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Sábado, 20 Mai 2017 14:14 Última modificação em Sábado, 20 Mai 2017 14:26

Trotskismo português: Polémica MAS vs Em luta pelo abandono da LIT-QI

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País: Portugal / Batalha de ideias / Fonte: Diário Liberdade

O partido português MAS assinou declaração conjunta com o brasileiro MAIS para juntos abandonarem a LIT-QI. Grupo cindido do primeiro contesta a ruptura dos seus ex-camaradas.

Reproduzimos a continuação ambas as declarações: a do MAS e o MAIS, e a resposta do Em Luta.

Declaração conjunta de MAIS (Brasil) e MAS (Portugal)

Após uma longa discussão, ocorreu a separação entre a LIT-QI, por um lado, e o MAIS brasileiro e o MAS português, por outro.

Consideramos que a LIT-QI pôs em marcha uma revisão teórico-programática esquerdista, sectária e auto-proclamatória. Sustentamos igualmente distintas visões do mundo. Tudo isto fez com que tivéssemos diferentes compreensões das tarefas e do programa que devem ser desenvolvidos daqui em diante.

Somos da opinião que o período histórico aberto após a queda do muro de Berlim e o fim da ex-URSS significou um enorme retrocesso para a luta dos trabalhadores de todo o mundo. Infelizmente, o que aconteceu nestes países não foi uma revolução política vitoriosa que superasse a burocracia dirigente e os regimes de partido único, mantendo a propriedade coletiva. O que aconteceu foi uma restauração capitalista, com os sectores da própria burocracia dirigente a transformar-se numa classe proprietária. Ainda que por caminhos diferentes o mesmo aconteceu no Leste Europeu, na China e, infelizmente, também, em Cuba.

Os anos que se seguiram foram marcados por uma intensificação da ofensiva imperialista, iniciada na década de oitenta, com a adopção de uma estratégia neoliberal. Foi uma iniciativa política e militar lançada com o objetivo de estabelecer uma ordem mundial “unipolar”, sob a hegemonia dos EUA. Foi uma campanha ideológica que difundiu o suposto “fracasso” do socialismo e o prognostico do “fim da história”.

Entretanto, nem um, nem outro, evidentemente, se comprovaram. A história permaneceu um processo da luta de classes. Vivemos na época aberta pela revolução de Outubro, de há cem anos, uma época de decadência histórica do capitalismo. É verdade que com o fim da ex-URSS se abriu uma etapa marcada pela globalização neoliberal, com privatizações, ataques aos direitos e à organização dos trabalhadores. As guerras de ocupação e colonização intensificaram-se, como o exemplo do Iraque e do Afeganistão. Mas também é verdade que os novos acontecimentos começaram a revelar os limites históricos da dominação imperialista.

As crises capitalistas voltaram. Foram muitas as que tiveram repercussões internacionais: Tigres Asiáticos (97), Rússia (98), Brasil (99), EUA (bolha das “empresas ponto com”, 2000), Turquia (2000-2001), Argentina (2001-2002). Como marca dessas crises, aprofundam-se as desigualdades e as injustiças sociais que se foram tornando cada vez mais evidentes. A resistência desafiou a ordem estabelecida.

Os movimentos antiglobalização irromperam em várias partes do globo: EUA, México, Canadá e Europa. Uma onda de lutas, contra os planos de ajuste neoliberal, ocorreu na América Latina. Como reflexo distorcido destes movimentos, tomaram posse, pela via eleitoral, governos nacional-populistas de esquerda como o de Chaves (Venezuela), e, em certa medida, os Kirchners, na Argentina. Noutros países, ascenderam governos de colaboração de classes, como o PT (Brasil), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Lugo (Paraguai), entre outros. A resistência às ocupações colocou em evidência o plano dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Uma onda revolucionária floresceu no Norte da África e no Médio Oriente.

Neste seguimento, a ofensiva capitalista não parou. A crise capitalista de 2007-2008 obrigou a que novos planos de austeridade e de ajustamento fossem aplicados. A queda dos preços das commodities reduziu a margem de manobra dos países periféricos como os da América Latina. O imperialismo aumentou o cerco económico e político sobre países como a Venezuela. Golpes parlamentares tiveram lugar no Paraguai e no Brasil.

