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Diário Liberdade
Terça, 22 Novembro 2016 15:58 Última modificação em Terça, 29 Novembro 2016 22:02

Teresa Moure, coordenadora da obra coletiva no centenário da Revoluçom russa: " 'Bolcheviques' é umha visom feita por este país e para este país" Destaque

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País: Galiza / Cultura/Música / Fonte: Diário Liberdade

[C.C. - Diário Liberdade] Bolcheviques (1917 - 2017) é umha obra de autoria coletiva que nasce com o objetivo de comemorar o centenário da Revoluçom russa desde a Galiza. A escritora Teresa Moure é a coordenadora do projeto, e com ela falamos sobre a recente publicaçom de Bolcheviques, mas também sobre o seu compromisso social como escritora e mulher política, sobre o Manifesto do Fim do Apartheid e muito mais. 

Diário Liberdade. - Conta-nos: que vamos encontrar as leitoras em Bolcheviques?

Teresa Moure. - Bolcheviques som dous volumes e cada um deles inclui um grupo importante de autores e autoras a refletir sobre diferentes aspectos da Revoluçom Russa e das suas consequências. Os dous volumes estam desenhados editorialmente de maneira que consta de três partes. A primeira parte pensa no que foi a Revoluçom Russa em termos históricos e de compreensom dos factos em termos políticos. A segunda parte trata sobre as suas conseqüências na Galiza, sobre como e por onde entrárom as ideias comunistas, o que passou com as mulheres, o que passou antes e depois do alçamento fascista do 36...  E há umha terceira parte um pouco mais aberta à interaçom entre o próprio cerne do movimento político e outros aspecto sociais: interessava-nos ver o que passou com as ideias artísticas, muitas vezes inspiradas em ideias comunistas mas desenvolvidas em países capitalistas, e também com aspectos políticos, como as políticas do bem-estar, que rompêrom essa unidade geográfica dos dous blocos, socialista e capitalista.  

O livro tem, portanto, três grandes focos e umha trintena de trabalhos de diferentes autores e autoras com diferentes enfoques e perspectivas. Eu penso que, em conjunto, consegue-se o que me parecia mais importante: homenagear esse centenário, mas também refletir do ponto de vista da Galiza, ou seja, do bolchevismo e o bolchevismo na Galiza. Essa é a ideia que está no cerne de todo o ensaio: do ponto de vista nacionalista, que podemos achegar nós ao mundo? É umha visom feita por este país e para este país.

D.L. - Que autoras e autores participam nesta obra e qual o seu contributo?

T.M. - A obra que temos nas maos é plural em autorias e focos temáticos, mas também nas perspectivas e nos modos de contar. Todos os autores a autoras levárom muito a sério a tarefa, de maneira que vos vou facilitar um breve resumo de cada contributo que preparei por ter o privilégio de ser a primeira leitora. 

[Nota: o resumo facilitado foi novamente sintetizado polo Diário Liberdade]

