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Diário Liberdade
Terça, 03 Abril 2018 22:56

O xadrêz da mudança para trás

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Zillah Branco

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Em 29/03/18, no jornal O Expresso (de centro direita em Portugal) um militar na reserva, major-general Carlos Branco, escreveu:


"Encontramo-nos numa estrada perigosa. Assistimos a algo que se assemelha ao início de uma guerra. As guerras, leia-se os confrontos militares generalizados, são sempre precedidos por uma escalada que passa pela subida de tom na retórica, a demonização do oponente, o reforço dos dispositivos militares e a conquista da opinião pública para apoiar ações mais assertivas contra o oponente. Depois é necessário criar um acontecimento, um pretexto que não tem necessariamente de ser causado pelo oponente e que é normalmente provocado por quem pensa que vai beneficiar com o resultado da guerra. Sabe-se hoje quem montou a armadilha que levou à guerra do Vietnam, à guerra espanhola-americana e muitas outras mais recentemente. Por isso, convinha que prevalecesse o bom senso."

Fica no ar a pergunta: porquê um instrumento midiático como o Expresso, cauteloso mas de direita, desvenda a intenção fascista que está por trás das primárias provocações do Império Britânico que foi o autor do Brexit revelador da fragilidade bagunçada da União Europeia? A ridícula constatação, do Governo da Inglaterra, de que o espião russo (que estava a serviço dos Estados Unidos e vivia em Londres), fora envenenado pela Rússia com um gás utilizado em uma fábrica do Uzbequistão desmontada em 1993 sob supervisão norte-americana, mereceu do articulista a comparação jocosa com "alguém atropelado por um Mercêdes, que atribui a responsabilidade do acidente à Alemanha".

Mas, isto coincide com a sugestão (complementar no esquema preparatório da guerra), do "missionário da Opus Dei na alta política" - Antonio Guterres -, alçado a secretário geral da ONU, de que "urge recuperar os mecanismos criados anteriormente para enfrentar a Guerra Fria". Com palavras ambíguas e covardes, coloca como alvo de uma guerra justa contra o comunismo (a Guerra Fria) o confronto com a Russia de Putin que hoje alia-se à poderosa China socialista, à nação (rica em minérios) Síria, à petulante e socialista Coréia do Norte, e aos que no Oriente Médio não aceitam o controle do imperialismo.

"Donos" da palavra justiça, que está completamente destroçada nos chamados estados democráticos em todo o planeta, voltam a apelar para o conceito ainda santificado em fase medieval, de guerra justa em defesa dos direitos humanos, como se alguma vez estiveram preocupados com os humanos e seus direitos. E o articulista do Expresso acrescenta: "Começa a ser claro que o campeonato mundial de futebol será um palco desta luta. Mas enquanto for só isso... a histeria russofóbica faz parte da operação de moldagem das opiniões públicas, preparando-as para o confronto. Com o clima criado poderá nem ser necessário conceber um pretexto. Bastará um imprevisto, um erro de cálculo para nos levar para uma situação sem retorno, fazendo com que a crise político-militar se transforme numa confrontação militar direta. Essa possibilidade afigura-se-nos muito elevada. A nova postura nuclear dos Estados Unidos e a crença de que se consegue manter uma guerra ao nível nuclear tático, sem evoluir para o patamar estratégico e para a destruição total são mais alguns ingredientes que nos devem fazer refletir. A presente crise – real ou fictícia – enquadra-se perfeitamente no modelo. O que está mesmo a fazer falta é testar os efeitos das novas armas hipersónicas."

Os chefes de Estado que representam o modelo mais imbecilizado dos dirigentes (para poderem estar "de quatro" no alto cargo sob comando à distância, sem chamar à atenção geral para a submissão vergonhosa) participam como atores réles do teatro que antecedeu às duas Grandes Guerras. Divulgam mentiras ridículas nas suas mídias ou por própria voz, reacendem a moda do anticomunismo primário e atribuem à Rússia um eterno papel de revolucionária e de URSS. Só estão à espera de um atentado que mate uma personalidade incauta para soltarem a NATO à caça dos imaginários inimigos da justiça terrena.

Mas, em outros países, onde os trabalhadores estão capazmente organizados e a esquerda tem voz, esta triste figura imbecilizada não sobrevive no alto cargo e quem lá chega tem de ser bom

equilibrista para aguentar a pressão contradictória dos impérios e a das suas populações. Nesta árdua tarefa estamos em Portugal, por exemplo, para que fique neutro na Europa agressora desde que o Império Britânico declarou o Brexit e se aliou ao outro império seu filho. Já vimos este filme, mas antes era o fascismo declarado sob a liderança de Hitler e Mussoline.

Porque não mudam o roteiro? Afinal o mundo evoluiu muito, a África tem nações independentes e já contrói um caminho de união não só africana mas com outros continentes que foram igualmente colonizados; na América Latina Fidel Castro, Hugo Chaves e Lula abriram o caminho para superar a dependência neo-colonial; os povos já descobriram que a democracia sempre precisa de um Estado Social sem discriminação e que a pobreza não é uma fatalidade; todos sabem que a mídia é um instrumento de poder do imperialismo; a juventude começa a demonstrar que está farta de desordens e preconceitos divisionistas; a humanidade liberta-se do doutrinamento medieval e escolhe a sua filosofia humanista sem peias clericais; as crianças aprendem nas creches que têm idéias próprias e podem exigir atenção sem chorinhos ineficazes; os programas televisivos preparados para retardamento mental massivo já são rejeitados pelos adolescentes; a petulância dos prepotentes já só provoca risos; o hábito de corromper só tem exito quando as notas são de milhões e a máquina de fazer dinheiro pode ser montada em qualquer lugar; os espiões estão sendo assassinados pelos colegas ou chefes; os textos que ensinam o que é a dialéctica e como as revoluções levaram o sistema capitalista à crise de poder através da história estão na internet para quem quiser estudar, enfim, a humanidade está apta a sair do bolso da desmoralizada elite poderosa.

Inventem outros pretextos para a briga entre os que controlam a guerra atômica final. Reunam-se em Davos ou Bildberg e troquem figurinhas como quiserem, contanto que cheguem ao acordo elementar de destruirem as armas fatais que ostentam. Os povos batem palmas e promovem vocês a salvadores do planeta com direito a um museu especial na falecida ONU. Deixem a humanidade viver e criar soluções saudáveis no seu percurso com liberdade.

Fonte: Vermelho.

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