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Diário Liberdade
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Terça, 30 Outubro 2018 13:39 Última modificação em Terça, 06 Novembro 2018 01:15

Crítica ao pensamento descolonial (I) Destaque

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/ Batalha de ideias

[Cristian Sima Guerra, traduçom do Diário Liberdade] Primeira entrega: o pensamento descolonial, os seus fundamentos e a sua rejeiçom ao “pensamento ocidental”.

O pensamento descolonial é umha teoria -difusa e heterogénea- que tenciona romper com o etnocentrismo ocidental que emana da dominaçom imperialista que o Ocidente exerce sobre os outros povos do mundo. Deste modo, os pensadores que se vinculam à perspetiva descolonial, consideram que, para recusar o colonialismo de forma sincera, devem ser recusados todos os aspetos da dominaçom colonial que, ao seu juízo, som fundamentalmente três:

1. O racismo (a “colonialidade” do poder).

2. O eurocentrismo epistémico (a “colonialidade” do saber).

3. E a imposiçom do modelo ocidental de sociedade, cultura, etc a todos os povos do mundo (a “colonialiade” cultural ou do ser).

Estes aspetos, vistos a priori, som críticas legítimas ao colonialismo. No entanto, no pensamento descolonial -e também nos estudos pós-coloniais- apresentam alguns problemas que merecem ser criticados. Pois os descoloniais, ao recusarem o eurocentrismo epistémico, também recusam aquelas propostas que, apesar de terem surgido parcial ou totalmente na Europa, tenhem validade universal. Segundo o olhar descolonial: nom se trata de conhecimento universal, mas de um conhecimento “europeu” ou “branco” que, embora só seja válido para a realidade europeia, se impom ao resto do mundo, graças ao poder económico e político que o Ocidente possui.

A explicaçom deste fenómeno no pensamento descolonial é a seguinte: A Europa, através do colonialismo, impujo a sua forma de pensar e compreender a realidade, o método científico, aos outros povos, destruindo essas outras formas de saber e deixando claro que a única maneira válida é a que os poderes dominantes na Europa reconhecem como tal. Em conseqüência, todos os conhecimentos de “os povos sem história” que nom se baseassem no critério “europeu” seriam classificados como inválidos e acientíficos. Portanto, na perspetiva descolonial, o conhecimento é umha questom política, sendo este é reduzido a poder, pois só é considerado conhecimento válido aquilo que os centros de poder europeus certificarem e transladarem aos outros povos como sendo tal. Como vemos, os povos “nom europeus” ou “nom ocidentais” som, deste modo, excluídos da produçom de (o seu próprio) conhecimento sob os seus próprios critérios, agora considerados polas autoridades europeias como supersticiosos, acientíficos, inválidos, etc.

Nesta reflexom encontramos dous problemas: 1) Reduz-se o método científico à Europa, quando é bem sabido que a ciência tivo importantíssimos contributos de pessoas nom ocidentais; 2) Reduz-se o conhecimento exclusivamente a Poder, como se o método empregado para o certificar fosse essencialmente político.

De facto, no olhar descolonial há umha posiçom favorável a que “os povos originários nom ocidentais” abandonem a ciência, pois a aceitaçom da mesma foi produto do que denominam “epistemicídio”.

Outra das características das teorias descoloniais é que, ao combaterem e recusarem a “filosofia ocidental” ou “branca”, recusam o pensamento binário que atribuem à mesma e do qual, segundo defendem, emanam as diferentes opressons. Quanto a isso, cabe realizar algumhas observaçons:

1. Nom parece razoável pensar que o pensamento binário é único e exclusivo do Ocidente, quando sabemos que “as ideias binaristas mais veneráveis e arreigadas se encontram no Oriente, sendo o caso mais antigo conhecido o dos oito trigramas bā guà [八卦], utilizados em escolas de Feng Shui, as quais remontam provavelmente ao neolítico chinês (Martzloff, 2006). Também foi explicitamente binária a prosódia do Chandahsūtra de Piṅgala na Índia (datada entre os séculos V e II ADNE); conquanto lhe seja tribuída a invençom do zero, Piṅgala nom utilizou zeros e uns, mas um contraste entre sílabas curtas e longas, para elaborar a sua combinatória de poesia e matemática, prefigurando com exatidom a lógica do código Morse. Um outro caso relevante é o do oráculo Ifá dos Yoruba, do qual se especula que talvez seja mais antigo ainda” (Carlos Reynoso (2013). Árboles y redes: crítica al pensamiento rizomático, páginas 14-15).

2. Dificilmente podemos afirmar que as opressons emanam do pensamento. Receio que as origens das opressons haja que as procurar na realidade material, da qual surge depois todo um sistema de pensamento, cultural, etc. que as legitima. Dizer que as opressons surgem do pensamento é simplesmente regressar ao idealismo.

3. O pensamento binário nom só pode ser vinculado à opressom, como também aos movimentos libertadores. Assi, quando a partir de postulados de esquerda se defendem certos binarismos, nom se estám a justificar opressons, e si a criticá-las (exemplos: proletariado vs burguesia ou colónia vs metrópole).