Anxo Angueira, professor titular de Filologia galega na UVI e escritor, estuda a conexom entre nacionalismo e classe operária desde inícios da literatura contemporânea galega. A filósofa Rebeca Baceiredo fai umha análise ontológica – e epistemológica – das vantagens da açom coletiva, a energia da classe operária ou os conceitos de organizaçom e comunismo. Xusto Beramendi, historiador, analisa o modelo de revoluçom implantado polo bolchevismo e as contradiçons no seu desenvolvimento. Xosé Manuel Carril, professor titular de Direito na UDC, estuda o quadro jurídico implantado polos bolcheviques, que se tornou, curiosamente, num precedente para a Organizaçom Internacional do Trabalho. A socióloga e Secretária da Mulher da CIG, Margarida Corral, contempla os cem anos de 1917 a 2017 como uma progressiva tomada de consciência das mulheres galegas. Maurício Castro, professor de português e membro do Coletivo Editor do Diário Liberdade, explora os grandes avanços em termos democráticos que o programa bolchevique incorporou no que di respeito à questom nacional. Uxío-Breogán Diéguez, professor de História da UDC, explica o escasso eco que a Revoluçom russa tivo na Galiza e como na definiçom do termo ‘naçom’ adotada nas Irmandades nom se percebe a influência de Lenine. O linguista, escritor e cineasta Antón Dobao delimita o conceito de arte comunista e o que implica o produto artístico, ao tempo que revisa a dicotomia entre arte de elite / arte popular. Eliseo Fernández, bibliotecário e investigador, expom o panorama operário galego entre 1918 e 1920 e relaciona a expansom das ideias revolucionárias na Galiza com os militantes sindicais nabolcheviques emigraçom americana que fôrom expulsos e regressárom neste período. Xoán Carlos Garrido, professor de Filosofia, revisa as conexons entre a história local e os acontecimentos que moviam o mundo nos anos '30 a partir dalguns documentos do concelho da Estrada. Joel R. Gômez, jornalista e investigador, afunda no caso do intelectual galego Ernesto Guerra Da Cal, exilado nos Estados Unidos após a guerra. A historiadora Aurora Marco analisa o papel das mulheres galegas no mundo agrário-sindical, a sua peculiar introduçom na militância política nas primeiras décadas do século XX e a sua participaçom ativa nas mobilizaçons populares. A escritora Oriana Méndez reflete sobre a etiqueta de Políticas públicas, resultado dumha manobra conceptual com que os estados burgueses europeus pretenderam contrabalançar o avanço do socialismo. O jornalista e diretor do Sermos Galiza, Xosé Mexuto, explica a importância da persuasom como parte do legado ideológico do leninismo e como ferramenta fundamental para a tomada do poder. Eu própria, Teresa Moure, professora titular de Linguística da USC e escritora, reviso os símbolos introduzidos com a revoluçom bolchevique do ponto de vista da análise crítica do discurso. Xosé Manuel Outeiriño, professor de Comunicação Audiovisual na USC, ao tempo que repassa a história, estabelece umha comparaçom com a atualidade, onde a informaçom se multiplicou de maneira exponencial mas nengum jornal questiona as verdades que sustentam o estado burguês e a sua corrupçom. O historiador Dionísio Pereira revisa, no contexto da Galiza na altura, a relativa vitalidade da federaçom galega do OCE e as diferentes fusons que concluem na fundaçom do POUM. Natalia Poncela, crítica de arte, apresenta as vanguardas russas como um fenómeno disruptivo que tem um eco, bem que tardio, na arte galega. Julio Prada, professor titular de História Contemporânea na UVI, expom as causas da lenta penetraçom do PCE na Galiza. O escritor e investigador Mario Regueira analisa o papel das forças sociais extra-partidárias na construçom da concepçom antropológica dumha Galiza alheia ao confronto entre capitalismo e socialismo. Francisco Rodríguez, professor de Língua e escritor, explica as causas comuns que impulsam o movimento bolchevique e a ideologia nacionalista galega, assim como a influência que o bolchevismo exerceu nas Irmandades. Víctor Manuel Santidrián, professor de Didática das Ciências Sociais na USC, analisa, com atençom específica ao caso galego, os problemas de comunicaçom, internos e externos, do PCE. Carlos Velasco, professor titular de História Contemporânea na UDC, apresenta o rico arsenal simbólico do bolchevismo, que nos chega do ativismo militante, mas também de formas artísticas como o cinema ou a literatura. E, finalmente, o jornalista José Emilio Vicente procura uma interpretaçom das complexas conexons entre o galeguismo histórico e o leninismo.

D.L. - O livro foi publicado polas editoras Xerais e Através. Porque essa duplicidade?

T.M. - Essa duplicidade é muito interessante, porque denuncia um pouco a situaçom que temos com os conflitos de normas. Ao pensar em fazer um livro-homenagem destas caraterísticas, pensei que deviam estar representadas algumhas assinaturas importantes da historiografia deste país, mas também deviam estar as organizaçons políticas leninistas e devia haver algum número de assinaturas femininas para marcar que também sustemos a outra metade do ceio. Neste contexto, quando pensas a que colaboradores te podes dirigir, encontras que vai haver duas normas. Entom, pareceu-me que umha das maneiras possíveis de resolver este problema era apresentar-lhe este projeto em dous volumes a duas editoras que seguissem normas diferentes, de maneira a incluir os autores num volume ou noutro em funçom da normativa que habitualmente utilizam.

