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Diário Liberdade
Quinta, 09 Março 2017 04:51 Última modificação em Sábado, 18 Março 2017 13:29

Cinema, literatura e memória: O Lápis do Carpinteiro, de Manuel Rivas Destaque

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País: Galiza / Língua/Educaçom, Batalha de ideias / Fonte: Diário Liberdade

[Rodrigo Moura] A literatura, o cinema e outros tipos de arte tiveram uma importância inimaginável no que tange ao processo de reconstrução da identidade e da memória galega, posto que através desses tipos de manifestações artísticas foi possível manter viva toda a cultura e história galega que durante muito tempo sofreu com a repressão e a censura do governo espanhol. Numa sociedade em que a fragmentação está em destaque, o retorno, o repensar uma cultura se torna algo de extrema importância. O medo e o terror aparecem também como memória e serve como auxílio para o não esquecimento de uma parte obscura da História de Galiza. Zygmunt Bauman em "O medo Líquido" (2008) discorre sobre a criação de novas realidades tanto nas artes quanto na vida real, sendo, portanto, uma parte importante da reconstrução da identidade de um povo:

"O medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivos claros, quando nos assombra sem que haja uma explicação visível, quando a ameaça que devemos temer pode ser vislumbrada em toda a parte, mas em lugar algum se pode vê-la. Medo eh o nome que damos a nossa incerteza~nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito – do que pode e do que não pode – para faze-la parar ou enfrenta-la, se cessa-la estiver alem do nosso alcance" (BAUMAN, 2008, p.8)

Poder-se-ia, portanto, afirmar que em "O lapis do Carpinteiro" de Manuel Rivas, há a presença do medo e do terror como forma de lembrança, de memória e de reconstrução da identidade galega. Pode-se observar claramente a figura do personagem difuso, disperso e flutuante que não tem o mínimo controle sobre seu futuro e sobre sua vida. O filme “O lápis do carpinteiro” dirigido por Antón Reixa é uma releitura do livro de mesmo nome do autor galego Manuel Rivas. Nesse longa que se passa em Santiago de Compostela e na Corunha, pode-se ver a dura realidade galega durante o início da ditadura de Franco em meio a prisões, torturas, mortes e a figura constante do medo.

A obra inicia numa espécie de bar, localizado na fronteira entre Portugal e Galiza, em que um velho conta suas memórias a uma prostituta. Em um certo momento a mulher pergunta sobre o lápis que o homem carrega na orelha e ele retruca perguntando se ela gostaria de saber a história daquele lápis e assim com o auxílio do “flashback” inicia o filme. Santiago de Compostela – 1936, “Pouco antes do Golpe de Estado”, diz uma legenda logo no início do filme. Logo após uma cena de uma reunião do Estatuto de Galicia, espécie de organização que luta pela Autonomia e pela causa galega, Daniel La Barca, médico e comunista, inicia um discurso sobre a importância do voto feminino e da participação efetiva das mulheres na vida política. Ele é intensamente aplaudido por Marisa que está totalmente apaixonada pelo médico.

Em uma determinada parte, vemos a cúpula militar da época criando estratégias contra os comunistas, anarquistas e socialistas com o auxílio de uma lista, típica de governos ditatoriais, onde o nome de Daniel consta como um dos principais inimigos dos militares. Com a ajuda de fotos, dados e informações, os militares descobrem que Daniel nasceu no México e que exerce a medicina em Santiago de Compostela, além de ter ao seu lado anarquistas e comunistas. Então, instala-se uma onda de perseguição e agonia que refletem muito o espírito da época.

Daniel é preso de forma absusiva e sem motivo pelos militares quando este visitava Marisa, mulher de classe média alta e pertencente a uma família de influência durante o regime de Franco, em uma loja de vestidos de Santiago de Compostela. Pouco a pouco instaura-se o governo militar em Espanha, e Galiza vem sofrendo uma série de imposições culturais, como por exemplo: adotar o castelhano como única língua digna de ser falada. Pelas ruas ouve-se “Arriba España” e prisões sem motivos se espalham pela capital galega.

No Presídio Municipal muitos médicos, artistas, sindicalistas e professores se questionam sobre o porquê das prisões e sobre os novos rumos da República. Nesse momento, um pintor (figura emblemática na obra) se dá conta de que seu lápis está gasto de todo e um carpinteiro oferece um novo a ele para que ele possa continuar suas caricaturas, uma forma de resistir, uma forma de sobreviver ao cárcere – a arte. Portanto, a arte é vista aqui como uma forma de sobrevivência, posto que através da arte os prisioneiros conseguiam forças para manter união e seguir em frente em meio a um ambiente completamente desancorado.

