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Diário Liberdade
Quinta, 26 Julho 2018 10:07 Última modificação em Segunda, 30 Julho 2018 17:06

França à moda Macron: o caso Benalla

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País: França / Repressom e direitos humanos / Fonte: Jacobin Magazine

[Cole Stangler, Tradução da Vila Vudu] Um dos principais auxiliares de Emmanuel Macron foi flagrado fantasiado de policial da Polícia Antitumultos espancando manifestantes nas ruas de Paris. É escândalo que simboliza uma presidência.

Poucas horas depois da marcha anual do 1º de maio esse ano em Paris, centenas de estudantes que protestavam reuniram-se numa pequena praça no Quartier Latin, com planos para se manifestarem contra reformas na educação. Mas foram imediatamente atacados pela Polícia, com violência.

Num dos incidentes — filmado por um ativista do partido France Insoumise da esquerda francesa, e fartamente noticiado nos dias seguintes – um grupo de policiais da Polícia Antitumultos jogou um manifestante pacífico e desarmado ao chão, e puseram-se a espancá-lo repetidas vezes, com os cassetetes.

Sem novidades, não fosse o fato de que nem todos os espancadores eram policiais.

Semana passada, Le Monde noticiou que um dos homens que espancaram o manifestante é, na verdade, um dos principais assessores de segurança, do primeiro escalão, assessor pessoal do presidente Emmanuel Macron, mascarado com um capacete da Polícia Antitumultos e uma jaqueta do uniforme policial. A notícia rapidamente se tornou o mais espantoso escândalo da presidência da França até hoje, num governo que mal chega ao primeiro ano de mandato. Somado aos detalhes que não param de vir à tona, o caso parece mais estranho e mais danoso para a imagem da presidência, a cada minuto.

Encobrir o caso 

Pouco depois de os funcionários do Palácio do Eliseu descobrirem o caso, o espancador e guarda da segurança de Macron, de 26 anos, Alexandre Benalla, foi suspenso. Oficializada dia 4 de maio, a pena resumiu-se a mera suspensão de 15 dias. Muito impressionantemente, os funcionários da presidência não notificaram os procuradores de Justiça, como a lei exige de todos os funcionários públicos que tenham conhecimento de crime praticado por colega.

Cumprida a rápida pena de suspensão, Benalla foi autorizado a retomar seus serviços na equipe de segurança do presidente. Dia 1º de julho, estava ao lado de Macron numa cerimônia no Pantheon. E novamente estava ao lado do presidente dia 14 de julho, nas comemorações do Dia da Bastilha. E uniu-se à equipe de futebol da França no desfile da vitória quando a equipe retornou da Rússia, pela avenida dos Champs-Elysées semana passada, dois dias antes de o escândalo eclodir. Detalhe também estranho, no início do mês Benalla ganhou um apartamento luxuoso no 7ème arrondisement de Paris, destinado, segundo o Guardian a receber funcionários do Eliseu. Alguma espécie de castigo, sabe-se lá.

Desde que as primeiras notícias começaram a aparecer, a Polícia francesa anunciou que havia aberto inquérito sobre Benalla. Foi detido para interrogatório e agora enfrenta possíveis acusações de "violência cometida por funcionário público" e de se fazer passar por policial.

Mas o caso teve outra reviravolta. Pouco depois de Le Monde ter procurado Benalla semana passada para confirmar que era realmente o homem filmado espancando manifestantes no Quartier Latin dia 1º de maio, o segurança do presidente teria contatado altos funcionários da Polícia de Paris e requisitado as fitas do incidente. Três policiais entregaram fitas – foram suspensos e detidos para interrogatório. Um deles é um dos comandantes  encarregados dos contatos entre a Polícia e o Palácio do Eliseu.

Inicialmente, a presidência tentou defender o modo como estava administrando o caso, enfatizando que a punição de 15 dias de suspensão aplicada a Benalla seria suficiente. Provocou fúria e risos entre os franceses. Rapidamente ficou evidente para os franceses indignados, que nada ali fazia sentido, e o Palácio não poderia sustentar essa posição. Na 6ª-feira, funcionários afinal anunciaram a demissão de Benalla.

Ao mesmo tempo, membros da oposição na Assembleia Nacional iniciaram inquérito parlamentar, o que forçou o governo a adiar a agenda legislativa por várias semanas. Na 2ª-feira, convocaram o ministro do Interior, Gérard Collomb, para depor perante uma comissão de investigação. Collomb — principal defensor da lei e da ordem, defensor do modo duríssimo como o governo trata refugiados e pessoas que solicitam asilo na França — soube dos malfeitos de Benalla logo no dia seguinte, 2 de maio. Por que não tomou qualquer providência? Em audiência, o ministro de Macron alegou ignorância dos fatos, disse que não sabia da participação de Benalla naquele momento e que não era sua responsabilidade tomar qualquer medida.

