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Sexta, 01 Novembro 2019 18:40 Última modificação em Sexta, 01 Novembro 2019 18:44

Lendo Marx no dia das bruxas

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/ Batalha de ideias / Fonte: Jacobin

[Mark Steven Tradução Everton Lourenço] A vida no capitalismo é uma experiência de horror – e não há melhor guia sobre isso do que Karl Marx para entender o porquê.

Como o antagonismo aparentemente onipotente de qualquer filme de terror, o capitalismo não é apenas horrível: ele apavora por ser aparentemente imparável.

“O mundo desembestado”, argumenta Chris Harman em um livro sobre o capitalismo zumbi, “é o sistema econômico como Marx o descreveu, o monstro de Frankenstein que escapou do controle humano; o vampiro que suga a força vital dos corpos vivos de que se alimenta ”.

Esse diagnóstico suscita a grande questão: como podemos nos orientar politicamente dentro de uma dinâmica social cuja própria essência é o horror?

O próprio Karl Marx se fez essa pergunta – ele, cujos escritos transbordam de metáforas e figuras nascidas no gótico, e que valem a pena revisitarmos no Halloween.

“O Capital”, nos diz Marx, “é trabalho morto que, feito um vampiro, só pode viver sugando o trabalho vivo – e que quanto mais trabalho suga, mais vive. O tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou dele”. Ou, em uma formulação mais grotesca:

O capital dado em troca da força de trabalho é convertido em bens de necessidade, cujo consumo é o meio pelo qual os músculos, nervos, ossos e cérebros dos trabalhadores existentes são reproduzidos e os novos trabalhadores são gerados.

Esses dois trechos, ambos retirados do único livro publicado que o próprio Marx chegou a concluir, soam mais como Mary Shelley do que um trabalho de economia política, invocando vampiros predadores, monstros mortos-vivos e corpos desmembrados.

Tanto Drácula quanto Frankenstein já foram lidos como contos sobre o capitalismo. O vampiro é, é claro, um capitalista com uma pulsão infernal pela expansão imperial:

Havia um sorriso zombeteiro no rosto inchado, que parecia me levar à loucura. Era esse o ser que eu estava ajudando a transferir para Londres, onde ele poderia, entre seus milhões, e talvez pelos séculos vindouros, saciar sua sede de sangue e criar um novo e crescente círculo de semi-demônios que se empanturarrão dos desamparados. O próprio pensamento me deixava louco. Um desejo terrível recaiu sobre mim de livrar o mundo de tal monstro.

O monstro de Frankenstein, por outro lado, é a personificação zumbificada da retribuição proletária:

Tudo, exceto eu, estava em repouso ou prazer: eu, como o arqui-demônio, sofria um inferno dentro de mim; e, descobrindo-me insatisfeito, desejava rasgar as árvores, espalhar caos e destruição ao meu redor, e depois me sentar e desfrutar a ruína.

Mas, diferentemente dos romances de Stoker e Shelley, o relato de Marx não é apenas gótico. Suas descrições de um modo de produção encharcado de sangue e em carne viva são prenúncios do horror como o vemos no cinema mais recente. O que falta nessas descrições no sentido da moralidade compartilhada pelos romancistas góticos, elas compensam em uma fria racionalidade.

Os horrores para Marx são irremediáveis e absolutos. Quando ele insiste que o capitalismo é o modo de produção que “escorre da cabeça aos pés, a partir de todos os poros, com sangue e imundície”, ele se compromete, como escritor talentoso e mestre no estilo, a transmitir especificamente esse tipo de horror.

Em outras partes de O Capital, quando a imagem do vampiro retorna, a ênfase narrativa muda do predador burguês para o trabalhador explorado e, especificamente, para o seu corpo obliterado:

Deve-se reconhecer que nosso trabalhador sai do processo de produção diferente daquele que entrou. No mercado, ele permanecia como proprietário da mercadoria “força de trabalho” frente a frente com outros proprietários de mercadorias, negociante contra negociante. O contrato pelo qual ele vendeu ao capitalista sua força de trabalho provava, por assim dizer, em preto no branco, que ele se desfazia de si mesmo livremente. Concluída a barganha, se descobre que ele não era um “agente livre”, que o tempo pelo qual ele está livre para vender sua força de trabalho é o tempo pelo qual ele é forçado a vendê-la; que na verdade o vampiro não afrouxará seu domínio sobre ele “enquanto houver um músculo, um nervo, uma gota de sangue a ser explorada”.

O vampiro se revela apenas quando já é tarde demais, quando a fachada de sutilezas legais acaba se mostrando um pacto maligno, digno de Fausto, inescapável até a morte de qualquer das partes.

Estilisticamente importante é o material citado no final, extraído de uma descrição feita em outro lugar por Friedrich Engels. A citação de Engels confirma que a substância orgânica do capital, sua própria força vital expropriada, é o interior do trabalhador.

Embora Marx frequentemente beba das imagens claramente góticas de vampiros e lobisomens, espectros e coveiros, aqui podemos ver que seus relatos sobre o capital também adquirem um gosto por vísceras humanas, com frases mascando e abrindo caminho pelas cartilagens corporais:

Podemos dizer que o valor excedente repousa sobre uma base natural, mas apenas no sentido muito geral de que não há obstáculo natural que impeça absolutamente um homem de tirar de suas costas os requisito de trabalho necessários para sua própria existência e sobrecarregar outro homem com eles – não mais do que, por exemplo, obstáculos naturais invencíveis impedem um homem de comer a carne de outro.

Como Marx bem sabia, a acumulação capitalista é um crime cujo análogo mais óbvio é o canibalismo. Nascidos para as relações de salário, não somos sujeitos humanos; somos apenas nossa capacidade de trabalhar, o que significa servir nossos diversos órgãos musculares, nervosos e cerebrais – e consumir os de nossos amigos e familiares, bem como os de completos estranhos.

Descrições góticas como essas não são meramente decorativas. Em vez disso, elas chegam à própria essência da vida sob o capitalismo. Elas nos lembram como corpos e cérebros são mutilados em mercadorias. Literalmente, precisamos apenas pensar nas deformações, lesões e fatalidades causadas por condições de trabalho tensas em todos os níveis da indústria capitalista, desde traumas neurológicos a ataques cardíacos, ossos quebrados, membros amputados e mortes em massa.

De maneira figurativa, cada minuto e cada hora gastos no trabalho assalariado é outro minuto e outra hora em que nossos corpos são conectados a uma vasta máquina que só vive por meio da drenagem de nossas substâncias vitais.

A vida sob o capitalismo é a experiência do horror, a liquefação irreversível da substância humana e seu consumo necrofágico. Como o destino cruel das vítimas em qualquer filme de terror, cujos corpos são obliterados para além de qualquer reconhecimento e tão frequentemente ingeridos por outros seres humanos, uma vez que nosso trabalho sucumbe ao valor, essa transformação é totalmente irreparável. Assim reflete o poeta Keston Sutherland em um ensaio brilhantemente nauseante sobre o jargão de Marx: “Tudo o que é carne derrete em osso e vice-versa; e nenhum esforço de escrutínio, vontade ou de imaginação fervilhante, por mais poderosamente analítica ou moral que seja, é capaz de reverter o processo industrial dessa deliquescência. ”

A lição pode ser colocada da seguinte maneira: todos nós habitamos a mesma história de terror e todos devemos ficar intensamente revoltados com isso. Mas, mesmo que não possamos desfazer o que já foi feito, essa repulsa ainda pode ser um catalisador para a revolução. Talvez seja isso que Marx estava tentando nos ensinar o tempo todo, com sua marca única de horror gótico.

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