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Diário Liberdade
Sexta, 09 Setembro 2016 10:52 Última modificação em Segunda, 12 Setembro 2016 12:55

40 anos após a morte de Mao Zedong: reexaminando seu legado

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País: China / Resenhas / Fonte: Vermelho

Por Gaio Doria*

No dia 9 de setembro de 1976, a China amanheceu triste. No auge dos seus 82 anos falecia Mao Zedong, o maior líder da Revolução Chinesa, responsável por colocar o Partido Comunista da China no poder e fundar a República Popular da China em 1949.

A notícia de sua morte apenas tornou-se pública por volta das quatro da tarde horário de Beijing, devido a uma decisão da liderança do Partido em atrasa-la por 16 horas. Haviam muitas incertezas e decisões a serem tomadas.

A notificação tardia não impediu milhares de chineses de se dirigirem a Praça da Paz Celestial para prestarem suas homenagens. Música funeral, bandeiras a meio mastro e choro formavam a paisagem daquele final de dia. Enquanto os trabalhadores voltavam para a casa depois de um dia de labuta, os altos falantes espalhados pelas ruas da capital tocavam a Internacional. Seguiram-se oito dias de cerimônias memoriais programadas. Até o dia 18 de setembro daquele ano, a nação inteira se engajou nas homenagens.

Nos dois anos que se seguiram, as disputas pela sucessão de Mao culminaram na vitória de Deng Xiaoping. Este, ao consolidar seu poder, deu início ao processo de Reforma e Abertura, promovendo um desenvolvimento sem paralelo na História das forças produtivas chinesas. Em apenas quatro décadas, o país asiático galgou a posição de segunda maior economia do mundo. 

O sucesso chinês causou estranhamento e gerou inquietações a respeito de como explicar a rápida ascensão do país comunista, especialmente a relação entre os legados de Deng Xiaoping e Mao Zedong. 

Nos dias atuais, muitos separam a história da República Popular da China (RPC) em antes e depois de Mao. A narrativa padrão –elaborada pela academia ocidental – assume que os primeiros 30 anos da República Popular da China sob a liderança de Mao Zedong foram marcados por um regime totalitário, altamente ideologizado tocado por um partido-estado, liderado por um psicopata insensível a perda de vidas humanas. Após sua morte, o Partido, sob a liderança de Deng Xiaoping, no desespero de se preservar no poder, supostamente adotou uma série de medidas fundamentalmente opostas ao seu espectro ideológico, restaurando o capitalismo. 

Esta versão permeada pelos chavões da guerra fria - fruto de uma deliberada campanha de propaganda anticomunista orquestrada pelo “mundo livre” para desacreditar o comunismo enquanto caminho possível - é incapaz de explicar as complexidades do processo de fundação da República Popular da China e por consequência, do legado de Mao Zedong.

Ao contrário do que se acredita, os legados de Deng Xiaoping e Mao Zedong não são auto-excludentes. As reformas implementadas por Deng apenas lograram estrondoso êxito devido as fundações construídas por Mao nas três primeiras décadas da República. Dentre estas, destacamos a centralização do poder político na China (uma questão histórica) e a mobilização dos poucos recursos existentes na época que construíram a infraestrutura industrial básica e formaram o capital humano necessário para lançar os alicerces que edificaram o poderoso estado que surgiu após 1978.

Não há dúvidas de que Mao cometeu erros, mas para compreende-los precisamos também estudar seus acertos. A máxima elaborada pelo Partido logo após a sua morte, onde Mao Zedong estaria 70% certo 30% errado traduz bem o legado deste, ainda que os erros incluídos nestes 30% estejam abertos ao debate. 

Não podemos, no entanto, cair na tentação de compreender episódios como o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural como processos essencialmente negativos. Houveram erros e acertos, afinal toda história tem suas rupturas e continuidades. Cabe aos historiadores, no devido tempo, desnudar os detalhes de cada episódio.

Deve-se reconhecer também a existência de vários Maos, retratados por diversas pessoas que tiveram a chance de conviver com ele ou por biógrafos que se debruçaram a escrever sobre sua vida. Suas várias facetas, no entanto, não colidem necessariamente com seu legado histórico. O povo chinês atingiu importantes vitórias sob sua liderança. Ao partir deste mundo, Mao deixou uma China unificada com status de potência nuclear, com um assento permanente no conselho de segurança da ONU, com uma política externa independente e com as forças produtivas prontas para deslanchar.

Além disso, deixou um forte legado intelectual. Seu pensamento não apenas levou o Partido Comunista da China ao poder, mas também impulsionou diversas lutas anti-imperialistas e anticoloniais nos rincões do mundo. 

Hoje completam 40 anos da morte do dirigente comunista Mao Zedong, um homem que dedicou sua vida ao seu país. Ainda que cercado em polêmicas, seu legado continua presente na China contemporânea, por detrás das cidades pujantes, dos arranha céus, dos trens balas e do sucesso econômico chinês. 

Sua popularidade nunca foi baixa. De acordo com uma pesquisa feita na internet pela empresa Sina em 2014, 82,19% dos participantes enxergam Mao positivamente, para muitos ele foi responsável por dar um ponto final ao milenar sistema imperial e colocar o povo chinês de pé, conforme o próprio anunciou na cerimônia de fundação da República Popular da China.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Muitos brasileiros, no entanto, por estarem presos a um anticomunismo débil, ainda desconhecem a importância histórica de Mao Zedong. No início dos anos 70, o Brasil era o país do futuro. No início dos anos 70, a China era um país “atrasado e comunista”. Hoje, o Brasil ficou para trás e a China foi a frente e continua comunista. O Brasil tem o seu próprio caminho para trilhar, não devemos nos engajar na luta dos países desenvolvidos que se utilizam dos mais diversos métodos para deslegitimar o sistema socialista na China. Tampouco devemos mecanicamente copiar os chineses. 

Para nós, a principal lição do legado de Mao Zedong é buscar um caminho próprio, respeitando nossas condições nacionais, sempre servindo aos interesses do povo, das massas trabalhadoras. Não há nada mais hercúleo do que organizar um país.

* Historiador pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em economia pela Universidade do Povo da China e atualmente é doutorando na mesma universidade.

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