Interessava-me muito destacar isto porque penso que é um acontecimento histórico: duas editoras a colaborarem num projeto, e ademais um projeto muito político, tentando de algumha maneira resolver estas dificuldades normativas. Vai com caminho de inspiraçom para o futuro, mas ainda nom é umha soluçom satisfatória porque, como coloco no prólogo, já Salomom advertia dos problemas de dividir a criança.

O principal problema que vamos ter agora é que as livrarias e os leitores e leitoras entendam o produto. O desafio será ver se conseguimos que leitoras habituadas a umha norma vaiam à outra porque tenhem interesse no livro. Assim, estaríamos tentando eliminar esse muro que chamamos ‘do apartheid’.

D.L. - Como surgiu a ideia de repensar a Revoluçom Bolchevique desde a Galiza do século XXI?

T.M. - Há aproximadamente um ano fum convidada para fazer parte do Comité Galego para a Celebraçom do Centenário da Revoluçom Russa. Em realidade, para mim era um pouco surpreendente, porque eu nunca militei numha organizaçom leninista e o meu único mérito era ter escrito nessa altura um romance sobre Inessa Armand e o seu relacionamento com Lenine. Mesmo assim, acudim com a ideia de indicar que, provavelmente, nom era eu a pessoa mais indicada para lá estar. Mas, para a minha surpresa, eu era a única mulher, e isso animou-me a continuar. No entanto, vim que era muito difícil que as organizaçons puidessem funcionar juntas, porque havia feridas novas e velhas, porque havia agendas focadas para assuntos muito diferentes... De facto, penso que nom se continua com essas reunions, que nom chegou a frutificar um trabalho que parecia muito motivador.

Foi aí que eu sugerim que umha das minhas possibilidades de colaboraçom seria, por exemplo, editar um volume como Bolcheviques. E, de algumha maneira, o grupo para a comemoraçom nom funcionou, mas o livro foi um objetivo cumprido.

Vai ser engraçado para mim ficar como coordenadora de Bolcheviques, como se fosse umha especialista. Eu nom sou historiadora, nom sou politóloga, mas vou ser a que figura na capa como coordenadora dum volume destas caraterísticas. É surpreendente porque todo foi totalmente casual e tinha a ver com ter acabado de publicar Ostrácia e chegar a esse grupinho.

Ostrácia, feminismo e justiça social

D.L. - Ostrácia (2015) está, como dizias, centrado na figura de Inessa Armand e contextualizado nos acontecimentos de 1917. De onde nasce essa atraçom pola Revoluçom Bolchevique e as suas protagonistas? Que te inspirou para escrever esse romance?

T.M. - Quando publiquei Ostrácia, eu contava que foi Inessa Armand que me escolheu para esta tarefa. Produzia-me muito interesse essa figura, umha figura apagada da historiografia – também da especificamente marxista – por essa incômoda posiçom de umha mulher difícil, com umha biografia já complexa antes de conhecer a Lenine e de tornar-se a sua amante, algo que contravinha o modo de proceder dum camarada presidente que se ativesse com escrúpulo ao modelo de moral e costumes que impunha o leninismo. Atraia-me essa figura, também, pola parte que tem de absoluta entrega à causa política, à causa da sua relaçom com Lenine e também por esse seu caráter heterodoxo. Mas fazia-a ainda mais atraente o facto de ter-lhe levado a contrária a Lenine, de ter-se atrevido a ser dissidente dentro de uma relaçom muito harmoniosa, pois ela ocupou postos muito importantes no governo revolucionário, e, para além de amante, foi confidente e a sua mao direita. Eu coloco-a no romance como alguém que lhe fazia o trabalho sujo a Lenine, umha vez que ela fijo muito trabalho político, acreditasse ou nom acreditasse nele, com umha absoluta lealdade. Isto tudo fazia-a umha personagem muito atraente.

E a ideia da ostrácia é umha ideia que sempre há que visitar num pais como a Galiza, onde rapidamente somos ostraciçados ou apartados a corpúsculos, passados a ser vistos como indesejáveis, especialmente entre militantes que nom sempre som, de repente, aceites polo seu grupo.