As guerras regionais continuaram a ameaçar o planeta. Sob a pressão do imperialismo, a luta dos povos no Médio Oriente e Norte de África sofreu importantes derrotas, como o golpe de Al Sisi no Egito, e a derrota do levante sírio, marcado pela queda de Aleppo. A luta popular contra Bashar Al Assad foi dando lugar a um sangrento conflito, a partir da intervenção directa e indirecta das potências estrangeiras e regionais. Apesar das mobilizações continuarem em países como a Tunísia, Marrocos e Egipto, foram passando para o primeiro plano conflitos que exploram rivalidades étnicas e religiosas, potencializados pelo Irão, Arábia Saudita e Turquia, e formações semi-fascistas, como o exemplo do Exército Islâmico, que se foi fortalecendo.

A tragédia dos refugiados - mais de 65 milhões por todo o mundo - a xenofobia, o machismo e a LGBTfobia, a par de um aumento dos feminicídios, revelam a decadência do capitalismo. A crise ambiental tornou-se uma das expressões mais profundas da encruzilhada em que o capitalismo colocou a humanidade. A fuga em frente do imperialismo acaba por ameaçar o planeta inteiro com uma catástrofe ecológica. Expressão das tendências mais retrógradas da crise estrutural capitalista, tudo isso vai fermentando como elementos da barbárie.

Um novo momento da disputa pela hegemonia da ordem mundial

Apesar de tudo isso, hoje, passados quase dez anos após o início da grande crise de 2007-2008, longe de alcançar um século de estabilidade como chegou a ser anunciado pelo governo Bush - “Um Novo Século Americano” -, a ordem mundial imperialista encontra-se em crise. Abriu-se um novo período de crescente instabilidade e conflito. O século XXI testemunhará confrontos que serão decisivos para o futuro da humanidade.

É verdade que à custa de duros ataques ao nível de vida dos trabalhadores e dos povos de todo mundo, somados aos gigantescos resgates por parte dos Estados às empresas “demasiado grandes para falir”, conseguiu-se evitar uma catástrofe como aquela que ocorreu na depressão de 1929. Mas a crise capitalista que atingiu o coração do sistema imperialista, alastrando-se a todas as partes do globo, ainda não conseguiu encontrar uma saída sustentada. O crescimento económico é reduzido em comparação aos outros períodos de recuperação, os investimentos escasseiam, o comércio mundial desacelerou. Isto acirrou conflitos entre as diferentes frações burguesas nos países imperialistas.

A ordem global, antes dominada inapelavelmente pelos EUA, dá sinais de esgotamento. As dificuldades com as guerras simultâneas no Iraque e no Afeganistão evidenciaram os limites da hegemonia mundial norte-americana. Ao mesmo tempo, velhas e novas potências em expansão como a China e Rússia, além dos Estados periféricos que exercem influências regionais, disputam com o antigo amo parcelas do controlo global, acirrando uma nova corrida armamentista. A Alemanha desequilibrou, uma vez mais, todas as relações económicas e políticas da Europa a seu favor. Isso empurra a Grã-Bretanha para um Brexit cada vez mais radical, e acirra as tensões nacionalistas em França e noutros Estados europeus. Na Ásia, as disputas do mar do sul da China e o conflito na península coreana, forçam novamente o Japão para um militarismo crescente.

Iniciou-se um processo de ruptura com o equilíbrio anterior, das relações de poder exercido pela Tríade (EUA, Europa e Japão). A estagnação económica desestabiliza a ordem mundial. Um novo ponto de equilíbrio favorável à dominação imperialista deve ser encontrado. O bipartidarismo e a alternância eleitoral ao centro, a regulação da globalização económica que gerou a OMC, a diplomacia da ONU e da UE, e o próprio papel da NATO (OTAN), não têm sido suficientes ao capital para superar a sua crise. Os projectos alternativos anunciados por Trump, nos EUA, e Le Pen, em França, são expressões disso. O aumento das tensões na Ásia, na Europa e no Médio Oriente são os seus efeitos.

