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Diário Liberdade
Domingo, 23 Setembro 2018 18:20 Última modificação em Quarta, 03 Outubro 2018 12:42

Ocidente contra o resto, ou ocidente contra ele mesmo?

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País: União Europeia / Antifascismo e anti-racismo / Fonte: Consortium News

[Pepe Escobar, de Paris, Tradução de Vila Vudu] Qual a história mais abrangente? Ocidente contra o resto, ou ocidente contra ele mesmo?

O Quarteto Iliberal [ing. Illiberal] – Xi, Putin, Rouhani e Erdogan – está na linha de tiro das mais arrogantes homilias sobre “valores ocidentais”.

iliberalismo [ing. Illiberalism] é arrogantemente e provocativamente desqualificado no ocidente, repetidamente, como uma Invasão dos Tártaros 2.0. Mas mais perto de casa, o mesmo iliberalismo é responsável pela Guerra civil social nos EUA, com a América de Trump já esquecida há muito, do que tratava o Iluminismo Europeu.

A visão ocidental é um turbilhão de pseudofilosofia pendurada em Hegel, Toynbee, Spengler e em obscuras referências bíblicas, que não para de alertar para um ataque de asiáticos contra a mission civilisatrice “iluminada” do ocidente.

O turbilhão engole qualquer pensamento crítico que avalie o Confucionismo de Xi, o Eurasianismo de Putin, arealpolitik de Rouhani e o Islã Xiita “não ocidentoxicado” [ing. “non-Westoxified”], além dos anseios de Erdogan que arde por liderar a Fraternidade Muçulmana global.

Em vez de pensamento, o ocidente nos dá as mais ridículas “análises” de como a OTAN deveria ser elogiada por ter impedido que a Líbia se tornasse uma Síria – o que, sim, a OTAN realmente fez.

Ao mesmo tempo uma regra de ouro protege uma potência asiática: ninguém jamais critique a Casa de Saud, que, por falar dela, é manifestação consumada de Iliberalismo. Podem passar pela catraca sem pagar, porque, afinal, são “os nossos felasdaputa”.

O surto de xingar iliberais consegue, isso sim, enquadrar, limitar, o que deveria ser um debate crucialmente decisivo sobre um assustado Ocidente contra o resto; e tudo reduz à questão mais urgente de o Ocidente em luta contra ele mesmo. Essa batalha intraocidente já aparece manifesta sob várias formas: Viktor Orban na Hungria, coalizões eurocéticas na Áustria e na Itália, o avanço da ultra direitista “Alternativa para a Alemanha [al. Alternative für Deutschland (AfD)] e os Democratas Suecos. Resumindo: A Vingança dos Deploráveis Europeus.

O ‘Paraíso’ reocupado de Bannon

Nessa frigideira europeia salta Steve Bannon, o estrategista máster que elegeu Donald Trump e, agora, assola o continente como furacão. Está bem próximo de lançar seu próprio think tankThe Movement, em Bruxelas, para fomentar nada menos que uma revolução populista [ing. populist[2]] de direita.

O que vem aí é Bannon apavorando variadas terras na União Europeia, parafraseando o Satã de Milton, em Paraíso Perdido: melhor rei no Inferno, que servo no Paraíso.

A crescente influência de Bannon na Europa chegou ao Festival de Cinema de Veneza,[3] onde o diretor Errol [Sob a Névoa da Guerra (NTs)] Morris apresentou (5/9/2018) um documentário sobre Bannon, American Dharma, baseado em 18 horas de entrevistas com o Svengali em pessoa de Trump.

Bannon conversou com a mídia há duas semanas em Roma, com apoio de Mischaël Modrikamen, presidente do Partido Popular na Bélgica, cotado para liderar The Movement. Em Roma, Bannon voltou a encontrar Matteo Salvini, ministro do Interior da Itália – de quem foi conselheiro “durante horas” e a quem aconselhou a romper uma coalizão política com a estrela cadente de Silvio “Bunga Bunga” Berlusconi. Mas agora Salvini e Berlusconi já voltaram, juntos, ao negócio de vender cavalos.

Bannon identificou corretamente a Itália como vértice da pós-política, na linha de frente da Cruzada para derrotar a União Europeia. A virada pode ser a eleição, em maio de 2019, para o Parlamento Europeu, na qual Bannon antecipa vitória garantida dos movimentos populistas e nacionalistas de direita.

Nessa batalha de vida ou morte entre o populismo e o Partido de Davos, Bannon quer ser The Undertaker [lit. “agente funerário”] contra um George Soros frouxo.

Bannon está até seduzindo cínicos na França, ao apontar o autodenominado “Júpiter” Emmanuel Macron – já em queda livre nas pesquisas de opinião pública –, como inimigo público n. 1. Semanário norte-americano obscuro [orig. “A faded U.S. newsweekly[4]] declarou Macron o “Nosso Último Homem” entre “valores europeus” e… o fascismo. Bannon é mais realista: Macron é “banqueiro Rothschild incapaz de fazer dinheiro – definição de loser [lit. fracassado] (…) Ele se vê como um neo-Napoleão.”

Bannon está encontrando eco por toda a Europa, porque identificou o processo pelo qual o ocidente é o caixeiro viajante que vende “socialismo para os muito ricos e os muito pobres”, e [vende] “uma forma brutal de capitalismo darwiniano para o resto do mundo.” 

