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Diário Liberdade
Domingo, 13 Maio 2018 11:41 Última modificação em Quinta, 17 Maio 2018 23:35

O Che e a economia mundial

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País: Cuba / Laboral/Economia / Fonte: Resistir

[Rémy Herrera] As investigações quanto ao pensamento de Ernesto Che Guevara sobre a economia são numerosas, mas raras são aquelas que abordam a sua dimensão respeitante à economia mundial [1] .

De facto, este aspecto é frequentemente deixado de lado, relegado a um plano secundário em relação às posições que ele exprimiu a propósito da política internacional e portanto também compreendido – até mesmo manipulado, tanto para opô-lo artificialmente a Fidel Castro como para virá-lo contra a URSS.

O Che não era economista (de formação académica); talvez tenha sido isto que lhe permitiu pensar tomando vias heterodoxas, recolocar em causa verdades estabelecidas em economia, aventurar-se em reflexões originais e corajosas na época. A realidade das suas responsabilidades no seio da direcção da revolução cubana (comandante militar, dirigente do Banco Central, ministro da Indústria, ...) obrigou-o a articular, nesta dimensão internacional, a dimensão nacional das questões estudadas. Seu pensamento sobre a política internacional não pode ser separado daquele sobre a economia mundial.

Comecemos por um ponto crucial: o Che apoia-se, nos seus raciocínios, sobre o aparelho teórico-prático do marxismo-leninismo. Ele era, agrade-se ou não, comunista. Mas ele manifestou muito cedo uma certa inquietação face à insuficiência do socialismo realmente existentes para desenvolver seus próprios mecanismos económicos para reforçar a sua posição na competição que lhe impunha o sistema capitalista, dominante à escala mundial. Ele disse certa vez: "pertenço pela minha formação ideológica ao campo dos que pensam que a solução para os problemas do mundo encontra-se atrás da cortina de ferro". Mas não hesita em criticar a utilização não crítica de relações mercantis e monetárias no quadro das reformas postas em acção na URSS na década de 1960 – como igualmente também o fez Fidel, por exemplo, no seu discurso do 6º aniversário da revolução cubana (1965). É nesta óptica que é preciso interpretar os apelos lançados pelo Che aos países socialistas para apoiarem os países do Terceiro Mundo e para formarem em conjunto uma frente comum, a fim de modificar as relações de forças mundiais em favor do bloco progressista, em particular para fornecer aos países que acederam à independência os meios de disporem de um escudo de protecção face à agressividade do imperialismo.

O Che certamente rejubilava-se com a divisão do sistema mundial – e com o enfraquecimento das posições capitalistas – após o acesso à independência política de países do Terceiro Mundo; mas também se mostrava preocupado frente às grandes dificuldades destes países para consolidar a sua independência política, tão pungente como era a dependência económica em relação às suas antigas potências coloniais. No seu discurso de Argel de Fevereiro de 1965, pronunciado aquando do 2º Seminário Económico Afro-Asiático, o Che declara: "Cada vez que um país se liberta, isto é uma derrota para o sistema imperialista mundial, mas o facto de chegar a arrancar-se deste sistema não pode ser considerado como uma vitória pela simples proclamação da independência, ou mesmo o triunfo de uma revolução pela armas: não há vitória senão quando a dominação imperialista cessa de se exercer sobre um povo".

Compreender isto exige por em interacção as dimensões nacional e internacional, pois a base nacional dos países em causa é o subdesenvolvimento. O Che assim o define: "Um anão com cabeça enorme e o peito estreito é 'subdesenvolvido' no sentido de que as suas pernas fracas e seus braços curtos não são proporcionais ao resto da sua anatomia. O subdesenvolvimento é o produto de um fenómeno teratológico [ou seja, relativo à ciência das anomalias da organização anatómica, congénita e hereditária, dos seres vivos... o Che também era médico!] que distorceu seu desenvolvimento. Eis o que somos, nós que somos qualificados com tanta delicadeza como 'subdesenvolvidos': países coloniais, semi-coloniais e dependentes, países cujas economias foram deformadas pela acção imperial, a qual desenvolve anormalmente ramos industriais e agrícolas em complemento da sua própria economia imperial. O subdesenvolvimento, ou desenvolvimento disforme, implica perigosas especializações no sector das matérias-primas, que mantêm nossos povos sob a ameaça da fome. Nós os "subdesenvolvidos" somos também os países da monocultura, da monoprodução, do mono-mercado".