Nas alturas, a classe dominante reorganiza-se para desferir novos e mais duros golpes contra o proletariado mundial. Organizações cada vez maiores da direita e da extrema-direita surgem e vão empunhando a bandeira da xenofobia, do racismo, do proteccionismo e do militarismo nacional como saída. Sectores que acumularam excedentes sob a globalização neoliberal liderada pelos EUA, querem agora mais autonomia e voltam a agarrar-se a saídas nacional-imperialistas e autárquicas. Anunciam a necessidade de substituir a austeridade global preconizada pelo FMI, o Banco Mundial e a União Europeia, por projectos nacionais em proveito próprio. Abre-se assim um período de tensões e conflitos crescentes não só entre as classes, mas também entre os Estados.

Uma resistência pôs-se em marcha

Se, por um lado, existe a tendência a um conflito crescente no próprio seio do imperialismo, por outro, eleva-se a um novo patamar a iniciativa das burguesias imperialistas contra o proletariado mundial, sem esconder a sua face mais feroz, inclusive, nos próprios países centrais. A resposta dos trabalhadores e dos povos, entretanto, não se está a fazer esperar.

Os sectores oprimidos tomam a dianteira, ao mesmo tempo que os contingentes operários começam a entrar em cena. Nos EUA, em pouco mais de uma centena de dias de governo, a administração Trump viu-se confrontada com várias manifestações com o propósito de parar a ofensiva do novo “Comandante-em-chefe” do declínio americano. Uma nova efervescência radical parece despontar no coração do Império.

As mulheres encabeçam uma resistência global e resgatam os métodos da classe trabalhadora: as greves, as manifestações de massas e o internacionalismo. Um ascenso e politização dos movimentos negros, indígenas e contra o racismo respondem aos ataques crescentes de que são vítimas. O movimento LGBT também se junta e, entre si, todos constroem unidades e avança a perspectiva de se ligarem aos trabalhadores. A luta dos povos pela autodeterminação e independência nacional, como o exemplo da Escócia, Irlanda, País Basco, Catalunha, além da Cachemira indiana, dos curdos e dos palestinianos, evidencia-se cada vez mais presente.

Também no Sul, na América Latina, a força da resistência começa a rivalizar com a dureza dos ataques. Argentina, Brasil e Chile, alguns dos proletariados mais fortes e com mais tradição do continente, levantam a cabeça em poderosas greves e lutas contra os planos de ajustamento e de reformas capitalistas. As greves defensivas na China, a greve geral na Índia e na Guiana Francesa, as greves de trabalhadores na Coreia, as mobilizações em França contra a lei de precarização do trabalho, e as manifestações contra os ataques ao NHS em Inglaterra, são sintomas do ressurgimento do protagonismo dos trabalhadores organizados.

É possível e necessário que as resistências se elevem a um novo patamar mais radical e mais unificado.

Unificar as resistências para passar à ofensiva e apresentar uma saída estratégica

Defendemos o princípio básico da solidariedade e unidade das lutas dos trabalhadores e oprimidos de todo o mundo.

Perante os ataques, uma das primeiras obrigações da esquerda socialista deve ser a defesa da unidade de acção e da frente única, com o objetivo de unir os trabalhadores e os setores oprimidos contra os planos de ajustamento fiscal, as contrarreformas neoliberais, a ameaça às conquistas democráticas e toda a tentativa de golpes e retrocessos. O mesmo deve servir para o combate à xenofobia, ao machismo, à lgbtfobia, em defesa dos imigrantes, da natureza e do meio ambiente.

Neste caminho de lutas directas, dentro dos sindicatos e dos organismos representativos de classe, devemos combater as burocracias e os seus métodos, propondo uma organização democrática pela base como a forma mais segura de derrotarmos os nossos inimigos.

Onde se fazem presentes a extrema-direita e as organizações fascistas é necessário colocar em acção as frentes ou unidades de acção anti-fascistas. É preciso detê-los antes que se tornem uma ameaça sem retorno. A humanidade já sofreu o suficiente diante estes projectos bárbaros.

No terreno eleitoral, será necessário construir um terceiro campo diante das saídas burguesas e reformistas. Dada a debilidade e fragmentação dos revolucionários devemos procurar construir acordos e frentes que unam a esquerda radical, à luz da realidade específica e concreta de cada país. Devemos propor dentro desse terceiro campo um programa anticapitalista.

Nas lutas ou nas eleições, é necessária, mais do que nunca, a defesa de um governo dos trabalhadores que una os explorados e oprimidos como uma alternativa aos governos burgueses “normais” e aos governos populistas de esquerda e de colaboração de classes.