Enquanto as investigações avançam, dentro e fora do Parlamento duas perguntas cruciais continuam à procura de resposta: Por que Benalla, muito jovem, sem experiência policial, recebeu do Eliseu tão ampla autoridade? Segundo, por que os funcionários do palácio e da presidência não o enquadraram e disciplinaram desde o primeiro dia em que foi visto por lá?

Parábola de um governo 

O escândalo capturou a opinião pública. De um lado, porque é história bizarra e intrigante, por ela mesma. Imaginem o impacto de matérias em todos os jornais, sobre um serviçal da Casa Branca ou da Rua Downing, filmado em plena rua espancando manifestantes – aparentemente por prazer –, com legiões de outros serviçais dedicados a esconder tudo e garantir 'cobertura' ao criminoso. A repressão policial na França contra a esquerda é evento regular, que já nem recebe grande cobertura nos jornais. O ingrediente presidencial tornou impossível para a mídia, mesmo para os veículos mais 'chapa branca', ignorar completamente os fatos.

Mas o affair parece ecoar na imaginação do grande público, também, pelo muito que deixa ver de algumas duras verdades sobre Macron e sua filosofia de governo. Ilustra de modo macabro o desdém do presidente por manifestações e manifestantes, especialmente quando tenham a ver com a esquerda da população. Deixa ver o real significado dessa presidência "jupiteriana" de Macron, que desdenha completamente quaisquer controles democráticos e checks and balances. E ainda faz ver a arrogância profunda e o senso de infalibilidade que já define claramente a gestão desse banqueiro de banco de investimentos.

Muito eloquentemente, Macron sequer se deu o trabalho de comentar a história. Com os deputados da oposição exigindo explicações do governo na Assembleia Nacional, o primeiro-ministro Edouard Philippe passou a sexta-feira seguindo as bicicletas que disputavam o Tour de France no sudoeste do país. Na presença de repórteres, comentou rapidamente as investigações em andamento; e criticou os opositores por dar uso político ao 'acontecimento'. Seja como for, o primeiro-ministro não poderá escapar de comparecer diante da Assembleia para declarações, e não há dúvidas de que enfrentará fogo cerrado de perguntas sobre Benalla.

O presidente, por sua vez, ainda nem reconheceu a gravidade do escândalo, contando, parece, com o tempo, para diluir os comentários. Partindo de alguém que tanto confia na 'comunicação' – conhecido pelo prazer com que tuíta  em vários idiomas e pela atenção que dedica a cada uma de suas aparições públicas, com destaque para sua visita "privada" ao Taj Mahal com a Primeira Dama Brigitte —, não há dúvidas de que o silêncio é deliberado. E não foi bem recebido pelo público. É comportamento que se esperaria de líderes autoritários, mas não de uma democracia europeia parlamentar civilizada.

Macron tem criticado com frequência o que ele vê como obstáculos na sua pressa para modernizar a França: instituições retrógradas, como sindicatos e fundações associadas, como diz ele, à velha ordem cada vez mais irrelevante. Pelo que já se viu do caso Benalla, a frustração do presidente estende-se também ao respeito a leis vigentes que o atrapalhem. Como outros analistas lembraram, o Eliseu mantém força especial de segurança, o Grupo de Segurança do Presidente da República, semelhante ao Serviço Secreto dos EUA. Benalla jamais fez parte desse grupo de elite, e trabalha para o presidente num cargo que recebe a denominação vaga de "assistente do chefe de gabinete". Nessa condição escapou das consequências de ações que em qualquer circunstância seriam inaceitáveis, porque goza, em outras palavras, de status especial, como membro leal do círculo de relações mais íntimas do presidente.

Desnecessário dizer que essa modalidade de tratamento especial é, claro, profundamente antidemocrática. Frequentemente descartadas como pura retórica, as críticas a esse 'modo de governar' foram o centro do que disse a oposição contra Macron, ao longo do ano passado. 

O presidente – a oposição não se cansa de repetir – quer tudo aprovado 'pela via mais rápida', reformas essenciais para a vida do país, tratadas como desimportantes. É o caso, por exemplo, do projeto de Macron para reduzir o número de deputados na Assembleia Nacional. Não há dúvidas de que, dada a nenhuma reação de Macron ao caso Benalla, aquelas críticas da oposição passarão, sim, a ser ouvidas mais atentamente em toda a França.

À sombra de desenvolvimentos a cada dia mais sinistros nos EUA e nos vizinhos europeus, a democracia francesa parece ver crescer também uma perigosa tempestade 'interna'. Agora, ainda mais que antes, é preciso perguntar: em que momento a busca de eficiência e de aprovação 'rápida' para reformas com vistas à 'modernização' muda, de busca legítima de eficiência legítima, para busca de satisfação de tendências autoritárias de algum capo & banqueiro? 

Se a fúria para esmagar o poder dos sindicatos não fosse prova suficiente de que há algo de muito sinistro no projeto político de Emmanuel Macron, o affair Benalla que sirva, agora, como sinal de alerta.

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