D.L. - Em Ostrácia, como na maior parte dos teus livros, encontramos também umha reflexom em chave feminista, assim como um esforço por valorizar o papel das mulheres na história e refletir sobre o nosso lugar no mundo. Semelha que tes assumido um autêntico compromisso militante com a causa feminista, é assim?

T.M. - É difícil responder essa pergunta porque já nom existe o feminismo, mas muitos feminismos, e som tam diversos, e às vezes tam irreconciliáveis, que nom estou segura de poder-me colocar essa etiqueta, até porque nom sei se me vou sentir identificada com o que o leitor pense que é o feminismo.

Em Ostrácia, eu abordava muito esse tema porque o romance tem um desdobramento entre os acontecimentos de Inessa e a escritora que escreve sobre a Inessa. Isso permitia-me, por exemplo, tratar o tema do BDSM, no sentido em que a militância exige umha dor, umha entrega absoluta e submissa, umha dedicaçom total à causa, que depois, em consequência, impede os militantes de amar como burgueses, obriga-os a amar com essa entrega. E eu sabia que isso podia ser muito criticado do ponto de vista feminista atual.

Teresa AtravésInessa é muito facilmente vista como alguém que foi demasiado submissa e demasiado dependente de Lenine, quem nunca deixou de estar casado. Eu tivem que assumir que há umha contradiçom forte, pois penso que Inessa era realmente umha mulher feminista – com umha óptica do feminismo provavelmente muito diferente à maioria dos feminismos contemporâneos mas muito ciente dos seus direitos e da sua dignidade –, e por outro lado era também umha mulher muito entregada aos outros (aos seus filhos, ao seu partido, ao seu amante). Isso produz umha dificuldade de linguagem: no momento em que dis ‘entregada’ ou ‘submetida’, essa palavra vai ser entendida de maneira muito diferente por um militante e por um nom militante, por umha feminista atual e por umha feminista de começos de século XX.

Por isso, eu, obviamente, entendo que sou umha mulher política, e isso converte-me em feminista. No entanto, nom sei se todas as questons que se tenhem hoje como próprias da agenda feminista som as minhas questons.

Umha das cousas bonitas que tivo o feminismo foi a sua heterodoxia e a sua diversidade, e seria lamentável que se convertesse numha palavra de ordem, umha espécie de religiom com umha série de mandamentos que todas devemos sentir ou priorizar igual. Olhar para outras culturas, por exemplo, é algo importante. A agenda de prioridades de umha feminista índia como Vandana Shiva nom é a mesma que a agenda de prioridades de outros feminismos. E existe – o feminismo vem sentindo-o há décadas – o risco de converter o movimento num movimento burguês, branco, ocidental...

D.L. - Para além da questom feminista, nas tuas obras – dos romances e livros coletivos aos ensaios, obras teatrais e poesia – costumas mostrar um inconformismo reivindicativo muito próximo dos movimentos sociais e populares. És das que acredita na literatura, e na arte em geral, como ferramentas de luita pola justiça social?

T.M. - Se nom fosse assim, nom lhe dedicaria tempo a escrever. Quando vejo que alguns escritores acreditam na ‘arte pola arte’, penso que isso é tremendamente burguês, preciosista, umha atividade onanista que simplesmente dá prazer, ou dividendos ou o que quer que for. 

Eu entendo que escrever é, fundamentalmente, um diálogo com a própria pessoa e com a própria sociedade, mas tentando incidir e transformar. Esse é o objetivo. Umha arte que só se recreie na beleza ou em si mesma é um postal, e para mim tem muito pouco valor. Eu entendo que há um valor ético e político acrescentado à formosura.

Reintegracionismo e o Manifesto do Fim do Apartheid

D.L. - Após mais de umha dúzia de obras publicadas na norma ILG, Eu violei o lobo feroz (2014) foi o teu primeiro livro escrito sob a norma internacional da nossa língua. Quais fôrom os motivos para esta mudança?

T.M. - Foi complicado. Eu declarei muitas vezes que o meu processo de maduraçom foi muito lento neste processo normativo. Eu estudei nesta Faculdade [Faculdade de Filologia da USC], onde todo o mundo aprendia, como em todas as faculdades, que há verdades que nom podem enunciar-se nunca sob perigo de ficar ostraciçada. Assim assumim, por exemplo, que nom se podia dizer que galego e português eram a mesma língua.