Diante da actual crise dos acordos, tratados e uniões económicas e políticas construídas sob a base da globalização neoliberal como o Nafta, o Mercosul, a União Europeia, etc., coloca-se na ordem do dia o projecto de uma união livre das nações e povos.

A Europa, por exemplo, não pode ficar refém de uma união regida pela globalização neoliberal a serviço das grandes empresas e instituições financeiras dos países centrais, por um lado, nem de alternativas nacionais autárquicas e xenófobas, por outro. É necessário apresentar saídas de ruptura com a União Europeia, o euro, a OTAN (NATO) e que suspendam o pagamento das dívidas externas. Uma Europa contra o Capital, sem fronteiras, nem austeridade é possível.

É preciso travar os conflitos crescentes entre as potências que fomentam guerras regionais e as ameaças nucleares em defesa dos seus interesses. As disputas interimperialistas não podem ser pagas com a vida dos povos.

Torna-se uma necessidade imperiosa opor-nos energicamente às agressões imperialistas aos países dependentes. Da mesma forma, é necessário defender a libertação nacional, a autodeterminação, a independência quando reivindicada, como um direito democrático dos povos de decidir seus próprios destinos.

Pretendemos uma nova ordem económica, política e social. A preservação do capitalismo é uma ameaça à vida civilizada. O socialismo é o único projeto que vai ao encontro dos interesses dos explorados e oprimidos. Um sistema que se propõe a colocar um fim à propriedade privada sobre o qual se assenta todo o tipo de exploração, injustiça e opressão. Nele os trabalhadores, explorados e oprimidos deverão governar de forma democrática com base nas suas próprias organizações e instituições. Sob um regime internacional de dominação capitalista, uma revolução mundial impõe-se como o único caminho para o alcançar.

Por uma alternativa socialista e internacional

Não temos o direito de ser pessimistas. É justamente nos momentos de maior convulsão que o capitalismo mostra o seu verdadeiro carácter. A ofensiva imperialista não é omnipotente, pelo contrário. Ela apresenta contradições e divisões. Apesar das duras derrotas e das enormes debilidades, as forças da classe trabalhadora, dos oprimidos e dos povos que lutam pela sua libertação, seguem vivas e evidenciam-se como cada vez mais. A classe trabalhadora mundial nunca foi, objectivamente, tão grande e, portanto, tão poderosa.

É a imaturidade na organização da luta nacional e internacional da classe trabalhadora e a fragilidade dos socialistas revolucionários que torna o novo momento da luta de classes tão perigoso. Perante a ferocidade dos ataques, a classe trabalhadora, os sectores populares, a juventude e os oprimidos, olham para o lado esquerdo à procura de soluções. Primeiro, encontram o velho reformismo, por dentro ou por fora das organizações tradicionais. Entretanto, a social-democracia clássica, o estalinismo e as variantes de centro-esquerda, os projetos de colaboração de classes, são cada vez mais identificados como parte da ordem neoliberal.

Encontram também os novos magistrados da radicalização que muitas vezes dão voz à revolta e à combatividade. Surgem novas formações que expressam, sobretudo no terreno eleitoral, a polarização social. Entretanto, nos momentos decisivos, os limites reformistas dos programas que defendem não lhes permitem dar uma resposta à altura das crises. A desilusão com a traição do governo de Tsipras (Syriza) na Grécia é um triste testemunho disso. É normal que assim seja. Nenhum trabalhador abandona uma ferramenta antes que se torne imprestável. Os socialistas revolucionários não podem ser ultimatistas. Devem apresentar o seu programa como alternativa e ter a confiança necessária para acompanhar pacientemente as experiências e movimentos dos trabalhadores.

Os choques frontais entre as classes, que se iniciam, tendem a esmagar o centro político, e mesmo os projetos de colaboração de classes, ainda que estes entrem em acção para evitar que isso se dê.

Faz-se, então, mais necessário do que nunca que a esquerda socialista e revolucionária se apresente. Uma delimitação política intransigente com todas as variantes reformistas deve combinar-se com a defesa da maior unidade da classe trabalhadora e dos seus sectores oprimidos. A clareza estratégica e programática não é contraditória com a maior flexibilidade táctica para dialogar com os sectores que são atraídos pelas formações neo-reformistas.

