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Domingo, 12 Março 2017 12:32

Trump, emprego e robôs

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Sílvia Ribeiro

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A maior parte da perda de empregos nos Estados Unidos deveu-se ao aumento da automatização e da robotização. A expansão da nova onda de automatização “inteligente” eliminará mais empregos do que irá criar. Como Trump tentará resolver essa contradição?


Um dos principais fatores em que Donald Trump se apoiou durante a campanha – e que agora usa para justificar absurdas medidas antiimigrantes, elevados impostos sobre as importações e outras - foi a promessa de reduzir a perda de empregos.

No entanto, de acordo com as estatísticas oficiais dos Estados Unidos, a maior parte da perda de empregos nos EUA deveu-se ao aumento da automatização e da robotização das indústrias. Atualmente, os Estados Unidos produzem 85% mais bens do que produziam em 1987, mas com dois terços dos trabalhadores daquela época (FRED Economic Data). A projeção é que com maior uso de sistemas de inteligência artificial, a automatização se expandirá a mais indústrias e setores, eliminando mais postos de trabalho.

As indústrias que recentemente anunciaram a sua permanência no país ou que vão transferir as suas fábricas para os Estados Unidos, como a Ford e a General Motors, já têm uma parte considerável da sua produção automatizada e vão incrementá-la. Grande parte dos supostos novos “postos de trabalho” que vão criar serão, na realidade, ocupados por robôs. A General Motors ufana-se de ser a empresa automobilística que mais investiu em novas tecnologias, incluindo o desenvolvimento de veículos não tripulados, o que também redundará em menos postos de trabalho (motoristas, distribuição de produtos e outros setores).

A Carrier, que anunciou que duas fábricas de produção de equipamentos de ar condicionado vão ficar nos Estados Unidos em vez de se instalarem no México (o que é apresentado como uma conquista de Trump), reconheceu à imprensa que os incentivos fiscais que Trump prometeu serão usados para aumentar consideravelmente a automatização das suas fábricas, com o que aumentarão os seus lucros a médio prazo, mas reduzirão os postos de trabalho (Business Insider, 05-12-2016).

Já como presidente eleito, o New York Times perguntou a Trump se os robôs iriam substituir os trabalhadores que votaram nele. Trump reconheceu alegremente: “Sim, eles vão substituí-los [os trabalhadores], mas nós vamos também construir os robôs” (NYT (link is external), 23-11-2016).

Só que, por agora, o maior produtor de robôs industriais do mundo é a China, que já fez grandes investimentos para ser, além disso, o maior produtor mundial de robôs aplicados à agricultura e a novos campos de manufatura industrial (NYT (link is external), 25-01-2017).

A transferência de grandes fábricas de manufatura industrial para o México e outros países do Sul nas últimas décadas deveu-se ao facto de que nesse movimento as transnacionais encontraram formas de aumentar exponencialmente os seus lucros, explorando uma situação de baixos a ínfimos salários, péssimas condições de trabalho e de direitos laborais e terreno impune para a poluição e a devastação ambiental, além de economizar o pagamento de impostos na sua sede. Tudo isso foi garantido e potencializado com os tratados de livre comércio.

O retorno de algumas fábricas para os Estados Unidos baseia-se na reavaliação das suas vantagens comparativas a partir das crises atuais. Seguramente, a ameaça de Trump de elevar os impostos das importações é um componente, mas a nova onda de automatização “inteligente” exerce um papel chave. Se Trump, como prometeu às empresas, subvencionar com dinheiro do erário público um desenvolvimento mais rápido para a nova geração de automatização inteligente, isto, sem dúvida, faz parte da equação de lucros dessas empresas. Claro que também serve a Trump como suposta demonstração de força e como imagem de que está a reverter a perda de empregos.

Mas as previsões sobre o número de empregos que serão perdidos pela aplicação industrial de novas formas de robótica e inteligência artificial nesse país variam entre 9% e 47%, segundo o estudo que se tomar como referência. A nível global, recentes reportagens da OCDE, da Universidade de Oxford e do Fórum de Davos - entre as mais citadas sobre o tema - preveem maior perda líquida de empregos do que aquela que já ocorreu, uma tendência que afirmam ter-se acelerado a partir de 2000. A UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, prevê que nos chamados países em desenvolvimento até dois terços dos empregos possam ser substituídos por robôs (UNCTAD (link is external) 2016 (link is external)).

Mas a automatização e a robótica estão longe de serem novidades. A “novidade” é o salto exponencial no desenvolvimento da inteligência artificial e da convergência com essa e outras novas tecnologias, como nano e biotecnologia (link is external), que se está a expandir para além da produção industrial à agricultura e alimentação, ao transporte, à comunicação, aos serviços, ao comércio, às indústrias extrativas, entre outros setores chave, com múltiplos impactos sobre o meio ambiente, a saúde e também o emprego.

Um processo de convergência que, no Grupo ETC, chamamos desde 2001 de BANG (link is external) (bits, átomos, neurónios e genes) e que o Fórum de Davos chama, desde 2016, de “quarta revolução industrial”. A automatização das últimas décadas significou um aumento da produtividade, mas não maior bem-estar social, pelo contrário: estagnação de salários e aumento das desigualdades. Note-se que dos oito homens mais ricos do mundo - que concentram mais riqueza que metade da população mundial - a maioria são empresários da área da informática ou cuja atividade está fortemente vinculada à digitalização e à robotização.

De acordo com as reportagens mencionadas, a expansão da nova onda de automatização “inteligente” eliminará mais empregos do que irá criar, afetando também setores diferentes daqueles que vinham sendo substituídos por ela. Como Trump tentará resolver essa contradição, é um enigma.

Publicado no jornal La Jornada em 18 de fevereiro de 2017. Tradução de André Langer para ihu.unisinos.br (link is external). Revisão de Carlos Santos para português de Portugal para esquerda.net

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