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Terça, 06 Novembro 2018 00:56 Última modificação em Sexta, 16 Novembro 2018 00:38

Crítica ao pensamento descolonial (II): O pensamento descolonial e a falsificaçom do marxismo Destaque

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/ Batalha de ideias / Fonte: Diário Liberdade

[Cristian Sima Guerra, traduçom do Diário Liberdade] Na anterior entrega assinalava-se como a teoria descolonial acusava o marxismo de ser um projeto racista e imperialista.

No entanto, em nengumha parte o marxismo se desenvolve desse modo. Também é falso que o marxismo proponha um universalismo etnocêntrico. Na realidade, o marxismo apela a um universalismo que, valorizando as diversas características específicas e concretas da cada sociedade, procura a emancipaçom humana mundial. Dito de outro modo, um universalismo que nom emane de um provincionalismo etnocêntrico. Assi o assinala o próprio Marx quando polemiza com os hegelianos Ludwig Feuerbach, Max Stirner e Bruno Bauer:

 “Em vez da história universal, Sam Max serve-nos umhas quantas glosas, extraordinariamente pobres e tortas, além disso, a respeito da história da teologia e da filosofia alemás. E se umha ou outra vez saímos em aparência do enquadramento da Alemanha, é exclusivamente para ver como os factos e os pensamentos doutros povos, por exemplo a Revoluçom Francesa, “alcançam o seu propósito final” na Alemanha. Só se citam feitos da naçom alemá, som examinados e concebidos à maneira nacional alemá e o resultado é, naturalmente, um resultado nacional-alemám. [...]. Stirner confunde a capital da Prússia com o mundo e a sua história. [...] Partindo de semelhantes premissas, só se pode chegar, naturalmente, a resultados fechados dentro de horizontes nacionais e locais” (Marx e Engels (1846). A ideologia alemá. Capítulo 2, parte 3).

 Como vemos, o próprio Marx foi um grande crítico com o etnocentrismo alemám dos jovens hegelianos de esquerda. Para Marx, para ser realmente universalista, era preciso valorizar a história de todos os povos, e nom só a da Alemanha, para desenvolver umha posiçom realmente universalista, alheia a qualquer localismo ou etnocentrismo.

 É habitual, a partir do olhar descolonial, além disso, acusar Marx de colonialista quando fala de que, apesar das crueldades, o colonialismo británico na Índia guardava alguns aspetos positivos face ao futuro do país asiático, mas esquece-se, suspeitamente, a tese central defendida em dito artigo: que, como conseqüência da dominaçom colonial, a Índia viverá um processo de centralizaçom que lhe dará características de naçom e, portanto, serám fundadas as bases para a emancipaçom nacional da Índia. Em palavras do próprio Marx:

 “A unidade política da Índia, mais consolidada e estendida a umha esfera mais ampla do que em qualquer momento da dominaçom dos grandes mongóis, era a primeira condiçom da sua regeneraçom. Essa unidade, imposta pola espada británica, irá ver-se agora fortalecida e perpetuada polo telégrafo elétrico. O exército indiano, organizado e treinado polos sargentos ingleses, é umha condiçom sine qua non para que a Índia poda conquistar a sua independência e o único capaz de evitar que o país se converta em presa do primeiro conquistador estrangeiro” (Marx (1853). Futuros resultados da dominaçom británica na Índia).

 E, o que há de verdadeiro no que afirma Grosfoguel de que “o proletário de Marx é um sujeito europeu, masculino, branco, judeu-cristao, etc”? Pois que, simplesmente, demonstra umha vez mais o grande desconhecimento que tem Ramón Grosfoguel -e os seus seguidores- do marxismo. Nom chego a compreender como se ponhem palavras em boca de Marx que ele nunca dixo nem escreveu; este ato de falsificaçom requer, a meu ver, de umha legítima crítica ou denúncia pública. Marx, n’O Capital, refletindo sobre como as transformaçons na indústria afetam a família, di o seguinte:

 “Por muito horrível e repugnante que nos pareça a dissoluçom da antiga família dentro do sistema capitalista, nom é menos verdadeiro que a grande indústria, ao atribuir à mulher, ao jovem e à criança de ambos os sexos um papel decisivo nos processos socialmente organizados da produçom, arrancando-os com isso à órbita doméstica, cria as novas bases económicas para umha forma superior de família e de relaçons entre ambos os sexos” (Marx (1867). O Capital, Tomo I. Página 410).

