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Diário Liberdade
Domingo, 22 Mai 2016 03:14 Última modificação em Quarta, 25 Mai 2016 13:02

Literatura preciosa: 20 Escritores lusófonos impressos em papel-moeda

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Diego Bernal

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[Diego Bernal] Nota ou cédula é o nome que designa em galego-português o papel representativo de moeda legal.


Para além de reis, rainhas, políticos ou militares, ao longo da história foram representados em papel-moeda cientistas, inventores, médicos ou artistas.

notto

Também a literatura teve o seu protagonismo. Shakespeare, Molière, Goethe, Cervantes, Victor Hugo, Gabriela Mistral, Voltaire, Gabriel García Márquez, Dickens, James Joyce, Jane Austin, Saint-Exupery ou Yeats, são alguns dos principais homens e mulheres de letras presentes nas notas da Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Chile, Colômbia e Irlanda.

Nota Saint exupery

Mas que escritores da lusofonia foram retratados nas cédulas dos seus respetivos países?

1. Afonso X o Sábio (1221-1284)

Nota Afonso X sabio

Não é por acaso que a nota que reproduz o escritor mais antigo dos que escreveram em português seja uma cédula espanhola de 5 pesetas de 1954. A Galiza, berço da língua e cultura portuguesas, é hoje uma das nacionalidades históricas que conformam o Estado espanhol. Afonso X foi educado entre a fortaleza de Maceda e a linda vila de Alhariz, ambas na Galiza, onde aprendeu galego-português, a língua de cultura mais prestigiosa da Península Ibérica na altura. Foi um dos principais mecenas literários da Europa, daí a alcunha de Sábio. Em parceria com trovadores da sua corte, compôs 44 cantigas de amor e de escárnio e maldizer e o cancioneiro da lírica religiosa, as Cantigas de Santa Maria, joia da literatura medieval galego-portuguesa. Foi homenageado com o Dia das Letras Galegas de 1980.

2. Dom Dinis (1261-1325)

 Nota Dom Dinis

Conhecido como o Rei-poeta, foi o sexto rei luso. Dom Dinis instituiu a língua galega como a língua oficial do reino, fundou a primeira universidade de Portugal, hoje sediada em Coimbra, e foi um famoso trovador autor de cantigas de amigo, amor e satíricas. Culto e curioso, promoveu a tradução de muitas obras para galego-português, entre as quais se contam os tratados de seu avô, Afonso X o Sábio. A bela nota portuguesa de 1000 escudos que lembra a sua figura é rara e preciosa. Datada em 1965, foi retirada de circulação dois anos depois devido a um assalto a uma agência bancária em Figueira da Foz.

3. Luís Vaz de Camões (1524-1580)

 Nota Camoes

Ícone da literatura portuguesa, é considerado um dos maiores escritores em galego-português e um dos melhores poetas da literatura universal. Camões fazia parte de uma família da pequena nobreza cujas origens estavam na freguesia de Camos, concelho de Nigrám, no sul da Galiza. Aliás, a família estava emparentada com o trovador galego Vasco Pires de Camões. Autor dos Lusíadas, o poema épico mais importante da literatura portuguesa e uma das obras referenciais da lusofonia, também escreveu magistrais sonetos de amor. O mais solene prémio literário em português leva o seu nome e foi instituído a partir de 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil. Esta cédula colonial angolana faz parte de uma série de 20, 50, 100, 500 e 1000 escudos com a estampagem do poeta Luís Vaz de Camões. Há também uma nota portuguesa de 1000 escudos datada em 1920 dedicada ao insigne aedo lusitano.

4. Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) 

Nota du Bocage

Uma gravura de Bocage foi o motivo escolhido para os 100 escudos da década de 80.  Barbosa du Bocage foi o maior representante em Portugal do movimento literário conhecido como arcadismo ou neoclassicismo. O nome arcadismo é uma referência à Arcádia, região campestre do Peloponeso, na Grécia antiga, tida como ideal de inspiração poética. A principal característica desta escola foi a exaltação da natureza.