Ao mesmo tempo, todo o nosso esforço internacionalista mais estratégico, em cada um dos países, é o da construção de partidos marxistas revolucionários que batalhem pela reconstrução da IV Internacional, um partido mundial da revolução. Não renegamos a tradição em que nos construímos. Queremos aprender com os erros da corrente trotsquista da qual viemos, mas preservamos a defesa do internacionalismo como o coração do projecto revolucionário. Reconhecemos a existência de um movimento trotsquista internacional, ainda que débil e fragmentado, e com ele queremos dialogar de forma honesta e agregadora. Somos conscientes que a atual dispersão é um perigo fatal, portanto, que o isolamento nacional é uma ameaça dramática. É vital avançar na construção de articulações fraternas para um maior conhecimento mútuo e colaboração militante, o que inclui também setores que não vêm do trotsquismo.

O MAIS (Brasil) e o MAS (Portugal) actuarão, desde já, de forma coordenada, em suas elaborações e acções políticas, na luta estratégica pela reconstrução da IV Internacional. Ao mesmo tempo, não nos colocamos enquanto um novo projeto internacional fechado como outros. Não seremos mais um centro internacional focado na sua própria auto-construção. Somos apenas um polo internacionalista. Queremos um diálogo com as organizações nacionais e correntes internacionais, sem sectarismo nem autoproclamação, na perspectiva de uma agregação estratégica superior.

Maio de 2017


Resposta de Em Luta

Há alternativa revolucionária sem uma Internacional? Uma polémica com o MAS na sua saída da LIT

Durante a revolução portuguesa, ainda no ano de 1974, deu-se o primeiro contacto entre a corrente trotskista de Nahuel Moreno, pertencente à IV Internacional, e os jovens que posteriormente viriam a ser a sua organização portuguesa. A corrente morenista, que se organizou dentro da IV como Fração Bolchevique e posteriormente fundou a LIT-QI, manteve a sua atuação em Portugal por mais de quatro décadas com diferentes nomes e organizações, tendo até recentemente no Movimento Alternativa Socialista (MAS) a sua secção portuguesa.

Em abril de 2017, o MAS enviou à Direção da LIT uma resolução de ruptura, ao informar a decisão do seu CC de suspender as relações com a mesma. Esta decisão partiu do MAS e não da LIT. No entanto, só é possível entendê-la – depois de 43 anos – como parte de um percurso político que este partido vinha construindo há vários anos.

A nível político, vários debates atravessaram a polémica entre o MAS e a Direção da LIT: o impacto do fim dos estados operários no Leste Europeu, como intervir nas eleições, como construir e apresentar o programa, etc.

O Em Luta tem na sua origem os companheiros que, dentro do MAS, deram a batalha por uma outra política e outra relação com a Internacional. Hoje, o Em Luta dá continuidade à construção da LIT em Portugal, tendo-se tornado a sua secção no país.

Unidade de esquerda ou alternativa revolucionária e independente dos trabalhadores?

A nível nacional, travámos debates sobre como nos relacionamos com os partidos reformistas e que alternativa é necessário construir em Portugal. O MAS tinha como central na sua política um chamado permanente à unidade da esquerda e a apresentação como o partido que vinha para unir a esquerda. Para nós, esta política escamoteava os programas e projetos opostos entre os revolucionários e os reformistas, tornando incompreensível para os trabalhadores a necessidade de uma alternativa revolucionária.

No contexto atual, de um Governo Costa (PS) apoiado por BE e PCP, o chamado à unidade de esquerda ganha novos contornos, uma vez que ajuda a minimizar o papel real destas organizações, que permitem que o PS mantenha a austeridade (embora noutros moldes e noutra situação económica), mas agora com uma cobertura de esquerda. Este chamado à unidade esconde a anestesia a que o movimento dos trabalhadores e da juventude está votado pelo PCP e pelo BE, que alimentam a ilusão de que é possível uma saída para o país apoiada nas suas ações no Parlamento.