 Nas palavras de Marx, vemos claramente como di que o proletariado é formado por homes, mulheres e crianças. Cabe acrescentar que nem sequer é necessário ir a obras densas de Marx para ver que a sua visom do proletariado valorizava ambos os sexos. Além disso, neste tipo de afirmaçons tam atrevidas, evidencia-se que Grosfoguel nem sequer tem repassado as obras mais fundamentais e conhecidas de Marx. Por exemplo, se formos ao ultraconhecido Manifesto Comunista, escrito junto a Engels, podemos ler:

 “Som todos, homes, mulheres e crianças, meros instrumentos de trabalho, entre os quais nom há mais diferença que a do custo” (Marx e Engels (1848). O Manifesto Comunista. Página 59).

 Além disso, diferentemente de alguns destacados teóricos anarquistas, Marx foi favorável à libertaçom da mulher. As suas leituras da socialista utópica e feminista Flora Tristán influírom-no notavelmente, dedicando um capítulo a esta pensadora na sua obra (conjunta com Engels) intitulada A Sagrada Família, onde defende as teses centrais da principal obra de Tristán, intitulada A Uniom Operária (é dela de onde Marx e Engels extraem a frase “proletários de todos os países, uni-vos) e publicada em 1840, escrito em que Flora Tristán assinala que a emancipaçom dos trabalhadores devia ir unida à emancipaçom da mulher. Enquanto Marx e Engels defendiam a libertaçom da mulher -vinculada à superaçom do capitalismo e a revoluçom comunista, como também pode ler no Manifesto Comunista-, anarquistas como Proudhon escreviam o seguinte:

 “Longe de aplaudir isto que se chama hoje em dia emancipaçom da mulher, eu inclino-me antes, se houver que chegar a estes extremos, por pôr a mulher em reclusom" (Proudhon (1840). Primeira memória da propriedade).

No entanto, nom vemos os descoloniais chamar o anarquismo de machista, cousa da que acusam -e com força- o marxismo.

Também é falso que Marx pensasse só nos brancos ou que o seu sujeito político revolucionário fosse unicamente branco. Ao respeito, cabe assinalar que a começos deste ano, Ramón Grosfoguel publicou um texto sobre “os marxismos negros”, no qual assinala o seguinte:

“O marxismo negro nom é umha cor de pele, mas umha maneira de entender o mundo. Os marxistas negros pensam a partir da experiência histórica social da articulaçom entre exploraçom capitalista e dominaçom racial, a partir da experiência de um escravo negro num mundo capitalista dominado por brancos ocidentais. [...] Umha pessoa racialmente classificada como branca –embora seja menos comum– pode também produzir pensamento crítico a partir da experiência da opressom racial negra, sempre que leve a sério o pensamento crítico que se produz a partir da experiência de opressom que vivem os negros, num mundo dominado polos brancos” (Ramón Grosfoguel (2018). Negros marxistas ou marxismos negros? Um olhar descolonial).

 Caímos, pois, numha terrível contradiçom. Se aceitarmos esta tese de Grosfoguel –de que o marxismo negro nom é produzido exclusivamente por negros e estudamos o pensamento de Marx, devemos concluir que Marx foi um marxista negro. Isso é razoável se estudamos as reflexons que Marx fijo sobre a escravatura nos Estados Unidos da América. Por exemplo, no capítulo 25 d’O Capital onde desenvolve “a teoria moderna da colonizaçom” Marx ataca o essencialismo que afirmava sem dissimulos que um negro era um escravo:

 “Um negro é um negro. Só sob determinadas condiçons se converte em escravo” (Marx (1867). O Capital, Tomo I. Capítulo 25. Nota 256).

