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Segunda, 13 Março 2017 00:18 Última modificação em Segunda, 13 Março 2017 08:06

Diga-me com quem andas…: a propósito de dois episódios da última semana

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País: Brasil / Batalha de ideias / Fonte: Esquerda Online

Por Carlos Zacarias, de Salvador. 

Dois episódios na última semana me fizeram lembrar uma passagem descrita por Trotsky enquanto ele negociava a paz de Brest-Litovsky, nos estertores da Primeira Guerra Mundial.

O dirigente bolchevique anotou em sua obra Minha vida as impressões sobre o clima de amizade reinante entre as delegações russa e alemã que se encontraram na fronteira dos dois países com a finalidade de negociarem uma saída para a guerra. Diante da situação, Trotsky, então chefe da delegação russa e principal encarregado da tarefa, passou um tremendo pito na sua delegação, terminando por exigir, inclusive, que as refeições fossem feitas em separado. Sabedor dos objetivos expansionistas dos alemães, Trotsky não se fez de rogado ante o aparente clima de amizade optando por oferecer um exemplo sobre ética, moral e oportunidade.

A reminiscência de Trotsky me veio à lembrança em função do episódio de ampla repercussão em que o senador Chico Alencar, do PSOL do Rio de Janeiro, teria “beijado a mão” de Aécio Neves num jantar de comemoração aos 50 anos de carreira do jornalista Ricardo Noblat, colunista de O Globo. Segundo matéria da Folha de São Paulo (08/03/2017), ao encontrar Aécio, o senador do PSOL teria lhe dirigido seguinte elogio: “Você tudo bem, mas Renan [Calheiros (PMDB-AL)] e [Romero] Jucá (PMDB-RR), não”.

Como não poderia deixar de ser, o episódio virou nitroglicerina pura na mão de adversários petistas e pecedobistas, que das redes sociais acusaram a “traição” do PSOL que não teria nenhuma moral para acusar o PT de alianças espúrias que fez no passado.

O outro acontecimento foi produzido a partir de uma postagem do historiador Leandro Karnal, que colocou no Facebook uma foto sua em jantar com o juiz Sérgio Moro, com a seguinte legenda: “Dia intenso em Curitiba. Encerro com um jantar com dois bons amigos: juiz Furlan e juiz Sérgio Moro. Talvez não faça sentido para alguns. O mundo não é linear. A noite e o vinho foram ótimos. Amo ouvir gente inteligente. Discutimos possibilidades de projetos em comum”.

Tal qual o episódio de Chico Alencar, a postagem de Karnal mereceu imenso repúdio nas redes sociais e comentários de inúmeros seguidores do historiador decepcionados com o fato, que lhes pareceu, também, uma traição de um intelectual público com ampla respeitabilidade entre os setores progressistas.

Antes de mais nada, é preciso distinguir as duas situações. Em primeiro lugar, Chico Alencar é uma figura pública no exercício de um mandato que tem por obrigação dar bons exemplos aos seus eleitores. Mais do que isso, deve assumir uma postura que corresponda aos princípios programáticos e determinações do PSOL, o único partido com uma coerente postura de esquerda no parlamento brasileiro. Em tempos tão difíceis como o que vivemos, de ofensiva conservadora, confraternizar com inimigos de classe (inimigo de classe e não adversário político, bem entendido!) em rega-bofes oferecidos por jornalistas não é uma postura adequada e deve ser reprovada, como de fato, o foi. Quanto ao historiador Leandro Karnal, ainda que não deva satisfação a ninguém, como amealhou ampla simpatia do público de esquerda, deve saber receber as críticas por ter confraternizado em encontro íntimo com alguém que é, reconhecidamente, inimigo da esquerda.

Após os acontecimentos e suas repercussões, as posturas de Alencar e Karnal foram, até o momento, também distintas. O primeiro veio a público se desculpar através de um vídeo em que assume o erro de ter ido ao encontro e ainda por cima ter desferido elogios a Aécio Neves. Quanto ao historiador, até o momento, a única coisa que fez foi apagar suas postagem no Facebook, cuja legenda, não soava apenas como uma provocação, mas como um profundo desrespeito à inteligência dos seus seguidores.

Dos episódios acima não se pode dizer que não se colham lições. A primeira é a de que devemos saber bem quem são os nossos inimigos e, por extensão, devemos compreender quem são os nossos aliados. Entre os primeiros, devemos aprender a separar aqueles que apenas circunstancialmente se colocam num campo diferente do nosso e que, portanto, devemos lutar para convencer do contrário e para ganhar para o nosso campo. De outro lado estão aqueles que estruturalmente se perfilam do lado oposto, sobre os quais não há nada a fazer, senão trabalhar para derrotar.

Entre os militantes da esquerda têm sido cada vez mais recorrente a perda da capacidade de diferenciar uns dos outros, e isso parece um problema grave. Ou seja, se não pudermos trazer de volta os setores médios que se deslocaram para o terreno da burguesia através dos grupos das novas direitas, estamos fadados ao fracasso. Por outro lado, temos que ser capazes de entender que banqueiros, grandes empresários e latifundiários são nossos inimigos de classe e com estes e seus representantes não podemos sentar e confraternizar. Da mesma forma, precisamos saber caracterizar corretamente as correntes e os indivíduos fascistas, pois sobre estes não há diálogo possível.

Quanto aos aliados, igualmente a esquerda tem perdido a capacidade de dialogar, situação que praticamente inviabiliza a construção de campos de intervenção unitária. Em vista disso, petistas e pecedobistas partiram para acusar o PSOL de traição, como se o fato de Alencar ter cometido o erro de confraternizar com o inimigo, igualasse o seu partido aos que se juntaram com a burguesia não apenas em momentos festivos, mas que governaram junto e se aliaram para atacar os interesses dos trabalhadores.

No final das contas, Chico Alencar se engrandeceu ao tirar lições do triste episódio e vir a público se desculpar. Quanto a Karnal, não está claro de que tenha sido capaz de calcular bem a consequência dos seus atos. Do contrário, não apagaria seu post e manteria silêncio. Se pretendia, como petistas e pecedobistas de outrora, apenas manter o verniz de arrogante de republicanismo diante da platitude de plateias de “pensamento linear” que enxergam o mundo por suas contradições de classe, o tiro parece ter saído pela culatra. Quanto a isso, nada como boas lições do passado, como a de Trotsky descrita acima, para sermos capazes de seguir adiante, aprendendo e superando os nossos erros.

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