É esta estratégia que leva hoje o MAS a justificar o apoio do BE e do PCP ao Governo quando diz que “É certo que o BE e PCP moveram-se em direcção ao PS para impedir um novo governo da direita. É justo e entendível.”, dizendo depois que estes deveriam apenas votar as suas medidas boas, mas não o Orçamento. Se é “justo e entendível” unir-se ao PS para derrotar a direita, a única maneira de o fazer era (como sempre evocaram BE e PC) votar o Orçamento para garantir a manutenção do Governo. Por isso, ou se justifica a unidade com o PS para derrotar a direita ou se propõe uma oposição dos trabalhadores ao Governo; não é possível combinar as duas coisas. No momento em que é mais necessário apontar para a construção de um campo independente dos trabalhadores frente ao Governo, quando precisamos da mobilização dos trabalhadores e dos jovens (por oposição ao marasmo imposto por PCP e BE ao movimento sindical e político), a política da unidade de esquerda dificulta a construção de uma alternativa independente e revolucionária para os trabalhadores.

O espaço eleitoral como critério político?

Outra das grandes questões que atravessaram os nossos debates foi a seguinte: qual o critério para participar nas eleições e para eleger as bandeiras políticas?

O legado de experiência histórica que nos foi deixado por Lenine, Trotsky e Moreno aponta para que a participação nas eleições tenha como critérios a apresentação de um programa revolucionário (para o país, região, Europa, etc.) e a construção do partido revolucionário entre os trabalhadores, potenciando e apoiando as mobilizações.

De há alguns anos para cá, o critério que se veio impondo no MAS foi o do “espaço eleitoral”, ou seja, quantidade de votos em detrimento da construção de um programa de resposta às necessidades dos trabalhadores combinada com a melhor localização para o fazer ecoar. Esta política expressou-se no Juntos Podemos e na coligação AGIR. Expressou-se também na escolha das suas bandeiras políticas, não refletindo a resposta às necessidades centrais da classe trabalhadora, mas aquilo que podia ter eco eleitoral; foi o caso da bandeira da corrupção ou do fim dos privilégios dos políticos, que, tendo a sua importância política, não eram as determinantes naquele momento de grandes ataques austeritários. Por outro lado, o chamado à unidade entre as organizações dos trabalhadores para lutar e derrotar a austeridade foi secundarizado.

Alianças ou isolamento internacional?

Estas diferenças políticas expressaram-se nas alianças internacionais que o MAS fez ainda dentro da LIT e que agora promove como as suas novas relações internacionais.

O MAIS, no Brasil, rompeu com o PSTU para se propor a entrar no PSOL, ajudando assim a construir um partido reformista, cada vez mais colado à política de Lula/PT (agora na oposição) e muito similar ao BE, Syrisa e Podemos.

O MAS apoiou, ainda dentro da LIT, a ruptura do MAIS com o PSTU. Este foi um golpe importante contra um dos maiores partidos trotskistas do mundo, que tem um papel central na construção da LIT. Fortaleceu, por isso, aqueles que queriam a unidade com os reformistas, mesmo que isso significasse o enfraquecimento dos revolucionários.

Agora, a direção do MAS decide romper com a LIT sem nenhum projeto de Internacional. Na sua resolução, os camaradas defendem apenas a manutenção de relações com o MAIS do Brasil e a procura de contactos e unidades a nível internacional com quem tenham afinidade programática. O MAS é hoje uma organização isolada internacionalmente. Diz querer estabelecer novas relações internacionais, mas fica-nos a dúvida: quais? Sabemos o que significa a unidade de esquerda do MAS em Portugal e sabemos o que significa a unidade de esquerda do MAIS no Brasil; em ambos os casos, essas unidades favorecem as organizações reformistas e não a construção de alternativas revolucionárias. Sabemos também que a grande maioria da esquerda a nível internacional – mesmo a de origem trotskista, como o SU – tem projetos essencialmente eleitorais e apoia, de forma mais ou menos direta, governos burgueses ditos “progressistas” (que mantêm a austeridade e ataques aos trabalhadores nos seus países) e projetos reformistas de transformação da sociedade. Estas não são, na nossa opinião, as unidades que é necessário construir.

Há alternativa revolucionária sem Internacional?

A tradição trotskista e morenista de que os companheiros do MAS fizeram parte durante várias décadas sempre defendeu que, sem uma Internacional centralizada democraticamente, qualquer direção está condenada ao oportunismo ou ao sectarismo, caindo no nacional-trotskismo. Por isso, Lenine, Trotsky e Moreno chamaram sempre a construir uma nova Internacional quando romperam com as organizações internacionais a que pertenciam: Lenine rompe com a II e chama a construir a III; Trotsky chama a construir a IV e Moreno deu a batalha por uma nova Internacional, que se concretizaria posteriormente no nascimento da LIT. No entanto, os companheiros rompem com a LIT e procuram “relações internacionais”.

