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Terça, 04 Abril 2017 17:09 Última modificação em Quinta, 06 Abril 2017 00:52

Farsa e tragédia na política brasileira

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País: Brasil / Batalha de ideias / Fonte: Diário Liberdade

[Israel Souza[1]

Assegurar a aparência de legitimidade ao golpe dado em Dilma/PT, com o fito de convencer que a ordem constitucional fora mantida e evitar distúrbios sociais. Efetivar, célere e eficazmente, contrarreformas há tempos acalentadas por vários setores da burguesia nacional e internacional. Eis a dupla missão que alçou Temer (PMDB) à presidência do Brasil e que hoje pesa sobre sua cabeça como uma espada de Dâmocles, condicionando sua permanência no cargo.


[1] Cientista Social, Mestre em Desenvolvimento Regional, professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre-Campus Cruzeiro do Sul. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

A primeira condição foi conseguida com relativo êxito. A esta altura, não conta mais. O golpe já completou seu primeiro aniversário. Ainda que bradando em contrário, muitos já aceitaram a irreversibilidade do fato. Entre estes está o próprio PT, que, mesmo denunciando o golpe, faz isso mais com o intuito de desgastar o adversário e alavancar a candidatura de Lula para as eleições de 2018 do que para reconduzir Dilma ao cargo usurpado.    

É o ponto segundo que, no momento, embaraça Temer, ameaçando-lhe seriamente a permanência no cargo de presidente. Não bastasse a impopularidade sua e de suas medidas, agora enfrenta outras, que, segundo consideramos, trazem consigo a possibilidade de que a história se repita entre nós, como farsa e tragédia a um só tempo.

Financiada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), pesquisa recentemente realizada pelo Ibope aponta que Temer tem 90% de rejeição. Segundo a mesma pesquisa, o número daqueles que consideram o governo como ruim ou péssimo subiu de 46% (em dezembro/2016) para 55% (em março/2017). O número daqueles que não confiam em Temer chega a consideráveis 79% (<http://www.correiodobrasil.com.br/pesquisa-temer-rejeicao-eleitores/> Acessado em 02/04/17). 41% dos entrevistados o consideraram pior que Dilma (<https://www.cartacapital.com.br/politica/temer-e-pior-que-dilma-para-41-mostra-pesquisa> Acessado em 02/04/17).

Como era de esperar pela política econômica adotada, a economia vai mal. A taxa de desemprego chegou a 13,5 milhões, atingindo o maior patamar desde 2012 (<http://g1.globo.com/economia/noticia/desemprego-fica-em-132-no-trimestre-terminado-em-fevereiro.ghtml> Acessado em 02/04/17). Para ser honesto, é necessário que se diga que esse é um feito que Temer comparte com governos anteriores ao seu, que adotaram o mesmo receituário neoliberal. Sob Dilma, os números da economia já não eram alentadores. Ela pagou alto preço por isso. Agora é a vez de seu sucessor.

É assim, através do desgaste político, que Temer vai pagando o preço por assumir, de forma desabrida, uma agenda pró-capital, algo mais próximo do ideário-prática do PSDB do que do PMDB[1].

Convém salientar, no entanto, que, desde o início, Temer manifestou que não tinha pretensões eleitorais para 2018. Talvez intuindo, em alguma medida, as dificuldades que haveria de enfrentar. 2 nos de mandato. Era o máximo a que ele poderia aspirar.

Diferentemente do que uns tantos supunham, não havia o que comemorar com isso. Esta opção (ou condição)[2] o deixava livre, sem hesitações diante da opinião pública em geral e dos de baixo em particular. Ou seja, desde o princípio, ele estava livre de algumas amarras que prendiam o governo Dilma, mesmo levando adiante e de modo mais agressivo ainda muitas das contrarreformas que este propunha.

A demonização do governo anterior, responsabilizado por todos os males que acometiam o país, reforçava a margem de liberdade de que dispunha. Entretanto, politicamente, Temer mostrou-se tão inábil quanto Dilma. Embora mais polida, sua oratória é tão - ou mais - desastrosa quanto a de sua antecessora. Vide, dentre outros, seu discurso em homenagem ao dia da mulher.

Numa coisa, porém, ele e seu grupo foram mais espertos que os petistas, que, mesmo sabendo que o grosso de seu apoio vinha das massas, optaram por encampar medidas antipopulares. O resultado foi o que vimos: desagradaram sua base sem agradar seus inimigos, a quem servilmente cortejavam.

De seu lado, Temer sabe muito bem qual é sua base. Sabe muito bem a quem agradar. Ao limitar os gastos sociais e liberar os gastos com juros, a “PEC do teto de gastos” deu-lhe fôlego ante a fração financeira da burguesia. Além do enfraquecimento dos sindicatos, a aprovação de terceirização irrestrita e tudo o que ela implica na perda de direitos por parte do trabalhador deu-lhe gás ante as frações comercial e industrial. A turma do agronegócio não foi esquecida. O governo desferiu, recentemente, forte ataque à FUNAI e, através de Serraglio (PMDB)[3], procura ainda limitar homologações de Terras Indígenas e a criação de áreas de conservação.

Ora, sua impopularidade se deve, largamente, a isso. É que para agradar seus apoiadores, ele tem que necessariamente desagradar às massas, aos trabalhadores. É atacando a estes que ele defende os seus. Não há meio termo. Ele sabe que não chegou à presidência para negociar ou se sensibilizar com demandas populares e trabalhistas. O tempo de que dispõe e a impopularidade e a ilegitimidade de que goza impõem a ele um ritmo ainda mais rápido e uma forma ainda mais truculenta, tanto na condução das matérias quanto no trato com os adversários.

