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Diário Liberdade
Quinta, 19 Outubro 2017 11:23 Última modificação em Terça, 24 Outubro 2017 01:16

Incêndios na Galiza: chaves dumha tragédia única na Europa atlántica

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País: Galiza / Consumo e meio natural / Fonte: Portal da Ciência Galega

[Eva Rodríguez] Cientistas da Galiza analisam os fogos na Galiza e Norte de Portugal, enquanto os incêndios se apagam, pero o problema continua.

De todas as regions da faixa atlántica, só na Galiza e norte de Portugal é que os fogos som um problema muito grave que irá a mais. Nos últimos dias, falou-se em “incendiários”, “terrorismo ambiental” e “mudança climática”; mas essas explicaçons podem resultar simplistas. Biólogos que levam décadas a estudarem os incêndios do norte peninsular identificam as verdadeiras razons desta vaga.

No domingo 15 de outubro, ateava na Galiza um incêndio que nom será fácil de esquecer. Centenas de pessoas saíam à rua para ajudarem nas tarefas de extinçom, as chamas chegavam às casas e atingiam o centro da cidade de Vigo. Levava dias a arder a zona de Ourense, a regiom mais castigada, mas ninguém esperava tal magnitude simultánea.

Os fogos som um velho conhecido na Galiza, nas Astúrias e no norte de Portugal. Na década de noventa, já se falava em milhares de hectares queimados pola “cultura” do lume, herdada do seu uso como uma ferramenta agrícola e pecuária. Mas na Península Ibérica acontece algo atípico: de todas as regions da fachada atlántica européia, as únicas zonas onde os incêndios florestais som um problema perpétuo som o norte de Portugal e Galiza.

Serafín González Prieto, doutor em Biologia, diretor da Sociedade Galega de História Natural e cientista titular do CSIC, leva anos a estudar este fenómeno: “O uso do fogo foi comum na história da humanidade; contodo, noutras zonas deixou de se utilizar e aqui continua. A isto há que somar que, de todas as regions da faixa atlántica europeia, a Galiza e Norte de Portugal tenhem os piores indicadores demográficos. Há um despovoamento muito marcado e um envelhecimento muito forte do meio rural. A utilizaçom histórica do fogo junto a esse craque demográfico e económico tem descontrolado o problema”.

Segundo os relatórios de incêndios dos agentes florestais, cerca de 99% dos que se registam na Galiza tenhem causas humanas e 75% som intencionados. O resto som acidentes ou negligências. Os intencionados som provocados por incendiários, quer dizer, pessoas que os causam deliberadamente, dos quais muito poucos som pirómanos (com um transtorno psiquiátrico muito específico).

“Costuma usar-se o termo ‘pirómano’ de forma confusa, o que conduz a que se sobrevalorize o papel destas pessoas nos fogos. Segundo as estatísticas, na Galiza provocam 6,5% dos incêndios, percentagem que poderia estar mesmo sobre-estimada pola falta de compreensom deste termo mesmo entre os agentes florestais”, explica María Calviño Cancela, bióloga e investigadora da Universidade de Vigo.

A cientista galega acaba de publicar um estudo na revista Forest Ecology and Management sobre a interaçom das causas humanas, naturais e climáticas dos incêndios, e em particular do risco nas zonas próximas a casas e populaçons. Calviño colabora há anos com Julia Touza Montero, da Universidade de York (Reino Unido), com quem publicou vários artigos relacionados com os fogos, associados à vegetaçom e às mudanças nas políticas florestais: “Estamos prestes a publicar um estudo sobre o efeito dissuassório dos arrestos, com resultados positivos”, afirma Touza.

Determinar as motivaçons dos incendiários é muito difícil enquanto nom som descobertos e interrogados. As estatísticas partem sobretodo de suposiçons realizadas polos agentes de incêndios nos seus relatórios.

“Existe umha intencionalidade, sem dúvida, e as bases sociais som complicadas por múltiplos fatores, mas todos eles se relacionam com um envelhecimento da populaçom. A pergunta que fago a mim própria é: se Galiza desde o ano 90 cada vez gasta mais dinheiro em extinçom (deve ser a regiom da Europa com maior gasto, com uns 175 milhons de euros anuais nos dois últimos anos), porque 37 anos depois o problema continua a ser igual de grave?, expom González Prieto.

Os dados das últimas quatro décadas, proporcionados polo ‘Plano de prevençom e defesa contra os incêndios florestais da Galiza’, mostram umha queda da superfície queimada de 25 para 35% por década, apesar de o número de incêndios ter aumentado de 1976 para 2005 (só se produziu umha queda na última década). Isto sugere que as medidas de extinçom melhorárom em efetividade, mas o número de incêndios é elevadíssimo, com uma média anual de 0,13 fogos por km2, só ultrapassado por Portugal, segundo os últimos dados da Comissom Europeia.

“Imaginemos que em lugar de gastar o dinheiro em extinçom se investisse em prevençom e no desenvolvimento sustentável das zonas que tradicionalmente se queimam. Em dar um futuro económico, ambiental e demográfico a essas áreas. Cada vez gasta-se mais, mas nom se gasta bem. É umha economia do fogo, que continua a crescer”, indica o investigador do CSIC.

Para Calviño Cancela, estar preparado para algo tam excecional como o vivido nos últimos dias suporia uns custos muito difíceis de assumir para qualquer sociedade. “Nom lidamos com um problema de eficácia na extinçom de incêndios, à qual se dedicam muitos recursos, mas com o número deles que se produzem”.