4. No pensamento descolonial, a sua rejeiçom ao binarismo é simplesmente declaratório, já que nas suas próprias propostas encontramos múltiplos binarismos bem arraigados, como “Oriente vs Ocidente” ou “o norte vs o sul global” ou, como ocorre com tanta frequência nas suas reflexons sobre racismo, “brancos vs pessoas racializadas”. Como assinalaria o teórico jamaicano Stuart Hall: “As noçons que com muita freqüência se acha que desafiam o binarismo estável das estruturas de poder dominantes nom som fugidas das organizaçons binárias de poder assimétrico ou soluçons a elas, sendo realmente produtos da lógica disjuntiva que introduzírom a colonizaçom, a escravatura e a modernidade.”

Assi, os descoloniais som também muito críticos com o marxismo, pois apesar de ser umha ideologia radical e revolucionária, consideram que o marxismo nom deixa de ser (mais umha vez) pensamento europeu e branco, certificado pola Europa e imposto a partir desta às sociedades dos “povos sem história” (indígenas, asiáticos, etc.) cujas realidades, saberes, especificidades culturais e políticas, etc. som muito diferentes. Por isso, afirmam, estas sociedades requerem doutro pensamento revolucionário, que se ajuste a essas realidades concretas. Assi expressa Ramón Grosfoguel esta crítica ao marxismo:

“No entanto, o que vai perdurar como contributo mais permanente do cartesianismo até hoje em dia é a filosofia sem rosto do ponto zero que será assumida polas ciências humanas a partir do século XIX como a epistemologia da neutralidade axiológica e a objetividade empírica do sujeito que produz conhecimento científico. Ainda quando algumhas correntes como a psicanálise e o marxismo questione estas premissas, ainda os marxistas e psicanalistas produzem conhecimento a partir do ponto zero, isto é, sem questionarem o local de onde falam e produzem conhecimento” (Ramón Grosfoguel (2008). Para un pluri-versalismo transmoderno decolonial. Página 4).

Dito de outro modo, o marxismo, ainda sendo revolucionário, produz “conhecimento” a partir de umha posiçom de poder determinada e, por consequência, pode impor-se aos demais povos por causa de que se gestou na Europa. Além disso, é, segundo Grosfoguel, falso (e impossível) produzir um conhecimento realmente válido e alheio ao poder, já que todo o conhecimento se produz a partir de umha posiçom de poder determinada. Assi expressa a impossibilidade de produzir conhecimento alheio ao poder quando fala da “filosofia ocidental”:

“Trata-se entom de umha filosofia em que o sujeito epistémico nom tem sexualidade, género, etnia, raça, classe, espiritualidade, língua, nem localizaçom epistémica em nengumha relaçom de poder e produz a verdade a partir de um monólogo interior consigo mesmo sem relaçom com ninguém fora de si. Isto é, trata-se de umha filosofia surda, sem rosto e sem força de gravidade. O sujeito sem rosto flutua polos céus sem ser determinado por nada nem por ninguém.”
[...]

De maneira que o mito dualista e solipsista de um sujeito auto-gerado sem localizaçom espaço-temporal nas relaçons de poder mundial inaugura o mito epistemológico da modernidade eurocentrada de um sujeito autogerado que tem acesso à verdade universal para além do espaço e o tempo por meio de um monólogo, isto é, através de umha surdez perante o mundo e por meio de apagar o rosto do sujeito de enunciaçom, isto é, através de umha cegueira perante a sua própria localizaçom espacial e corporal na cartografia de poder mundial (Ramón Grosfoguel (2008). Para un pluri-versalismo transmoderno decolonial. Página 4).

E, como comentávamos, o marxismo, ainda sendo crítico com o poder capitalista na Europa, emana de um “universalismo” eurocêntrico, machista, branco, etc:

“Marx pensa a partir da situaçom histórico-social do proletariado europeu. Daí propom um desenho global/universal como soluçom aos problemas de toda a humanidade: o comunismo. O que Marx mantém em comum com a tradiçom filosófica ocidental é que a sua universalismo, apesar de surgir de umha localizaçom particular, neste caso o proletariado, nom problematiza o facto de que dito sujeito seja europeu, masculino, heterossexual, branco, judeu-cristao, etc." (Ramón Grosfoguel (2008). Para un pluri-versalismo transmoderno decolonial. Página 9).

Mas os pensadores descoloniais, numha demonstraçom de um autêntico desconhecimento do marxismo, vam ainda mais além e chamam ao marxismo de projeto imperialista e racista:

“Marx participa do racismo epistémico no qual somente existe umha só epistemologia com capacidade de universalidade e esta só pode ser a tradiçom ocidental. Em Marx, no universalismo epistémico de segundo tipo, o sujeito de enunciaçom fica oculto, camuflado, escondido sob um novo universal abstrato que já nom é «o homem», «o sujeito trascendental», «o eu», mas «o proletariado» e o seu projeto político universal é «o comunismo». Daí que o projeto comunista no século XX fosse a partir da esquerda um outro desenho global imperial/colonial que sob o império soviético tentou exportar ao resto do mundo o universal abstrato do «comunismo» como «a soluçom» aos problemas planetários” (Ramón Grosfoguel (2008). Para un pluri-versalismo transmoderno decolonial. Página 9).

