA e Coreia do Sul lançam suas grandes manobras os alistados no exército norte-coreano (1,2 milhões de soldados) têm de ser postos em estado de alta prontidão para defesa. Grandes manobras são movimento inicial clássico para ataques militares. As manobras EUA-Coreia do Sul são feitas (intencionalmente) nos períodos de plantio (abril/maio) ou de colheita (agosto) do arroz, quando a Coreia do Norte precisa de cada um e de todos os braços em suas poucas áreas aráveis.

...

A defesa nuclear permite à Coreia do Norte reduzir a prontidão militar convencional, especialmente durante essas importantes temporadas agrícolas. O trabalho pode prosseguir nos campos e em todas as demais atividades, sem a prontidão militar absoluta quase permanente. Essa é a política oficial norte-coreana hoje, chamada 'byungjin'.

Um fim assegurado das manobras anuais dos EUA permitirá à Coreia do Norte voltar às próprias defesas convencionais sem depender de artefatos nucleares. O elo entre as manobras dos EUA e a Coreia do Norte com contenção nuclear explica a conexão direta e lógica com as repetidas propostas de acordo.

Seguindo essa lógica econômica, a Coreia do Norte ofereceu congelar seu desenvolvimento nuclear, se EUA e Coreia do Sul congelassem as manobras militares em grande escala. O governo Obama rejeitou a primeira proposta em fevereiro de 2015 e novamente em abril de 2016. Depois disso, o governo chinês introduziu o conceito de "você congela, eu congelo". No início de 2017, o ministro de Relações Exteriores da China Wang Yi explicou:


Para diluir a crise que cresce na península, a China propõe que, como primeiro passo, a RPDC suspenda as atividades nucleares e de mísseis, em troca da suspensão de exercícios militares em larga escala de EUA-Coreia do Sul. Essa suspensão-em-troca-de suspensão pode ajudar-nos a quebrar o dilema da segurança e trazer as partes, outra vez, à mesa de negociações. Depois se pode adotar a abordagem em dupla mão para desnuclearizar a península, por uma mão; e estabelecer um mecanismo de paz, pela outra. Só se se considerarem as preocupações dois dos lados, de modo sincronizado e recíproco será possível encontrar solução fundamental para paz e estabilidade duradouras na península.


Quando o presidente chinês visitou Trump em abril de 2017 explicou-lhe todo o conceito. Trump compreendeu e falou de "tremendo progresso". Havia encontrado um modo para diluir o problema estratégico das bombas e mísseis da Coreia do Norte.

Houve negociações secretas com China e RPDC. Em abril Kim Jong-un congelou todos os testes previstos. Depois de algumas idas e vindas cenográficas a reunião aconteceu e foi assinada a declaração. Em sua longa conferência de imprensa Trump explicou os parâmetros de "eu congelo, você congela":

Os jogos de guerra são caros demais, pagamos por grande maioria deles, nós levamos os bombardeiros de Guam, ... 

Conheço aviões muito bem, é muito caro. E não gostei. E o – foi o que eu realmente disse – e acho também que é provocação demais, tenho de dizer isso a você, Jennifer, é provocação demais. Quando vejo isso, você tem um país bem ali, ao lado de casa. Assim, nas circunstâncias em que estamos negociando um acordo muito amplo, completo, não acho apropriado continuar fazendo jogos de guerra.

...

Assim, estamos trazendo de volta o que ficou, assegurar o fim de todos os testes de mísseis e nucleares por– quanto tempo? Sete meses? E por sete meses, nada de mísseis. Por sete meses não houve teste nuclear, ninguém viu explosão nuclear.

...

... e eles prometeram um fim de todos os mísseis e de todos os testes nucleares. Prometeram fechar o único voo, digo, o único local de teste nucleares primários... [orig.  they secured the closure of their single primary nuclear test flight — test site ...]

Eis o 'eu congelo, você congela' que a RPDC ofereceu e a China promoveu. Os EUA param com suas grandes manobras "estratégicas" que envolvem bombardeiros nucleares armados que partem de Guam, porta-aviões e tal, e a RPDC para com testes nucleares e mísseis. A RPDC conseguiu o que queria. Agora pode reduzir o gasto militar e desenvolver a própria economia.

A situação ainda é de certo modo instável, porque os dois lados podem reverter o 'autocongelamento'.