Não poucos europeus compreendem facilmente esse conceito simplista de populismo de direita, segundo o qual os cidadãos teriam a obrigação de arranjar emprego, proeza impossível quando a imigração ilegal é usada como pretexto para deprimir os salários.

A estratégia política que subjaz a The Movement é unir todos os vetores europeus nacionalistas – total confusão hoje fragmentada em que há soberanistas, neoliberais, nacionalistas radicalizados, racistas, conservadores e extremistas, todos à caça de respeitabilidade.

Diga-se a favor dele, que Bannon compreendeu visceralmente o quanto a União Europeia é vasto espaço de “des-soberania” [ing. “un-sovereignty”] de fato, tomado como refém pela austeridade econômica. A burocracia da União Europeia pode facilmente ser exposta como Central do Iliberalismo: nunca foi democracia.

Não se pode discordar: Bannon realmente introjetou em Salvini a necessidade de continuar a martelar sem parar o quanto e como a liderança da União Europeia é antidemocrática. Mas há um grande problema: The Movement e toda a galáxia do populismo de direita centram-se quase exclusivamente no papel dos migrantes ilegais –, o que leva os cínicos não ideológicos a suspeitar de que tudo aí não passe de xenofobia de Estado, fantasiada de rebelião das massas.

Entrementes, na Caverna de Platão…

A belga Chantal Mouffe, professora de Teoria Política na University of Westminster e queridinha do café society multicultural, pode ser facilmente apresentada como a anti-Bannon. Identifica uma “crise da hegemonia neoliberal” e é capaz de demonstrar que a pós-política é resultado de Direita e Esquerda estarem afundando juntas num pântano conceitual.

O impasse político de todo o ocidente, mais uma vez, giraria em torno de TINA: There Is No Alternative [Não há Alternativa], nesse caso, à globalização neoliberal. A Deusa Mercado é Atenas e Vênus no mesmo pacote. A questão é como organizar reação politicamente forte contra a absoluta marketização da vida.

Mouffe pelo menos compreende que não basta viver de demonizar o populismo de direita, como “irracional” – ao mesmo tempo em que se demonizam os “deploráveis”. Mas deposita excessiva esperança na estratégia política fluida do Podemos na Espanha, de La France Insoumise na França, ou de Bernie Sanders nos EUA. 

Pode-se dizer que o único político progressista em toda a Europa, que tem projeto e visão claros para o governo é Jeremy Corbyn – hoje forçado a consumir toda a energia que lhe resta, no combate contra uma suja campanha de demonização.[5]

Sanders acaba de lançar um manifesto em que prega que se crie uma Internacional Progressista – capaz de traçar um New Deal 2.0 e um novo Bretton Woods.

Por seu lado, Yanis Varoufakis, ex-ministro grego das Finanças e co-fundador do movimento democrático DiEM25, lamenta o triunfo de uma Internacional Nacionalista – e destaca, pelo menos, que “brotou da fossa do capitalismo financeirizado”. 

Mas nem por isso deixa de recorrer aos mesmos velhos atores, quando se trata de promover uma Internacional Progressista: Sanders, Corbyn e seu próprio DiEM25.

A solução conceitual que Mouffe oferece é apostar no que descreve como popularismo de Esquerda [ing. Left populism[6]] – qualquer coisa que vá de “socialismo democrático” até “democracia participativa”, dependendo do “diferente contexto nacional”.

Implica que o “populismo” incansavelmente demonizado pelas elites neoliberais [mas parcialmente ‘salvo’ por Lênin[7](NTs)] estaria longe de ser alguma perversão tóxica da democracia e poderia ser autenticamente progressista.

Slavoj Zizek, in The Courage of Hopelessness, [port. A coragem do Desespero] não poderia concordar mais, ao destacar que quando as massas “não convencidas pelo discurso capitalista ‘racional’” preferem uma “posição popular antielitista”, isso nada tem a ver com primitivismo de classe inferior.[8] 

De fato, Noam Chomsky, já nos idos de 1991, em Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies, [e até, com mínimas variações, ao vivo, no programa Roda Viva, em 1996 (NTs)] mostrou brilhantemente como realmente funciona a “democracia” ocidental: “Só depois de derrotada a ameaça da participação popular é que as formas democráticas podem ser contempladas em segurança”. 

“Então, o que quer a Europa?”, pergunta Zizek. É dele o mérito de ter identificado a “principal contradição” do que chama de “A Nova Ordem Mundial” (na verdade, ainda padecemos, em fogo baixo, na Velha Desordem Mundial). Zizek resume a contradição em poucas palavras: “a impossibilidade estrutural de encontrar alguma [qualquer uma] ordem política global que corresponda à economia capitalista global.” 

E por isso o espectro da “mudança” é tão limitado, e por hora completamente capturado pelo populismo de Direita. Nada pode acontecer de substancial sem real transformação socioeconômica, um novo sistema mundo que substitua o capitalismo de cassino.

Tomando por realidade a dança das sombras da caverna – russofóbica – platônica, enquanto pranteiam “o fim do Atlanticismo,” os guardiões dos “valores ocidentais” preferem adotar tática diversionista.

Continuam a invocar o medo do “iliberal” Putin e de seu “comportamento maligno” que estariam minando a União Europeia, combinados à “armadilha da dívida” que o neocolonialismo inflige a consumidores tolos, via aqueles pérfidos chineses. 

Essas elites de modo algum podem compreender que enfrentam suplício que elas próprias criaram, cortesia do popularismo de livre mercado – o ápice do Iliberalismo Ocidental.

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