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Sexta, 27 Maio 2016 16:05

Governo de Barack Obama disfarça apoio ao golpe contra Dilma Rousseff

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País: Brasil / Institucional / Fonte: RBA

[Eduardo Maretti] Para Analúcia Danilevicz Pereira, da UFRGS, não há dúvida de que os Estados Unidos encaram impeachment de forma positiva, mas Casa Branca vai "tratar a questão com muita reserva e cautela"

A segunda manifestação de um representante do governo dos Estados Unidos sobre o processo de impeachment de Dilma Rousseff no Brasil não deixa margem a dúvidas. Para Washington, o governo interino de Michel Temer é bem-vindo. Na ausência das esperadas declarações do presidente Barack Obama, desta vez coube ao porta-voz do Departamento de Estado, Mark Toner, se pronunciar, durante entrevista coletiva na terça-feira (24), quando foi perguntado sobre o golpe no Brasil e as gravações que derrubaram o recém-empossado e já ex-ministro do Planejamento Romero Jucá, do PMDB.

"Dissemos múltiplas vezes que acreditamos que os processos democráticos e as instituições democráticas do Brasil são estáveis o bastante para suportar esta crise política”, disse Toner. Perguntado se não seria o momento de “considerar que o que aconteceu no Brasil pode ter sido um golpe sem sangue ou um golpe brando”, o porta-voz Toner recomendou ao repórter “que fale com eles (os brasileiros) sobre esses processos".

Para Analúcia Danilevicz Pereira, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a leitura é clara. “A posição que o Brasil vinha adotando (nos governos Lula e Dilma), de certa autonomia, principalmente em relação aos Estados Unidos, era incômoda. Eu não tenho dúvida de que eles encaram essa mudança política de forma positiva. Só que vão ter cuidado em não deixar tão evidente que a mudança é importante para seus interesses na região”, diz.

As declarações cuidadosas dos representantes de Washington se iniciaram logo após a instalação do governo interino, quando o embaixador dos Estados Unidos na Organização dos Estados Americanos (OEA), Michael Fitzpatrick, se pronunciou com o mesmo tom de apoio discreto ao golpe no Brasil. “Nós não acreditamos que isso seja um exemplo de um 'golpe brando' ou, para esse efeito, um golpe de qualquer tipo”, disse Fitzpatrick no dia 12.

Em artigo publicado na versão em inglês da agência Sputnik, o jornalista Pepe Escobar cria um neologismo e usa uma ironia para dizer que “a mensagem (do governo americano) é inequívoca: golpeachment é legal, e Washington confia nas ‘instituições democráticas’ brasileiras”. “Washington não teve a coragem de fazê-lo (reconhecer oficialmente o governo Temer) diretamente - contando com asseclas, como o porta-voz do Departamento de Estado e o embaixador interino para a OEA", escreveu Escobar.

Para Analúcia, a questão brasileira deve ser enquadrada no painel mais amplo da América Latina, que está rapidamente dando uma guinada e se voltando a uma nova, ou velha, política. Do ponto de vista geopolítico, a mudança é operada em três países estratégicos. “Está se estabelecendo um certo padrão na América Latina que vai moldando novamente governos liberais. É o que acontece no Brasil. Ou na Venezuela, que é uma questão permanente. E já houve uma mudança na Argentina (no caso, via eleição, que levou Mauricio Macri ao poder). Mas, repito, eles vão tratar a questão com muita reserva e cautela, até porque outros países têm se aproximado da América Latina de forma muito contundente, a exemplo da China.”

No mês passado, Analúcia falou à RBA sobre a suposta interferência direta do establishment dos Estados Unidos no golpe então em marcha no Brasil. “Evidências realmente concretas nós não temos. Mas temos ações que indicam o interesse muito claro em uma mudança de poder no Brasil. Já um tempo atrás, houve denúncias que vazaram pelo Wikileaks sobre espionagem em uma das principais empresas brasileiras, a Petrobras. Logo em seguida, inicia-se um processo de denúncias em torno das atividades dentro da empresa e o próprio monitoramento da presidente da República", lembrou.

A guinada no Brasil poderá mudar a percepção que a comunidade internacional terá do país, com resultados ainda difíceis de prever. “Esse governo (de Michel Temer) manifesta a pretensão de dar prioridade a parceiros que possam estabelecer relações estritamente comerciais. A ideia de que o Brasil vai usar a diplomacia apenas para fazer negócios pega muito mal diante da necessidade de os países produzirem concertações políticas e discutir questões de interesse comum”, avalia Analúcia.

“O Brasil vinha participando dessas concertações político-diplomáticas, se empenhando em dialogar com o maior número de países possível. Com o retorno à ideia de que a diplomacia serve para fazer negócio, acredito que isso pode criar constrangimentos”, acrescenta.

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