O 'eu congelo, você congela' é, como previsto pelo ministro de Relações Exteriores da China, um ponto de partida para longa série de conversações que podem finalmente levar a um acordo de paz e a algum desarmamento nuclear. Agora começa a "abordagem em dupla mão" para um acordo de paz em troca de algum desarmamento, "de modo sincronizado e recíproco ". Será processo "passo a passo" que demorará anos, talvez décadas.

A Coreia do Norte continuará por enquanto sob sanções dos EUA, mas os dentes das sanções de "pressão máxima" estão quebrados. Outros países ficarão livres para negociar com a Coreia do Norte. Na conferência de imprensa, Trump também falou sobre isso:

Enquanto isso, as sanções permanecem ativas.

...

As sanções serão levantadas quando tivermos certezas de que as bombas nucleares já não são um fator [ing. when we are sure that the nukes are no longer a factor.]

...

O presidente Xi da China, que realmente fechou essa fronteira, talvez ultrapasse um pouco nos próximos poucos meses, mas... ok.

...

... E acho que durante os dois últimos meses, a fronteira está mais aberta do que estava quando começamos, mas as coisas são o que são...

Trump manterá as sanções norte-americanas, mas ok que a China ignore pelo menos algumas delas. Trump deixou de insistir na "pressão máxima". A Rússia também aliviará as sanções, assim como a Coreia do Sul.

A reunião foi bem-sucedida, dado que criou as bases para conversações futuras. Trump foi muito mais astuto que Obama. O fato de Obama ter rejeitado a proposta de mútuo congelamento permitiu que a Coreia do Norte completasse seu programa nuclear. Obama poderia ter impedido que acontecesse. Trump aceitou o conceito dos norte-coreanos de 'eu congelo, você congela'. Não há outra saída sensível para o dilema da segurança. Muitas conversações ainda virão, se as coisas correrem bem, haverá afinal paz na Coreia e as armas nucleares deixarão "de ser um fator".

A reunião foi um bom começo. O governo Trump tem até algum direito de se autopromover e exagerar nos louros, como se fosse o acordo perfeito.

O presidente Moon da Coreia do Sul está também muito feliz com os resultados. Ajudaram-no a esmagar a oposição linha-dura nas eleições locais e suplementares de ontem [orig. by-elections, também chamadas "eleições especiais" para eleger ocupantes para cargos eletivos que tenham ficado vagos por quaisquer motivos no período entre duas eleições gerais].

*******

Agora, um pouco de distração:

Não percam essa encantadora peça de propaganda que foi exibida pela TV norte-coreana. A viagem triunfante do Supremo Líder Kim a Singapura, onde caminha pela cidade, antes de o aclamado estadista conversar com Donald Trump de igual para igual. O vídeo é narrado pela incomparável apresentadora Ri Chun Hee. Coro de 40 minutos de triunfo e elogios.

O vídeo do triunfo enfurecerá todos que se opunham à reunião. Aos 23'35" vê-se Trump batendo continência a um general da República Popular Democrática da Coreia do Norte. Gesto magnífico, que ajudou a criar clima. Kim Jong-un abriu-se num sorriso, depois da continência. Para os antitrumpistas, será mais um motivo para criticar a reunião. Mas Trump bate continência depois de o general ter baixado a cabeça para cumprimentá-lo. É evento absolutamente extraordinário: programa, na TV nacional norte-coreana de um líder de suas forças armadas cumprimentando o presidente dos EUA!

O vídeo mostra que Kim viajou num Boeing 747-400 da China Air, com uma grande bandeira chinesa pintada na fuselagem. A Coreia do Norte tem aviões próprios de longo curso e poderia ter usado um dos seus. É altamente simbólico que Kim tenha viajado num avião chinês. Mostra que foi levado à reunião pela China. É o que o vídeo mostra perfeitamente e sobretudo. (Acontece também que o avião chinês é maior que o Boeing 747-200 de Trump. Outra informação relevante, que deve ter merecido análise cuidadosa.)

E há imagens excelentes do próprio encontro: a cena do encontro como a TV mostrou e o encontro em estilo Gangnam.

Essa imagem também é engraçada. Em 2003, a Coreia do Norte chamou John Bolton de "dejeto humano" e "sanguessuga". Antes de se tornar Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, Bolton apoiou a realização de uma reunião exclusivamente porque "pode reduzir o tempo que desperdiçaremos nessas negociações". 

Bolton errou feio. As negociações foram muito bem-sucedidas. Kim Jong-un venceu. Jogou Bolton na lona. Observem o sorriso.

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