A base do olhar descolonial para concluir que o marxismo nom é universalmente válido parte da ideia de que as categorias ocidentais (nas quais acrescentam as desenvolvidas polo marxismo, como vimos) nom podem ser aplicadas a sociedades nom ocidentais. De facto, estas sociedades precisariam das suas próprias categorias analíticas que, além disso, devem ser criadas “a partir de baixo”. A esta tese, este grupo de autores e autoras, denominam-na “descolonizar o pensamento”, que consiste precisamente em abandonar o pensamento e o conhecimento “colonialista europeu” (epistemología ocidental) e autocentrar-se num pensamento e conhecimento próprios.

Os pensadores descoloniais consideram que as categorias ocidentais só poderiam chegar a ser válidas se a sociedade capitalista ocidental conseguisse universalizarse totalmente e conseguisse abranger todos os aspetos sociais, políticos, económicos, culturais e psicológicos das diferentes sociedades, algo que é -do meu ponto de vista- completamente impossível (sobre isso farei alguns comentários mais tarde). Em conseqüência, as categorias marxistas nom seriam válidas para as sociedades nom europeias. Além disso, consideram que o marxismo colabora também do imperialismo e do racismo epistemológico e, na sua perspetiva, a URSS foi um império racista que impunha pola força o socialismo a povos que na realidade requeriam de umha outra soluçom. Esta outra soluçom, assinalam os descoloniais, passa pola descolonizaçom (política, económica, cultural e epistemológica) desses povos oprimidos pola Europa e pola superaçom do racismo. Para justificar esta tese, apelam a Frantz Fanon.

Como adiantava antes, realizarei algumas apreciaçons ou comentários sobre as categorias ocidentais e a universalizaçom do capitalismo:

1. É erróneo pensar -como durante muito tempo se fijo- que a universalizaçom do sistema económico capitalista requer de homogeneizaçom cultural dos povos (“a colonialidade do ser”). Já diferentes pensadores, como Zizek, pugérom de relevo como o capitalismo nom só produz determinadas transformaçons culturais nos povos em que penetra, como determinados aspetos das culturas de tais povos ficam mais ou menos intactos e som introduzidos na lógica do capital.

2. Os descoloniais som incapazes de compreender os diferentes níveis de conceitualizaçom de, neste caso, o marxismo. Para qualquer marxista, a chave nom é que as categorias abstratas e universalizantes se vejam refletidas tal e qual na realidade concreta, algo que si pensam e proponhem os descoloniais. O seu raciocínio vem ser assim: o marxismo, ao igual que o resto da “filosofia branca” ou “ocidental”, fundamenta-se em categorias abstratas que, se as levarmos às realidades do “sul global” ou de “Oriente”, vemos que nom descrevem exatamente a situaçom, já que nom se veem iguais. Isso se deve a que nos povos nom ocidentais os capitalistas mantenhem umhas crenças espirituais fortes, ou que os trabalhadores vestem com roupas vinculadas à sua tradiçom e identidade específicas, aspetos que o marxismo nunca valorizou na hora de desenvolver categorias como «classe», «Estado», «capital», etc.

Assi, o olhar descolonial conclui que as categorias “ocidentais” do marxismo nom servem para explicar a realidade destas sociedades orientais ou do sul. Mas este raciocínio é erróneo, já que para comprovar as categorias do marxismo nom serve para nada descrever a forma em que se vestem os operários ou se rezam muito, pouco, a quem ou quem, etc. A chave para validar as categorias marxistas -como classe social- é ver se os agentes que introduzimos nelas se comportam consoante os impulsos que as estruturas do capitalismo imponhem. Dito doutra forma: para determinarmos se a categoria “ocidental” de “classe operária” é adequada ou nom, nom serve de nada divagar sobre como o operário veste, sendo que o adequado consistiria em verificar se está submetido a relaçons sociais de produçom salariais; do mesmo modo que pouco importa quanto reze o capitalista, desde que se mova pola lógica da acumulaçom do lucro através da obtençom do mais-valor da classe que explora.

3. Em conclusom: a univeralizaçom ou mundializaçom do capitalismo consiste na penetraçom total e absoluta da lógica mercantil e da exploraçom a escala planetária, por muitas diferenças sociais, espirituais, culturais e políticas que puderem existir entre os diversos povos do mundo, às quais, de resto, o capitalismo costuma se adaptar com facilidade. De modo que, se a lógica da economia capitalista é já internacional, também som as categorias marxistas que analisam, descrevem e mostram a sua lógica de funcionamento (adaptadas sempre à “análise concreta da situaçom concreta”).

Na próxima entrega, falaremos do que realmente propom o marxismo para compreender a que ponto se está a mentir sobre o mesmo a partir dos postulados descoloniais.

Lê aqui a segunda parte deste texto > Crítica ao pensamento descolonial (II): O pensamento descolonial e a falsificaçom do marxismo

Fonte: El País Canário

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