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Diário Liberdade
Sexta, 07 Abril 2017 09:21 Última modificação em Domingo, 09 Abril 2017 03:50

História de uma indocumentada: a travessia do deserto de Sonora-Arizona - Capítulo 1

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Ilka Oliva Corado

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[Ilka Oliva Corado, Tradução de Raphael Sanz] Soa o alarme do despertador, são cinco horas da manhã em ponto do dia vinte e sete de outubro do ano dois mil e três. Devo sair dos tíbios lençóis e pegar água gelada do regador: a diáspora aguarda por mim e não devo fazê-la esperar. Não dormi nem um tostão, a noite se foi como uma vela com sopro, contando os segundos, escutando o vento frio soprar entre as fendas da janela do quarto, dei mais de cem voltas no mesmo pedaço de piso, estirando e encolhendo a dor, tratando de enganar-me fingindo que não me dói partir. Escondendo o medo do desconhecido, tratando de guardar em minha memória cada fotografia pendurada em quadros sobre as paredes da sala. Os livros que com sacrifício comprei, o caminho que conduz até Ciudad Peronia, as varinhas do São José do jardim, minha caneca favorita, os entardeceres cor de fogo de outubro, o craveiro vermelho florescendo na da pequena Juana.


Leia também: Memórias de uma indocumentada - Prefácio e Prólogo

Engolindo o choro, abri a porta e fui buscar em outro quarto o calor do abraço da minha mãe, deitar-me com ela e não perder nenhum segundo das suas respirações cansadas, seu pulso sossegado. Quero proteger as tardes de voos de pipas com meu pai, mergulhar novamente no alto da banheira plástica no pátio de terra, com a água tíbia aquecida pelo sol do meio dia.

Quero empacotar tudo, até a menor das lembranças e levar comigo como única mala de viagem. Um frasquinho com a névoa das manhãs de agosto, o sorriso da minha mãe quando seu jardim está em flores, as mãos do meu pai tecendo suas tarrafas, meu irmão tentando aprender a jogar peão comigo, a ovelha acariciando seus cabritos e acalmando seus medos.

Uma e outra volta sobre o mesmo pedaço de piso da casa alugada. Caio na cama e volto a desarrumar. Me deito novamente e cravo os olhos sobre o teto do terraço, caminho até a janela e vejo a avenida vazia, os troncos das árvores negros de tanto fumo de automóvel, a alvorada está longe de se aproximar. Quanto tempo falta para esse avião chegar? Não, não quero contar as horas.

Não quero pensar em que meu corpo pode ser um dos milhares que nunca regressam, que desaparecem entre detalhes da fronteira da morte. Contudo nem dona Tiba leva um mês fazendo-me limpeza de água de sente montes e rosas vermelhas que deixa durante uma semana postada aos pés de uma de suas tantas virgens, fuma o mais puro Maximón e reza tantas orações em geringonça que consigo entender uma só palavra. Tudo por ordem de minha mãe que diz que dona Tiba tem mão santa e uma conexão direta com o Deus dos milagres. Me neguei mas de nada serviu entre as duas, já que me levava arrastada ao médico. Por isso optei por não me opor a fim de não malograr o ambiente dos últimos dias de minha estadia em meu pedacinho de terra.

Assisto, pontual, às cinco da tarde três vezes por semana e levo pra minha casa a encomenda de pétalas de rosas já benditas pela virgem. Faço chá com canela que bebo antes de dormir, minha mãe me observa compadecida, diz que talvez com isso deixo de ser tão endemoniada e viajo com menos bagagem, deixando em minha terra o temperamento infernal que atrasaria minha vida.

Toca o alarme do despertador, meu alento é de fubá, a noite anterior dividi dois litros de cerveja com minha mãe. As duas sozinhas na sala da casa, sentadas nas cadeiras da mesa de jantar que nunca usamos, porque nunca comemos em família todos juntos. Ainda têm o náilon com o qual vieram empacotadas e já faz três anos que compramos.

Pela vida, brindamos um litro. Pelas lembranças, o outro. Cada brinde seguido de longos silêncios. Na batida da meia noite fomos dormir, tentar dormir na verdade, mas nenhuma de nós duas conseguiu, como também não nos atrevemos a ir para o quarto da outra em busca de um abraço. Na minha cama dorme a caçula, a única extraviada nos canais do sonho profundo. A observo e a recordo recém nascida, logo na idade de três anos, correndo a esconder-se das cabritas porque tinha medo delas, lembro do sexto ano do primário, a primeira menstruação já entrando na adolescência. Dorme profundamente e não quero arrebatar-lhe o descanso.