Sua condição é tal que, se estagnar ou recuar em sua missão acima aludida, se desgasta; e, se avançar, também. Entretanto, uma facção do PMDB percebeu que, do jeito que as coisas andam, não apenas Temer há de se desgastar neste turbulento processo, que isso respingaria em todo o partido, criando obstáculos seríssimos para os que guardam pretensões nas eleições de 2018.

Para os que compõem esta facção, os interesses do partido não podem se restringir a tão curto e pouco promissor mandato. Renan Calheiros (PMDB) expressou isso com muita clareza. Sua frase “o PMDB não é o governo”, que circulou largamente pelas redes sociais num vídeo seu, patenteia esta compreensão e manifesta sua insatisfação com o rumo que as coisas estão tomando.

Ao que parece, o grupo político liderado pelo senador alagoano prefere sacrificar Temer, e não o partido. Convém frisar isso: a insatisfação não é contra as medidas de Temer e em favor dos trabalhadores. Trata-se simplesmente de uma manifestação em favor de setores do partido que não se acham contemplados nos atuais planos do governo.

Tal pode criar embaraços ainda maiores para Temer, já que sua permanência no cargo de presidente está diretamente relacionada à sua capacidade de efetivar, eficaz e celeremente, as contrarreformas ansiadas pelas classes dominantes. Isso agora está em xeque. E isso é coisa inaceitável para alguém com o ego e a vaidade de Temer.

Ás dificuldades vindas das ruas, somam-se agora as dificuldade vindas do Congresso, instituição fundamental para a implementação das medidas antipopulares e anti-trabalhistas que pretende levar adiante.

Nesse cenário, não podia ser diferente, pois, quanto mais exitoso for em servir seus apoiadores, mais insuflará as massas contra si e levantará insatisfação dos que, no PMDB, se veem prejudicados por sua condução. Dessa forma, contribui, ele mesmo, diretamente para abreviar o já breve mandato que ganhara por usurpação. Particularmente, não desconsideramos a possibilidade de que, por força das atuais circunstâncias, e não por conta de sua estatura politica abaixo da medíocre, Temer prove, como Dilma, o amargo sabor do que é ser um presidente descartável.

Por força da mesma lógica, a oposição vem crescendo à medida que ele vai se apequenando. De acordo com pesquisa de intenções de voto para eleições presidenciais 2018, realizada pelo Instituto MDA, Lula (PT) lidera nos primeiro e segundo turnos (<http://www.jb.com.br/pais/noticias/2017/02/15/pesquisa-cnt-mostra-lula-liderando-intencoes-de-voto-para-2018-no-1o-e-no-2o-turnos/> Acessado em 02/04/17). A liderança de Lula é sentida, sobretudo, no Nordeste, reduto eleitoral de Renan Calheiros.

Na imprensa, já circulam inúmeras matérias assegurando que Renan não apenas rompeu com Temer, mas que ensaia um alinhamento a Lula. Sem demora, já vários sites e blogs devotados à causa do petismo insinuam possível aliança entre Renan e Lula, sugerindo a seu modo a aliança PT-PMDB como segura saída para a atual crise.

Tal leitura, parece-nos, é no mínimo preocupante. Por um lado, reforça a complicada crença de que a saída é por “cima”, pela serena e pacífica via eleitoral. Assim sendo, as forças oposicionistas encabeçadas pelo PT não resistirão à tentação de alimentar as manifestações de rua que ora vão tomando conta do país, orientando-as segundo seus interesses eleitorais, como tantas e tantas vezes fizeram. Por outro, alimenta o messianismo em torno de Lula, um messias que, como vimos, costuma trazer entre seus seguidores o próprio Judas.

Há que se considerar seriamente esta possibilidade. Até agora, justamente ou injustamente, não conseguiram prender Lula ou torná-lo inelegível. As perversas medidas encampadas por Temer que fizeram as conquistas sociais retrocederem bem mais de um século, sua falta de carisma e habilidade política, no atual cenário, realçam sobremaneira a grandeza de Lula. Inúmeras são as pesquisas que o comprovam.

Talvez os que estão eufóricos com o cisma na base do governo e com a possível aliança Lula/PT-Renan/PMDB não saibam, mas, seguindo este caminho, estarão trabalhando para que a história se repita entre nós, como farsa e tragédia, cabendo à primeira encobrir e alimentar a segunda.


[1] Nas atuais circunstâncias, é bastante cômodo para o PSDB que outro desempenhe esse papel e assuma todo o desgaste político que isso implica. Depois, poderá lançar candidato próprio e fingir que não tem relação nenhuma com as contrarreformas implementadas por outro governo. Por isso, na ação que corre no TSE que pede cassação da chapa Dilma/PT-Temer/PMDB, o PSDB tentou salvar Temer da perda do mandato (https://boainformacao.com.br/2017/04/por-que-o-psdb-quer-salvar-michel-temer-no-tse-99/).

[2] No calor do processo de impedimento de Dilma, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Dizgoo, realizada através do portal IG, apontava que 83% dos entrevistados não queria Temer na presidência.

[3] Ministro da Justiça no governo Temer e um dos mais destacados representantes da bancada ruralista, braço político do agronegócio no Congresso brasileiro. 

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