Portanto o Che não caracteriza somente a realidade sócio-económico dos países do Terceiro Mundo na sua componente interna; ele explica também os factores que condicionam esta situação no plano internacional, na sua componente externa. Estes países são deformados, diz ele, porque são explorados. Isto é uma contribuição teórica, em relação ao corpus da economia do desenvolvimento dos anos 1950. Mas é também, num certo sentido, um avanço em relação ao próprio Marx, na medida em que, por longo tempo, Marx e Engels acreditaram que a expansão mundial do sistema capitalista, irremediável, conduziria a homogeneizar o mundo, para nele generalizar a esta escala global a oposição de classes burguesas / proletárias, ou seja, o antagonismo fundamental. Ainda que Marx e Engels tenham, em certos casos, tentando articular exploração de classes e dominação de nação a nação. Ao insistir sobre esta dominação internacional o Che é pois, neste sentido, muito leninista.

Segundo a definição do subdesenvolvimento que ele propõe, as economias do Terceiro Mundo não são apenas deformadas – caso em que diversas soluções poderiam então ser encontradas. O que é mais grave é que estas economias são dependentes e que a sua dominação do exterior determina a reprodução das condições que engendram e explicam o subdesenvolvimento. De facto, este subdesenvolvimento não é senão a forma distorcida que toma no Sul o desenvolvimento nos países capitalistas do Norte. A natureza do sistema capitalista é portanto contraditória: este sistema produz no mesmo movimento desenvolvimento num pólo e subdesenvolvimento no outro pólo. Para o Che, era preciso em consequência insistir sobre a necessidade da independência económica dos países do Sul como meio de impedir a sua recolonização económica ou neo-colonização pelo Norte.

Mas é preciso compreender os mecanismos específicos do neocolonialismo, que sabe reconhecer a independência de Estados, formais, permanecendo dependentes. Numa conferência de 20 de Março de 1960 para a "Universidade Popular", em Cuba, o Che diz: "Os conceitos de soberania política e nacional permanecem ficções se nã se produz também a independência económica". Ele percebe a importância maior da contribuição dos países socialistas ao esforço dos países do Terceiro Mundo para atingir esta independência económica. É isto que o leva a dizer: "O desenvolvimento dos países subdesenvolvidos deve custas aos países socialistas...". Esta citação é frequentemente apresentada, mas truncada, e sobretudo desviada com a intenção de apresentar um Che oposto aos países socialistas da época, hostil à URSS. De facto, insiste ele, pouco tempo depois, sobre a responsabilidade que cabe também aos países do Terceiro Mundo de chegar à independência económica e contribuir para consolidar as forças revolucionárias, acrescentando: "... mas estes países subdesenvolvidos devem também mobilizar-se e empenhar-se resolutamente no caminho da construção de uma sociedade nova. Não seria possível ganhar a confiança dos países socialistas tentando encontrar um equilíbrio entre capitalismo e socialismo, utilizar estas duas forças em contrapeso uma da outra para extrair algumas vantagens da sua colocação em concorrência". Eis o que também está claro desde o princípio da citação – ainda que esta clareza perturbe alguns...

Ele também analisa os instrumentos utilizados pelo imperialismo para submeter e explorar estes países do Terceiro Mundo e sublinha o papel dos investimentos estrangeiros na tomada de controle dos recursos naturais do Sul, ou o da troca desigual no comércio mundial. Assim, pode ser considerado precursor das ideias terceiro-mundistas de defesa da soberania do Sul sobre suas actividades económicas – reivindicação que se generalizou a seguir, nos anos 1970. Ele põe igualmente ênfase no problema da dívida externa, no princípio da década de 1960, antecipando a crise que explodirá 20 anos mais tarde. Isto é uma outra contribuição do Che.

Aquando da 1ª reunião do CNUCED , em 1964 em Genebra, denuncia os princípios – fictícios segundo ele – da igualdade formal entre países, da reciprocidade nas relações comerciais, assim como a injustiça da ordem económica mundial, cuja transformação exige. Propõe estabelecer uma ligação entre preços das matérias-primas e pagamentos de dividendos e de juros que antecipa a ideia da indexação dos preços das matérias-primas sobre os dos produtos manufacturados, que a CNUCED em breve iria promover.