5. Almeida Garrett (1799-1854)

Nota Almeida Garrett 

Principal representante do movimento romântico em Portugal, foi o responsável pela renovação do teatro luso do século XIX com textos dramáticos como Frei Luís de Sousa e da narrativa com Viagens da Minha Terra, ponto de partida da moderna prosa literária portuguesa. Pouco depois de ser criada a que acabou por ser a última moeda portuguesa antes da chegada do euro, o escudo, foi posta em circulação uma nota de 20 escudos com a efígie de Almeida Garrett. As primeiras emissões são de 1916 enquanto o escudo tinha nascido oficialmente em 1911.   

6. Alexandre Herculano (1810-1877)

Nota Alexandre Herculano

Foi Alexandre Herculano a personalidade eleita para engalanar a primeira nota emitida em escudos. De 1913, resultou da alteração da chapa já gravada destinada à nota de 5 000 reis, que passou assim a apresentar o valor facial de 5 escudos/ouro chapa I. Herculano é outro grande nome do romantismo português, pai do romance histórico. Nas seis obras de narrativa histórica que publicou combina a erudição do historiador com a criatividade do literato.  Quanto à Galiza e Portugal, o historiador retrata muito bem a identidade comum dos dois povos, numa carta que em 25 de Julho de 1874 enviou ao seu amigo, o historiador galego Benito Vicetto: “A Galiza é um país altamente simpático a Portugal. A Galiza está, a meu ver, em mais íntima conexão de raça, de tradições, de costumes e até de configuração do solo e em produções, com Portugal (sobretudo com as nossas províncias do Norte) do que com Castela. A Galiza deu-nos população e língua. Entre o Minho e Mondego talvez não haja uma antiga aldeia cujo nome não seja a reprodução do nome de um povo de uma povoação galega, um apelido de família nobre que não traga a sua remota origem dessa região. Cantigas galegas passam ainda hoje por obras de antiquíssimos trovadores portugueses, o que, no entanto, não é impossível. O português não é senão o dialecto galego, civilizado e aperfeiçoado”.

7. Camilo Castelo Branco (1825-1890)

 Nota Camilo Castelo Branco

A este conhecido romancista do século XIX foram-lhe dedicados os 100 escudos de 1965 que só seriam retirados de circulação em 1987. Castelo Branco tem a honra de ser o primeiro escritor profissional da literatura portuguesa pois conseguiu viver dos seus escritos literários. Para quem gostar de cinema, um dos melhores filmes portugueses, Mistérios de Lisboa, do realizador chileno-francês Raúl Ruiz, está baseado no romance homónimo do prolífero literato lisboeta.

8. José Duarte Ramalho Ortigão (1835-1915)

 50escudos1944

Os 50 escudos da década de 40 do século passado têm o busto do portuense Ramalho Ortigão. Professor de Eça de Queiroz, com quem escreveria em 1870 O Mistério da Estrada de Sintra, primeiro romance policial da literatura portuguesa, a sua vida esteve marcada pelo famoso duelo de espadas que o enfrentou ao poeta progressista Antero de Quental e no qual ficou ferido. Foi um dos principais membros da conhecida geração de 70.

9. Rosália de Castro (1837-1885)

Nota Rosalia de Castro

É a única mulher no mundo que se tornou símbolo de uma literatura. É considerada o alicerce da literatura galega contemporânea e peça chave do ressurgimento político-cultural da Galiza, movimento conhecido com o nome de Ressurdimento. O Governo Galego estabeleceu o dia 17 de maio como o Dia das Letras Galegas por ser a data de edição da primeira obra escrita em galego-português por Rosália, Cantares Galegos. Aliás, as duas grandes cidades portuguesas dedicaram espaços públicos à grande poetisa galega. No Porto, na praça da Galiza, foi colocada uma estátua dela feita pelo escultor Júlio César Barata Feyo. Em Lisboa, desde 1949, a Câmara de Lisboa batizou uma rua da freguesia de Alvalade com o nome da egrégia galega. A nota de 500 pesetas de 1979 apresenta na frente o desenho de Rosália de Castro e no verso a sua vivenda de Padrão, hoje casa-museu dedicada à vida e obra desta galega universal.