Busco o regador e molho meu corpo com a água fria que baixa da cisterna que está sobre o terraço. Lavo meu longo cabelo crespo com paciência e sabão trazido da minha cidade natal. Quando voltarei a ver um desse novamente? Penso enquanto abro meus cachos, fecho os olhos e deixo cair novamente a água fria e deixo que seja esta a que acaricie minha pele. Saio e procuro a cozinha e o bule. Ponho água para ferver para o café.

A muda de roupa já tenho pronta desde a noite anterior: uma calça preta, calcinhas brancas, tênis e regata. Está combinado com a coyota* que me espera no México que eu viaje assim, não como a habitual centro americana média que vai direto encalhar das fronteiras do norte do continente. Enquanto a água ferve reviso na maleta esportiva se tudo está em ordem, levo cinco mudas de roupa, todas esportivas, salvo uma calça de lona e uma blusa.

Já estou tomando café na mesa quando minha mãe e minha irmã estão de pé se preparando para o dia, meu pai e meu irmão não estão em casa, minha irmã mais velha é a que me espera nos Estados Unidos.

Tomamos o café da manhã juntas: uma taça de café e dois pães com manteiga. Meu namorado chega cedo e também compartilha o café, sobe a mala ao porta-malas do carro e enquanto eu me despeço das imagens que contam histórias que estão penduradas em quadros sobre as paredes da sala, acaricio meus livros da universidade e beijo as pétalas de rosas e folhas de plantas de tomate mexerica, fecho a varanda do jardim e vejo por última vez as varinhas de São José cor pitaya*, as pascoas já em flor e as pedras vulcânicas trazidas da lagoa de Calderas. Subo no automóvel e nos dirigimos ao aeroporto.

Tomei a decisão de não querer ninguém da família despedindo-se no aeroporto, fiz uma proibição enfática. A minha mãe e a caçula também, mas com elas não pude. Juntas são um furacão e tive que aceitar que me acompanhassem.

Chegamos, entrego minha mala que passa perfeitamente como bolsa de mão e começo a preencher a papelada. Anunciam que em uma hora sairá um voo da Companhia Mexicana de Aviação com destino à Cidade do México.

Os minutos às vezes parecem segundos em outros eternos dias, está aí a cizânia da despedida e dos novos caminhos que percorrer. O abraço que pode ser para nunca jamais e que sempre estará esperando o reencontro. Os olhares que conversam entre si, os suspiros que de pronto deixam de guardar silêncio, os rostos desencaixados e a agonia do tempos que transcorre.

Pelo alto falante, vozes anunciam a primeira chamada para embarcar no avião, vejo minha mãe com seu rosto avermelhado, com seus lábios carnudos que tremem, leio suas mãos inquietas que mexem os dedos desesperadamente, a caçula está chorando, tem o olhar cravado no chão, meu namorado trata de me dar valor, está sentado no canto do banco, ao lado da minha mãe.

Esperamos pela terceira chamada, para enquanto caminho até as janelas de vidro que deixam ver a pista e vejo o avião estacionado, o céu entre azul e coberto, as nuvens juntas aos montes como os tomates e os güicoyes* que vendem por medida no Terminal, algumas estão abraçadas e outras solitárias, distantes, longínquas.

Avisam, então, a terceira chamada. Me levanto, cruzo minha mochila sobre o ombro e abraço a caçula da casa, lhe digo que não sei se voltarei a vê-la, e que o abraço possa um dia unir-nos novamente, e que trate de dar o melhor dela mesma sempre em tudo sem se importar com a circunstância, a voz me quebra e não posso seguir. Ela diz que me ama e me abraça com a força de uma onda em arrebentação de mar desperto.

Minha mãe me olha com os olhos cheios de água e faces vermelhas, acaricio seus cabelos e lhe digo que seus poucos abraços são meu refúgio, que morra na fronteira ou sobreviva, a agradeço pela imensa oportunidade de haver me dado o direito de ir à escola aprender a ler e escrever. Acaricio suas mãos de camponesa, com bolhas e cicatrizes e a abraço com a profundidade de minha alma que se afasta do cordão umbilical.

E ali está meu namorado, o homem que antes de tudo é meu amigo incondicional. Vejo seus olhos tristes e não tenho palavra maior que dizer a ele. Tudo já foi dito. Um abraço e um beijo, ele sussurra com a voz quebrada, “vou te visitar”. E cumpriu.

Caminho para a porta que me conduzirá até um destino desconhecido, são dez e dez da manhã de vinte e sete de outubro de dois mil e três, e não parei para olhar pra trás e observar os últimos olhares. Caminho com as costas retas, olhando para frente, atravesso o limiar e embarco no avião que me transformou em estrangeira.

Glossário:

Coyota – Coyote feminino: pessoa que em troca de dinheiro auxilia migrantes a cruzarem a fronteira entre México e EUA.

Pitaya – Fruta típica da América Central

Güicoyes – Guicoy: legume da família da abóbora. 

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