A chave do raciocínio de Ernesto Guevara é a identificação entre luta contra o subdesenvolvimento, luta contra o imperialismo e luta contra a ordem mundial tal como ela é. Segundo ele, a ultrapassagem do subdesenvolvimento não pode ser separada do anti-imperialismo, pois o imperialismo é o obstáculo que reproduz a dependência do Sul. Mas, ao mesmo tempo, não se pode lutar contra o imperialismo sem quebrar, concretamente, os instrumentos de exercício do seu poder. Eis porque ele apela a uma "nova ordem mundial" e – para chegar a esta transformação – a uma unidade do Terceiro Mundo. Em Argel, em 1965, declara: "Se o inimigo imperialista estado-unidense ou não importa qual outro, prossegue sua acção contra as nações subdesenvolvidas e os países socialistas, uma lógica elementar exige a necessidade da aliança dos povos subdesenvolvidos e dos países socialistas". E portanto, "se não houvesse outro factor de união, o inimigo comum deveria constituir um".

Chegamos agora a um ponto delicado, que é preciso abordar para afastar um mal-entendido. A importância que o Che concedeu às relações Norte-Sul levou alguns comentadores a leituras erróneas do seu pensamento; como quando se fez acreditar que, segundo ele, a verdadeira contradição não residiria entre capitalismo e socialismo, mas entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. É preciso entender que, se o Che sublinhou muitas vezes o papel determinante das relações Norte-Sul, ele não fez desaparecer com isso as relações de classes. Já o disse: o Che era comunista, marxista-leninista. Seus escritos e discursos tendem todos para o objectivo do advento do socialismo mundial. Nisto, ele é muito marxista. Pois é difícil, senão impossível, apreender o pensamento de Marx, político mas também teórico, sem o conectar sistematicamente a esta convicção da vitória mundial do socialismo.

Mas o Che põe os países socialistas diante da sua responsabilidade. Ele estava consciente da exigência de consolidar as posições do socialismo mundial e critica as acções que corriam o risco de afastar os países subdesenvolvidos do socialismo. Ele fala mesmo de troca desigual entre países socialista e Terceiro Mundo, assim: "Se estabelecemos este género de relações [de troca desigual] entre estes dois conjuntos de países, deveremos convir que os países socialistas são, de uma certa maneira, cúmplices da exploração imperial. Pode-se argumentar que o montante das trocas com países subdesenvolvidos representa uma parte insignificante do comércio exterior destes países. Isto é perfeitamente verdadeiro, mas não elimina o carácter imoral da troca". E a concluir: "Os países socialistas têm o dever moral de liquidar toda cumplicidade com os países exploradores ocidentais". Era corajoso. Mas isso não faz do Che, longe disso, um inimigo da URSS. Pois isto não foi a realidade. O Che não é mais complacente, ou menos crítico, em relação aos países do Terceiro Mundo, aos quais se dirige para que liquidem sobre seus territórios as ferramentas de exercício do poder efectivo do imperialismo e para que decidem "empenhar-se resolutamente no caminho da construção" do socialismo. A tarefa histórica dos povos do Sul consiste pois em eliminar as bases do imperialismo nos seus países, ou seja, todas as fontes de lucros, de extracção de matérias-primas ou de abertura dos mercados.

Para o Che, o inimigo é o imperialismo, considerado em simultâneo como um sistema mundial – assim como ele o diz na sua mensagem à Tricontinental: "O imperialismo é um sistema mundial, última etapa do capitalismo, que se trata de vencer por uma grande confrontação mundial", e como sistema dinâmico, adaptando-se às condições cambiantes do mundo e utilizando ferramentas sempre inovadoras a fim de atingir seus objectivos de destruição dos países do Sul – é o que declara na conferência da Organização dos Estados Americanos de 1961. Daí a sua estratégia revolucionária: a luta dos povos deve ser multidimensional, global, longa, mobilizar todos os países explorados pelo imperialismo, posicionar-se sobre todos os terrenos. Os imperialismo, o estado-unidense primeiro, é o inimigo comum da humanidade e, frente a ele, os países socialistas e os progressistas devem-se unir, quaisquer que sejam suas divergências pontuais. Tais divergências são uma fraqueza mas, sob os golpes do imperialismo, a união impor-se-á.

Cinquenta anos se passaram desde a morte do Che. O mundo mudou enormemente desde então, mas o essencial do seu pensamento sobre a economia mundial conserva, creio, sua actualidade e pertinência.
[1] Citamos aqui, além da Obras Escogidas do próprio Che, editadas pelas Ediciones Ciencias Sociales (Havana), os trabalhos do grande economista cubano Silvio Baro, ao qual o presente artigo muito deve e que lhe é dedicado.

[*] Investigador do CNRS, Centre d'Économie de la Sorbonne

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