10. Machado de Assis (1839-1908)

 Cedula Machado de Assis

Uma efígie de Machado de Assis, emblema da literatura brasileira, enfeitam os 1000 cruzados de 1989. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, foi o introdutor do realismo no Brasil. Conhecido como o Bruxo do Cosme Velho, este homem negro, nascido num morro do Rio de Janeiro e de origem muito humilde, conseguiu converter-se no maior escritor da história da literatura brasileira apesar de mal ter estudado. Clássicos como Dom Casmurro ou Memórias póstumas de Brás Cubas refletem a sua extraordinária inteligência e criatividade.

11. Antero de Quental (1842-1891)

Portugal money 5000 Escudos 

Republicano, de esquerda, fundador do Partido Socialista Português, Antero de Quental foi um pensador e vate conhecido particularmente pelos seus sonetos. A sua obra teve grande influência na poesia galega do século XIX, nomeadamente no celanovês Manuel Curros Henriques que traduziu os seus poemas para o castelhano. Os 5000 escudos de 1987 foram ilustrados com a imagem do combativo açoriano, sendo retirados da circulação dez anos depois.

12. Teófilo Braga (1843-1924)

 Nota Teófilo Braga

2º presidente da República Portuguesa, nos anos 80 foi impressa uma nota de 1000 escudos com a sua imagem. A obra de polígrafo de Teófilo Braga abrangeu vastas áreas, da poesia e da ficção à filosofia, à história da cultura e à historiografia crítico-literária, e excede os 360 títulos, não contando com os artigos dispersos pela imprensa da época. Tratou temas tão diversos como o da história universal, do direito, da Universidade de Coimbra, da literatura portuguesa ou da Galiza, pela qual sempre manifestou um grande interesse e solidariedade: “...pelo muito amor que dedico à tradiçom d’este povo, de que Portugal é um fragmento”. Em 1885 escreveu o prefácio ao Cancioneiro Popular Galego de Peres Balhesteros e no seu livro Parnasso português moderno de 1877 afirma que “Portugal, Galliza e Brazil tão separados pelas vicissitudes politicas, conservam ainda inteira a sua unidade ethnica na tradição litteraria”.

13. Eça de Queirós (1845-1900)

 Nota Eca de Queiros

Foi o romancista português por excelência. O seu livro O crime do padre Amaro é considerado o melhor romance realista da literatura portuguesa. Não está de mais lembrarmos que foi o galego Ernesto Guerra da Cal, exilado nos Estado Unidos, quem escreveu o estudo mais influente sobre o autor poveiro: Língua e estilo em Eça de Queirós (1954). Uma bonita nota de 10 escudos de 1925 serviu para homenageá-lo.

14. Fernando Pessoa (1888-1935)

Cedula Fernando Pessoa 

É, junto a Camões, o autor mais notável da literatura portuguesa e um dos principais vultos da literatura universal do século XX. Conhecido pelos seus heterónimos, Pessoa apenas publicou um livro em vida, Mensagem. O resto dos seus escritos permaneceram em arrumado esquecimento na famosa arca que foi conservada pela irmã intacta durante décadas. O baú mágico continha cerca de 25.000 textos inéditos de Pessoa e ainda hoje continuam a ser publicados novos poemas, os últimos neste mesmo ano de 2016. Folhas avulsas, cartas, pastas com livros inconclusos, poemas, confissões, diários... faziam parte do tesouro. Como a maioria dos intelectuais portugueses, também dedicou reflexões à relação de Portugal com a Galiza. Pessoa, cujo avó paterno era do concelho galego da Serra de Outes, formulou o seu desejo da unidade da Galiza com Portugal num “Estado natural galaico-português”. Aliás, Pessoa e o poeta Alfredo Pedro Guisado, manifestaram em várias cartas a diferentes escritores da altura ter encontrado na Galiza um poeta chamado Caeiro: “Estive ontem uns momentos em Mondariz conversando com o Romão Peinador. E no parque apareceu também aquele indivíduo que se chama não sei que Caeiro”. Com o que podemos concluir que, aos olhos de Pessoa, a Galiza partilhava com Portugal o mesmo espaço linguístico e literário. Portugal dedicou uma nota de 100 escudos a Fernando Pessoa.  Entrou em vigor em 1987 e foi retirada de circulação em 1992.