Marisa, que é filha de um grande fidalgo aliado aos militares, Don Beito, sofre com a prisão de Daniel e tenta encontrar alguma forma de vê-lo. Entretanto, seu pai deseja que ela case com um soldado.Na prisão, o pintor começa a contar uma história a fim de manter os ânimos calmos e esquecer do cárcere. A história, na verdade uma lenda, fala sobre duas irmãs: uma chamada morte e outra vida. As duas tinham muitos pretendentes e resolveram fazer uma promessa de fidelidade eterna ao homem que melhor tocasse algum instrumento. Numa certa noite as duas foram a um baile, a irmã morte com seus sapatos brancos e a vida os negros, foram dançar em um lugar onde todos os rapazes da comarca ficavam. Durante a noite houve um naufrágio: “Esse é um país de naufrágios” brinca o pintor. Quando o barco afundou de todo alguns instrumentos chegaram até a costa e um pescador distraído encontrou um acordeon e tocou intensamente. A irmã vida apaixonou-se loucamente pelo pescador e a irmã morte, invejosa, ficou triste e agora vaga pelos caminhos, sobretudo no frio, procurando seu músico. Ela vai até a casa das pessoas e pergunta se alguém ouve o acordeonista e se não há respostas, a morte leva a pessoa consigo.Após esse episódio, um soldado pede ao pintor que o acompanhe. Numa série de torturas e humilhações, o pintor é morto com um tiro na testa. O soldado antes de matá-lo pede desculpas e pega o lápis de carpinteiro que o pintor levava em sua orelha. No momento da morte, surge algumas cenas por meio de “flashback” em que o soldado vê seu pai matando um lobo e pede desculpas por fazê-lo. Nesse sentido, pode se fazer alusão à máxima de que “o homem é o lobo do homem”.Daniel é transferido para uma espécie de "Campo de Concentração" na Corunha e Marisa fica sabendo. Ela vai até à Corunha visitá-lo, porém Daniel pede que a mulher se afaste dele e nunca mais volte a aquele lugar. Enquanto isso, nos campos mais mortes e torturas acontecem.

O médico Daniel é levado a um campo de extermínio e sobrevive. Nesse momento, a Igreja entra em cena ao lado do governo fascista. Um padre dita as normas dessa nova sociedade espanhola e os presos respondem com uma crise de tosse que conseguem calar o padre. Os militares se espantam com a cena e gritam “Espanha” e os presos retrucam “Livre”.Mais uma vez Daniel é levado pelos militares e sobrevive, fazendo jus a sua figura de herói romântico. De volta ao cárcere, Daniel encontra seus companheiros. Um deles, o cantor, inicia um belo canto “Foi coma un soño que nunca existiu”. Os militares, com sua intolerância, levam o cantor para a morte, mas ele deixa essa canção como grito de ordem para os que ainda resistem.Daniel é julgado pelos militares e fica decidido que ele pode voltar ao México, seu país de origem. No trem que vai de Santiago para a Corunha, o médico encontra Marisa. Os dois, sob vigia dos militares, conseguem ter uma noite de amor no hotel onde Daniel se hospedara antes de voltar a seu país.O filme termina como no início. O cabaré surge de novo em cena e o velho finda a história do casal, dizendo que Daniel e Marisa foram para o México e que só retornaram à Galiza com a morte do General Franco. O velho, debilitado, resolve sair do cabaré e encontra um cachorro raivoso. Ele saca a arma, pede desculpas e inicia os disparos, mas nenhum acerta o animal. O velho cai morto, é amparado pelas prostitutas e o filme termina de forma épica.

Como pudemos observar a partir dessa pequena resenha, o ato de “ser galego” foi quase um crime durante a ditadura franquista. Os galegos foram presos, torturados e mortos. O filme de Antón Reixa cujo fundo romanesco traz à tona inúmeras questões sobre a barbárie galega. O cinema,a literatura e a arte permitem, então, reavivar a memória galega para que esses capítulos terríveis jamais caiam no esquecimento.

Rodrigo Moura é doutorado em Literatura Comparada: Portugal e Galiza e se dedica ao estudo da memória, exílio e identidade nas obras galegas e portuguesas contemporâneas.

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