 Por outro lado, julgamos recomendável o ensaio da socióloga e historiadora marxista norte-americana Dyne Suh, intitulado “Quando todos eramos abolicionistas: Marx sobre a escravatura, a raça e a classe”. Nele, assinala-se como Marx chamou os operários brancos dos EUA a se solidarizarem com a raça negra escravizada:

“Marx achava que luitando por melhorar as condiçons por meio de umha solidariedade de classe interracial iria poder-se empreender a batalha numha frente mais reduzida. [...]. Marx nom só pediu à classe trabalhadora branca que abandonasse umhas fantasias pequeno burguesas, como fijo questom de só terem duas opçons: permitir umha vitória do Sul e com isso a expansom da escravatura por todas as linhas raciais ou alinhar com a emancipaçom doutros seres humanos oprimidos para derrotar a classe dirigente do Sul.”

E contínua assinalando:

 “Nesta afirmaçom, Marx pedia que se deixasse de atribuir aos negros a casta mais baixa como capital fixo. Marx fijo questom de que inclusive para sondear umha revoluçom de classe nos Estados Unidos, os brancos tinham que luitar pola emancipaçom dos negros da escravatura até se converterem em iguais, para formarem umha classe trabalhadora mais ampla e unificada, em vez de tentar perpetuar as castas raciais dentro da classe trabalhadora”.

 E nom devemos esquecer que no Livro Primeiro d’O Capital, Marx assinalou que os brancos nom seriam livres se antes nom o eram os negros: “Nos Estados Unidos da América do Norte, todo o movimento operário independente estivo sumido na paralisia enquanto a escravatura desfigurou umha parte da república. O trabalho cuja pele é branca nom pode emancipar-se ali onde se estigmatiza o trabalho de pele negra” (Karl Marx (2017). O Capital, Livro Primeiro. Século XXI Editores. Página 369).

 Como vemos, é abertamente falso que Marx pensasse só em homes brancos e europeus na hora de pensar na emancipaçom. Além disso, foi crítico com o etnocentrismo alemám dos jovens hegelianos e, apesar das falsificaçons das suas reflexons sobre a Índia, foi um defensor da sua independência política e um autor profundamente anticolonial, como refletem as suas reflexons sobre a Índia, China ou Irlanda.

Outro tipo de etnocentrismo que os teóricos descoloniais assinalam ao marxismo consiste em que este considerava, segundo eles e elas, que todas as sociedades passavam polas mesmas etapas polas que tinha passado Europa Ocidental, embora a diferentes ritmos. Mas isto é matizável por várias razons. Em primeiro lugar, Marx considerou que existiam umha série de exceçons, como “o modo de produçom asiático” ou “o modo de produçom germánico” que só tinham lugar em ditas sociedades. Em segundo lugar, Marx pensou sobre as possibilidades de outros povos terem umha via diferente. Ao respeito, pode assinalar-se o caso da Rússia, sobre o qual Marx assinala três cousas:

1. A história nom é linear, isto é, nom é umha linha evolutiva de umha etapa para outra. Para defender isto cita o seguinte exemplo: “Em diferentes pontos d’O Capital, figem alusons ao destino que aconteceu aos plebeus da antiga Roma. Eles eram originalmente camponeses livres, cada um a arar o seu próprio pedaço de terra para si mesmo. No curso da história romana, fôrom expropriados. O que aconteceu? Os proletários romanos convertêrom-se, nom em trabalhadores assalariados, mas numha multidom de desempregados mais abjetos que os chamados brancos pobres do sul dos Estados Unidos; e o que se desenvolveu ao seu lado nom foi um modo de produçom capitalista, mas um modo escravista de produçom” (Karl Marx, citado por Kevin B. Anderson (2007). em “Os escritos tardios de Marx sobre a Rússia reexaminados”). Nesta questom, Marx foi muito claro, de facto numha carta a Nikolay Konstantinovich Mikhaylovsky escreveu: “De maneira que acontecimentos assombrosamente semelhantes, ocorrendo em contextos históricos diferentes, levam a resultados totalmente díspares. Mediante o estudo da cada um destes desenvolvimentos separadamente, será facilmente encontrada a chave de tal fenómeno, mas isto nunca deve de ser atribuído à chave mestra da teoria histórico-filosófica geral, a virtude suprema da qual consiste em ser supra-histórica” (Karl Marx, citado por Kevin B. Anderson (2007). In “Os escritos tardios de Marx sobre a Rússia reexaminados”). Foi tam claro que, nessa mesma carta Marx, acusou aqueles leitores que concluíam que todos os povos deviam passar necessariamente pola etapa capitalista como tinha acontecido na Europa ocidental de manipularem e metamorfosearem: “Mas isto é demasiado para o meu crítico. Ele absolutamente precisa de metamorfosear o meu esquema da génese do capitalismo na Europa Ocidental numha teoria histórico-filosófica do curso geral, fatalmente imposta a todos os povos, independentemente das circunstáncias históricas nas quais se acham situados.” (Karl Marx (1879). Letter to Mikhaylovsky.

