Esta incrível provocação, referindo-se aos países do sul da Europa afetados pela crise da dívida pública da Zona Euro foi feita pelo holandês Jeroen Dijsselbloem (isso mesmo, o nome deste infeliz é impronunciável) chefe dos ministros das Finanças da Zona Euro e do Partido do Trabalho, a socialdemocracia. Ela me fez lembrar que em Portugal, nos idos de quarenta anos atrás, quando alguém começava a namorar com alguém se dizia que "andavam juntos". Sempre gostei muito da expressão porque é gentil. A gíria para namorar era compartilhar um caminho comum. Mais do que sair juntos. Havia alguma delicadeza, respeito e, até algo de romantismo, portanto, estávamos próximos do poético. Não sei dizer se ainda é usada, mas é bem possível que sim. Esta imagem simples da vida cotidiana é só um detalhe que nos revela algo do que é a riqueza da cultura popular portuguesa.
A expressão me veio à cabeça, porque este primitivo, um bruto, também, energúmeno, que chegou ao cargo de presidente do Eurogrupo, poucos dias depois do seu partido ter passado por uma derrota apocalíptica nas eleições gerais, numa audição no Parlamento Europeu recusou pedir desculpa pelas declarações.
Não conheço estudos comparativos sobre o consumo de bebidas alcoólicas entre os povos do sul e do norte da Europa, menos ainda sobre o mercado da prostituição, mas duvido muito que haja algo mais do que veneno ideológico nesta declaração.
Os trabalhadores e a maioria das camadas médias remediadas dos povos do sul da Europa, sejam portugueses, galegos, andaluzes, catalães, castelhanos, bascos, italianos, e gregos, e todos os outros povos balcânicos merecem ser respeitados: estudam menos, trabalham tanto ou até mais, ganham menos e morrem mais cedo que as classes proprietárias e médias abastadas do norte europeu.
Os vagabundos, imprestáveis e inúteis, que os há, foram, democraticamente, distribuídos entre todas as latitudes e longitudes do planeta por igual. Podem ser encontrados, por igual, entre os torcedores do Ajax de Amsterdam ou do Feyenoord de Roterdam, do Manchester United ou do Chelsea. Mas como sou internacionalista, admito que, também, os temos por aqui.
Gosto de pensar que sou prudente com as palavras, especialmente, as escritas. Mas este episódio é daqueles que merecem adjetivos fortes. Jeroen Dijsselbloem é um idiota.
É, também um preconceituoso, um ignorante, um xenófobo, um racista, um reacionário perigoso.
Já deu para perceber que fiquei ofendido.
Quem me conhece sabe que nasci no Rio de Janeiro, e moro em São Paulo desde 1978, filho de pai catarinense e mãe carioca, avôs mineiro e gaúcho, um bisavô italiano e outro maranhense, só tenho ancestrais portugueses longínquos, mas fui para Lisboa em 1966 aos nove anos, porque minha mãe trabalhava para o Itamaraty, Por lá vivi entre os nove e os vinte um anos, à exceção de um semestre em que fui para Paris estudar, mas deixei uma parte do meu coração junto ao Tejo. Nasci uma segunda vez durante a revolução dos cravos. Pertenço a várias culturas, e não vejo porque deveria renunciar a qualquer uma delas.
Mas hoje me sinto mais português do que nunca.