Todavia, desde há vários anos que os companheiros do MAS atuavam de forma cada vez mais distante da Internacional, sendo a vida, as campanhas, os materiais e os debates da Internacional, temas pontuais e formais na organização. A elaboração da política da organização deixou de ser feita nos marcos da Internacional, considerando a sua Direção que este debate não ajudava à sua construção política.

Para nós, não basta ter relações internacionais ou pertencer a uma organização internacional sem centralismo democrático. Para nós, tal como para Lenine, Trotsky e Moreno, não é possível construir uma organização nacional revolucionária fora de uma Internacional revolucionária, centralizada democraticamente – ou seja, que atue como um partido mundial (mesmo que débil e frágil) –, que permita resistir às pressões, corrigir os seus erros e avançar. O elemento fundamental desta pertença é a construção da política nacional no marco da Internacional, porque é isso que nos faz ser um partido mundial e não um agregado de várias secções nacionais.

Por isso, fora dos marcos da LIT, e apenas mantendo relações internacionais, o MAS abandona um elemento estrutural da concepção trotskista: não há partido revolucionário nacional sem ser parte de uma Internacional, que, por mais frágil e débil que seja, é sempre superior a uma direção nacional. Esta sua opção fará com que as pressões oportunistas e sectárias sejam ainda mais fortes no seu percurso.

Continuar a construção da LIT em Portugal

O Em Luta nasce a partir dos camaradas que, dentro do MAS, deram a batalha pela necessidade de apresentar uma alternativa revolucionária para o país, no marco da construção da LIT em Portugal.

Acreditamos que, perante o Governo de Costa e o apoio do BE e do PCP ao mesmo, é preciso – mais que nunca – construir uma alternativa à austeridade em Portugal. É preciso um terceiro campo, que seja alternativa à direita e à austeridade maquilhada do PS. É preciso um campo dos trabalhadores e das suas lutas, independentes do Governo e da esquerda (BE e PCP) que o sustenta. Um campo que não se apoie no Parlamento, mas que saia à luta para exigir o fim da austeridade nas empresas, nas escolas, na saúde, na educação. Perante a crise económica que continua, para conseguirmos o mínimo é preciso estarmos dispostos a arrancar o mal pela raiz. E isso só é possível sobre a força dos trabalhadores mobilizados nacional e internacionalmente.

É isso que nos propomos a fazer em Portugal e que a LIT está a construir nos países onde atua, chamando à constituição de um campo independente dos burgueses e imperialistas de direita (como Trump, Le Pen, Passos Coelho, Merkel), mas também das opções ditas “progressistas” e reformistas, mas igualmente pró-burguesas e imperialistas. É um campo dos trabalhadores. Exemplo disso foi a batalha recente pela construção da greve geral no Brasil, que foi desde o início uma luta tomada pela CSP-Conlutas e pelo PSTU, contra a maioria da esquerda (como o MAIS), que a dizia impossível.

Os desafios do tempo presente exigem que tenhamos a capacidade de pôr os nossos ouvidos cada vez mais junto das necessidades e reivindicações prementes dos trabalhadores, dos negros, das mulheres, dos jovens, e menos junto da esquerda parlamentar e dos media que defendem que nunca há espaço e vontade da classe para lutar. Não queremos as unidades que mantenham as ilusões nos Governos e nas mudanças de política dentro do Parlamento; queremos as unidades que fortaleçam a confiança dos trabalhadores, dos jovens e de todos os oprimidos nas suas próprias forças e nas suas lutas, pois é nessa força que se vai forjando a próxima revolução portuguesa; sabemos que as revoluções parecem impossíveis apenas até ao momento em que se tornam inevitáveis, mas sabemos também que só poderemos sair vitoriosos se a Revolução for Internacional e tivermos um partido mundial à altura. É para este grande desafio que pretendemos contribuir em Portugal, com a certeza de que não o encaramos sozinhos, porque o fazemos em conjunto com os camaradas e partidos da LIT, todos os dias, em vários pontos do globo. É esse trabalho coletivo, como uma só organização, que nos torna mais fortes!

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