15. Eugénio Tavares (1867-1930)

Nota Eugenio Tavares 

Alcunhado o Camões de Cabo-verde foi a figura cimeira da vida cultural, política e social do arquipélago entre 1890 e 1930. Poesia, prosa, teatro, jornalismo, músicas… a obra de Eugénio Tavares é rica e variada e foi escrita em português e crioulo cabo-verdiano. Poucos conseguiram estilizar os sentimentos de alegria e de tristeza do seu povo. 75 anos depois da sua morte, Eugénio Tavares voltou a circular de mão em mão no meio do povo através de uma nota de 2.000$00 Escudos de Cabo Verde. No reverso, a nota reproduz os versos em crioulo cabo-verdiano Praia d’Aguada.

16. Mário de Andrade (1893-1945)

Cedula Mario de Andrade 

Protagonista da célebre Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922, evento que supôs um ponto de inflexão para a cultura brasileira, Mário de Andrade irrompe nesta surpreendente nota de exagerado valor: quinhentos mil cruzeiros.

A cédula teve um período curto de circulação, de 1993 a 1994, e foi impressa na sequência das comemorações do 70 anos do início do modernismo no Brasil. Mário de Andrade é considerado o intelectual mais influente da cultura brasileira do século XX. O romance Macunaíma é a sua obra prima. A personagem-título é um índio que representa o povo brasileiro e cuja frase mais característica é “Ai, que preguiça!”. Exemplo da grande influência que teve na cultura brasileira é o facto de o romance contar com versões de teatro, cinema e mesmo um CD com 13 músicas da cantora Iara Rennó inspiradas no livro.

17. Cecília Meireles (1901-1964)

cedula de 100 cruzeiros cecilia meireles 

Sem dúvida, Rosália de Castro e Cecília Meireles são as mais importantes escritoras da lusofonia. Elas, são as únicas poetas femininas que embelezam o papel-moeda.

Em 1989 entrou em circulação uma sorridente Cecília Meireles no valor de 100 cruzados novos, uma linda nota multicor. Entre as homenagens que esta singular voz lírica brasileira recebeu destaca a Sala Cecília Meireles do largo da Lapa na sua cidade natal. Um nobre edifício modernista recentemente revitalizado no Rio de Janeiro destinado à organização de concertos musicais. 

18. Drummond de Andrade (1902-1987)

 Nota Drummond de Andrade

Os cruzados novos trouxeram como novidade a presença de Drummond de Andrade. Poeta e cronista, Drummond de Andrade, foi homenageado nestes  50 cruzados novos que tiveram uso entre 1989 e 1990. Mineiro de nascimento a sua vida e obra esteve estreitamente ligada à cidade do Rio de Janeiro onde conta com uma estátua no mítico calçadão da orla de Copacabana. Como curiosidade, podemos acrescentar que um dos livros chave da literatura galega de pós-guerra, Longa noite de pedra, de Celso Emílio Ferreiro, começa com uma citação de uns versos do rapsodo brasileiro “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/tinha uma pedra/no meio do caminho tinha uma pedra”. 

 

19. Baltasar Lopes da Silva (1907-1989)

 Nota Lopes da Silva

Cabo-verde carimbou nos 500 escudos cabo-verdianos ao poeta e linguista Baltasar Lopes da Silva. Lopes da Silva, fundador da revista Claridade, publicação literária que denunciava os problemas da sociedade ilhoa cabo-verdiana, como a seca, a fome e a emigração, escreveu em português e crioulo cabo-verdiano. O seu romance mais conhecido é Chiquinho de 1947.

20. Agostinho Neto (1922-1979)          

 Nota Agostinho Neto

António Agostinho Neto foi um revolucionário independentista angolano que se tornaria o primeiro presidente de Angola. Fez parte da geração de estudantes africanos que viriam a desempenha um papel decisivo na independência dos seus países na guerra colonial portuguesa.  Em 1975 receberia o prémio Lenine da paz. A sua importância política tem apagado a dimensão literária de Neto, que foi um grande poeta. O seu poema mais conhecido Havemos de voltar foi musicado pelo cantor cubano Pablo Milanés. A série de 20, 50, 100, 500 e 1000 kwanzas reproduz a face cordial deste médico, político e poeta angolano.

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