2. Que umha vez se desenvolveu o capitalismo na Europa Ocidental, os outros povos podem imitar alguns aspetos desta sociedade enquanto mantenhem as organizaçons comunais, para assi poderem pular diretamente para a etapa socialista ou comunista. Marx achava que a Rússia era o país que poderia passar por este tipo de soluçons: “Precisamente porque é coetánea à produçom capitalista, a comuna rural teria que se apropriar para si mesma de todos os seus benefícios e fazê-lo sem ter que passar polas suas horríveis vicissitudes. Nom iam talvez os admiradores russos do capitalismo negar que tal desenvolvimento é teoricamente possível? Em tal caso eu perguntava-lhes: Tivo a Rússia que passar por umha longa incubaçom da indústria mecánica, ao estilo ocidental, antes de poder usar máquinas, barcos de vapor, comboios, etc? Deixemos que expliquem também como figérom os russos para introduzir, num abrir e fechar de olhos, toda essa maquinaria de intercámbio (bancos, crédito, empresas, etc.) decorrente do trabalho de séculos em Ocidente? (Karl Marx, citado por Kevin B. Anderson (2007). In “Os escritos tardios de Marx sobre a Rússia reexaminados”). Na carta que enviou à revolucionária russa Lado Ivánovna Zasúlich, Marx expressou-no mais claro: “A contemporaneidade da produçom ocidental, que domina o mundo do mercado, permite à Rússia incorporar à comuna todos os benefícios do sistema capitalista, sem ter que se submeter ao seu humilhante tributo”. (Marx (1881). First Draft of Letter To Lado Zasulich.

3. Embora durante algum tempo Marx defendesse que era esperável que a revoluçom proletária surgisse em Inglaterra, por causa de ali o proletariado ser umha força social totalmente desenvolvida, avaliou as possibilidades de que fosse um país nom ocidental o primeiro a dar este salto. Na obra de Domenico Losurdo sobre a lenda negra do estalinismo, encontramos umha nota de Marx em que se observam já este tipo de reflexons sobre a Rússia: “se a nobreza continuar a opor-se à emancipaçom dos camponeses, estourará umha grande revoluçom; dela surgirá um «regime de terror dos servos da gleba semi-asiáticos, sem precedentes na história” (Domenico Losurdo (2011). Stalin: História y crítica de una leyenda negra. Barcelona: Editorial El Viejo Topo. Página 111). Mas nom seria esta a única reflexom de Marx sobre as possibilidades de que a revoluçom estourasse na Rússia em vez de no Ocidente. No prefácio da segunda ediçom russa do Manifesto Comunista de 1882, Marx escreveria: “Rússia forma a vanguarda da açom revolucionária na Europa” (Karl Marx, citado por Kevin B. Anderson (2007). em “Os escritos tardios de Marx sobre a Rússia reexaminados”).

Na próxima entrega, falaremos do essencialismo do olhar descolonial, um essencialismo racista que parte da visom colonialista e cujas conseqüências som, entre outras, a rejeiçom do internacionalismo e do universalismo. Para isso comentaremos tanto as interpretaçons sesgadas como as brutais tergiversaçons da obra e pensamento de Frantz Fanon por parte de aqueles autodenominados descoloniais.

Ler aqui a primeira parte deste trabalho: Crítica ao pensamento descolonial (I)

Fonte: El País Canário

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