Da mesma opiniom é Mercedes Casal, diretora do grupo de investigaçom “Ecologia do Lume” na Universidade de Santiago de Compostela (USC), que leva mais de quarenta anos a estudar os incêndios na Galiza: “Há situaçons em que os meios estám ultrapassados, ao se concentrarem muitos incêndios em poucos dias e com fatores meteorológicos desfavoráveis. O que se deve fazer é potencializar as medidas preventivas”.

“Já vivim incêndios florestais perto -acrescenta González Prieto-, assistindo a pequenas queimadas autorizadas, mas quando as condiçons ficam complicadas, se houver umha vaga dessa magnitude, é incontrolável. As pessoas tenhem que descansar, nom podes mandar pessoas esgotadas a porem a vida em risco para apagar um incêndio. Há é que evitar é que haja tantos fogos”.

Duras críticas à gestom do território

Tanto Casal como González Prieto som muito críticos com a gestom do território na Galiza e em grande parte do Estado espanhol. “Misturou-se a edificaçom com o monte -di a cientista da USC-, com o qual aumenta o risco para a populaçom humana, as suas habitaçons e propriedades e, além disso, a técnica de extinçom já nom corresponde a critérios estritamente florestais”.

O drama é maior porque na Galiza e em Portugal nos últimos anos os incêndios ocorrem muito perto de zonas habitadas. A Lei de Incêndios Florestais da Galiza estabelece a normativa para a proteçom nestas zonas. “É necessário cumprir o estabelecido na Lei, e mesmo manter maiores perímetros de proteçom das zonas urbanas ou industriais”, salienta Casal.

González Prieto lamenta: “Se a Galiza se caracteriza por algo, infelizmente, é pola carência de ordenaçom e gestom do território. Isto, unido ao abandono dramático do meio rural, é o caldo de cultura idóneo para esta situaçom”.

Ao todo, falecêrom quatro pessoas nos incêndios da Galiza e 41 em Portugal, mas a tragédia nom acaba quando se apagam as chamas. Os fogos tenhem conseqüências sobre a saúde humana, o ambiente e a erosom dos solos.

“O fumo altera a atmosfera gravemente, produzem-se efeitos ambientais, perdas materiais de habitaçons, de animais. Mais tarde, virám as perdas de solo por chuvas intensas e erosivas que deterioram os ecossistemas florestais, os rios e as rias. Os problemas nom concluem quando se apaga o fogo, pois começam outros”, afirma González Prieto.

“Para o ano, voltaremos a falar disto e seguramente a superfície queimada seja maior e haverá mais mortos”, sublinha o investigador do CSIC.

Eucaliptos, pinheiros e clima: combinaçom fatídica

A proliferaçom de plantaçons florestais de espécies muito inflamáveis, como pinheiros e eucaliptos, sem dúvida favorece a rápida expansom dos incêndios, sobretodo quando se encontram semiabandonadas e acumulam muita quantidade de biomassa.

“Um problema importante é que nom se dam os incentivos adequados para que um proprietário evite o risco que supom utilizar espécies com alto risco. O dono do prédio recebe os lucros derivados da alta produtividade destas árvores, mas nom assume o enorme custo que causam os incêndios”, explica Calviño Cancela.

Em diversos estudos do seu grupo comprovárom como as florestas caducifólios nativos típicos desta zona, dominados por carvalhos, tenhem um risco de incêndio muito menor que estas plantaçons, constituindo umha defesa natural e barata face aos incêndios. “Voltam a cometer os mesmos erros: primar as plantaçons de espécies produtivas e muito combustíveis, nom intercalar áreas de devessas nem florestas refúgios de biodiversidade, nom proteger estradas nem casas da proximidade do fogo futuro”, recrimina Casal.

No que di respeito ao clima, as condiçons de muito baixa humidade do ar, altas temperaturas e ventos muito fortes, unidas a umha vegetaçom muito seca depois de meses praticamente sem chuvas, favorecêrom umha rápida expansom.

“O esperável, com a evoluçom atual, é que as condiçons climatéricas irám para pior. Quer dizer, vamos enfrentar etapas mais longas de incêndios florestais e em piores condiçons, com temperaturas mais altas e secas mais intensas”, declara José María Fernández Alonso, investigador do Centro de Investigaçom Florestal Lourizám da Junta da Galiza. O cientista acabou de publicar um artigo no European Journal of Forest Research que analisa a interaçom de fatores como o vento para localizar as zonas mais sensíveis à propagaçom de fogos na Galiza.

Fernández Alonso também nom vê que a soluçom seja aumentar as dotaçons, e si reorientá-las. “Tanto na sua formaçom como possivelmente na sua flexibilidade temporária e apoiar-se mais, no possível, no conhecimento científico, porque, se formos enfrentar novos palcos de mudança climática, a acumulaçom de meios nom será a resposta”.

“Com todos estes pontos em contexto -salienta González Prieto- fica claro que se houver umha vaga de incêndios é muito difícil poder detê-los, a nom ser que tenhamos um carro de bombeiros por cada localidade. Há que ajudar a conservar os parques naturais que se queimárom, as zonas da Rede Natura 2000 que ardêrom e as espécies ameaçadas que morrêrom calcinadas. Necessitamos mudar a focagem totalmente”.

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