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Diário Liberdade
Quinta, 28 Dezembro 2017 13:15

Fala-se espanhol em Cuba?

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Mauricio Castro

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A pergunta é retórica, claro. Ninguém pom isso em dúvida, apesar das significativas diferenças entre o padrom da maior das ilhas antilhanas e o da ex-metrópole europeia.


Por pura deformaçom profissional, na minha segunda viagem a Cuba dediquei-me durante três semanas de dezembro –entre outras cousas– a elencar particularidades do castelhano-cubano. Só como curiosidade e para incitar a reflexom de quem me lê, partilho algumhas características curiosas e umha conclusom evidente.

Nom fai falta falar do aspeto mais sonoro do sabor lingüístico cubano, por isso omitirei qualquer referência às particularidades do sistema fonético, fonológico e prosódico, se comparado com o falado deste lado do oceano. Só comento que, segundo as minhas amizades havaneiras me confirmárom, qualquer cubano consegue diferenciar as diversas pronúncias nom só das províncias e regions do país, mas também, no caso de Havana, dos municípios da capital. No entanto, tenhem dificuldade para distinguir os castelhanos falados nas diferentes zonas do Estado espanhol.

Também nom fai falta dizer que, como costuma acontecer entre falantes de variantes distantes do mesmo idioma, os cubanos tenhem algumha dificuldade para perceber o espanhol coloquial europeu e, ao invés, os falantes de espanhol europeu temos dificuldade para perceber o espanhol coloquial de Cuba. A sensaçom de uns frente aos outros é a de estarmos/estarem a falar “muito depressa”.

No plano do vocabulário, em Cuba abundam os falsos amigos internos, em relaçom a variantes do espanhol europeu. É o caso da “pila” (esp. “grifo”), ou do “pomo” (esp. “botella”), passando por adjetivos como “guapo” (esp. “valiente”). Também me chamou a atençom que em cubano se chame “peletería” à loja que vende sapatos (esp. “zapatería”) e “zapatería” unicamente à oficina de reparaçom de calçado. De forma genérica, qualquer serviço de reparaçom chama-se “consolidado”, o que em espanhol de Espanha seria um adjetivo sem relaçom evidente com o conserto de objetos estragados. Fala-se, por exemplo, de um “consolidado de espejuelos” (esp. “tienda de reparación de gafas”).

Já na culinária, variantes dos “bizcochos” espanhóis costumam chamar-se “spon root” ou “gaceñigas” em Cuba, enquanto chamam “cakes”àqueles que em Espanha chamam “tartas de cumpleaños”.

Nomes comuns de uso quotidiano divergem de maneira importante. É o caso da “jaba” ou o “nilon” (segundo o tamanho, maior ou menor respetivamente, e que na Europa se chama “bolsa”); ou do uso habitual de “jimaguas” como forma cubana para se referir a irmaos nascidos no mesmo parto; mesmo nos nomes das cores, onde “carmelita” substitui por completo a forma “marrón”, característica do castelhano europeu.

As diferenças incluem os nomes de peças de roupa, como vemos no uso da “enguatada” (esp. “sudadera”), as “medias” (esp. “calcetines”), a “trusa” (esp. “bañador”), o “blumer” (esp. “bragas”); ou os “pantalones de mezclilla” (esp. “vaqueros”); pulóver (esp. “camiseta”); mas também nos nomes de animais, como a “jicotea” (esp. “tortuga”, que em Cuba só denomina as de grande tamanho), ou a “cotorrita” (esp. “mariquita”). Chamou-me a atençom que se denomine “animales afectivos” o que no espanhol europeu som “animales de compañía”. Claro que, nos adjetivos, as diferenças som bem numerosas. Já indiquei o caso de “guapo” (cu.) frente a “valiente” (esp.), mas poderia falar dos coloquiais “seboruco”(cu.) frente a “bruto” (esp.), ou dos seus antónimos: “filtro” (cu.) frente a “máquina” (esp.); ou “chusma” (cu.) frente a “grosero” (esp.).

A morfologia verbal e nominal mostra outras diferenças, com casos como o verbo “empanizar” (cu.), que corresponde em espanhol de Espanha com “empanar”; ou o substantivo cubano “transportación” (p. ex. “transportación de trabajadores”), que no espanhol europeu costuma ficar no mais curto “transporte”. Achei engraçada a reduçom da forma “antes de ayer” para a cubaníssima “antier”, geral na fala espontánea da ilha. Também a mudança de género do substantivo “azúcar”, que deste lado do Atlántico é masculino mas, no país de Martí, feminino: “azúcar blanca”, “azúcar prieta”.

Tal como noutras variantes do espanhol no mundo, em Cuba nom existe, na segunda forma do plural, a distinçom pronominal entre o tratamento familiar e o formal: usa-se “ustedes” com ambas as funçons, como nalgulns falares andaluzes, sendo desconhecida a forma “vosotros”.

Nas frases feitas e modismos, a conta seria infinita. Fico com um par de exemplos muito comuns e de claro contraste: “pedir botella” corresponde com o “hacer dedo” de Espanha; e o sonoro “tumba catao y pon quinqué”é a versom cubana do espanhol “¡cambia de rollo!”. O mesmo poderíamos dizer do calom: um “yuma” é a forma popular de se referir a um turista (esp. “guiri”) e um “fula” o nome coloquial que recebe o dólar norte-americano.

Isto que acabei de partilhar convosco é só umha ínfima mostra das significativas diferenças que separam as variantes nacionais cubana e espanhola do castelhano, apesar de ambos territórios fazerem parte do mesmo Estado até há pouco mais de um século. Nada que leve nengumha pessoa adulta em Cuba a considerar o espanhol de Espanha como sendo um idioma diferente, mas curiosamente si vim algumhas crianças considerarem o modo como os visitantes falávamos como algo espontaneamente alheio.

Claro que Cuba leva mais de um século de autoafirmaçom nacional. Nom precisa de exageros frente ao idioma dos seus colonizadores, nem de inventar idiomas privativos como forma de autoafirmaçom.

Já na Galiza, o questionamento permanente –inclusive entre nacionalistas galegos– da nossa pertença ao espaço lingüístico galego-luso-brasileiro é prova da fraqueza, nom da fortaleza, da nossa afirmaçom nacional. Também considero exagero pretender suprimir qualquer diferença entre o galego e as variantes lusitana e brasileira, como alguns pretendem, talvez como reaçom ao diferencialismo gratuito do isolacionismo.

A naturalidade com que se afirma a cubanidade talvez pudesse ser um bom ensinamento para nós, que tanto ganharíamos assumindo como primeira língua a nossa, incorporada com todas as suas particularidades ao ámbito galego-luso-brasileiro que lhe é próprio, e deixando para o espanhol o digno segundo lugar que lhe corresponde.

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