Quando, por umha série de circunstâncias biográficas, decidim dar o passo à escrita pública, em primeiro lugar apresentei-me a prémios. E, lamentavelmente, os prémios imponhem normativa neste país. Na altura priorizei a urgência sobre outras questons, mas sabia que tinha essa matéria pendente e que tinha que enfrentar-me a isso. Só tivem que apanhar um pouco de força para tomar essa decisom.

Entendo que há muitos motivos para escrever nas normas reintegradas. Estám os motivos filológicos, que tanto explicou o reintegracionismo. O reintegracionismo desenvolveu muito a veta pragmática, a utilidade de chegar a muitos milhons de indivíduos. Mas, apesar de ser eu linguista, considero que os motivos filológicos nom som os mais importantes. Embora entenda que à sociedade lhe resulte útil, nom é o que mais me move, porque umha língua teria direito a existir ainda que tivesse poucos falantes – por exemplo, o euskera, que nom tem outros estados no mundo onde se fale –.

O motivo que considero mais importante, o que mais me motivou, é o que sempre se oculta, o mais duro: o motivo político ligado à causa independentista. Eu acredito que, se se trata de libertar-nos do estado espanhol, nada pode haver mais molesto que questionar a normativa ortográfica que, ademais, nos achega a outros estados do mundo.  

Foi entom, no momento em que eu estava a trabalhar em Galiza Pola Soberania, que pensei que nom podia adiar mais a decisom, que era o momento.

D.L. - Que implicaçons tivo para ti, como escritora traduzida a várias línguas, adoptar esta posiçom no sistema literário galego?

T. M. - Todas, todas as exclusons. As editoras que me publicavam, que me chamavam pedindo-me cousas, dixérom que era umha boa decisom, que era perfeitamente legítima, mas que tinham que virar as costas. Imediatamente, nom pudem apresentar-me a prémios, tampouco fago parte da literatura galega... De facto, esse é um dos problemas deste intenso diálogo que estamos mantendo com a sociedade: quando me convidam para falar da minha obra ao alunado de um instituto, sempre é da minha obra anterior a este passo para o ‘lado escuro’, e muitas vezes os professores e professoras de galego, essas pessoas comprometidas com a língua, insistem ao seu alunado em que agora escrevo em português e já nom fago parte da literatura galega. Só pertenço à literatura galega polas obras anteriores, mas nom polas que estou a escrever.

Portanto, as consequências fôrom duras. Por isso, estamos agora nesse grupo promotor do Manifesto do Fim do Apartheid, para que a sociedade também tome consciência. Porque isto pode parecer um problema de elites, mas é um problema real da Galiza real. Está-se a discriminar a pessoas que defendem a cultura galega por como escrevem, pola norma que utilizam.

D.L. - Fala-nos, entom do Manifesto do Fim do Apartheid, da situaçom que denuncia e dos objetivos que persegue.

T.M. - O Manifesto nom surgiu de nengumha associaçom ou grupo reintegracionista reconhecido, mas numha discussom nas redes sociais onde Mario Herrero denunciava que, apesar de ter ganho o prémio Glória de Santana (um prémio internacional português) o seu trabalho nom recebia nengumha atençom dos meios de comunicaçom na Galiza. Ele expujo claramente essa ferida, mais cinco pessoas participamos nesse fio e, em conclusom, decidimos que era necessário que a sociedade soubesse.

E escrevemos esse manifesto, um texto excessivamente longo porque pretendia ser rascunho para vários artigos, mas que finalmente ficou assim. É um texto onde se expom a discriminaçom das principais editoras do país, a discriminaçom dos prémios – que sempre pedem os trabalhos em ‘normativa oficial’ apesar de nom existir normativa oficial na Galiza – e também umha série de consequências como a ausência de resenhas, que complica a difusom e a possibilidade de chegar a leitoras e livreiros.

Trata-se, portanto, de pedir à sociedade um passo para a frente, de pedir àquelas pessoas que escrevem em ILG – e que podem continuar a escrever em ILG – que eliminem de forma efetiva essa fronteira invisível e reconheçam que nós fazemos parte da cultura galega com todo o direito. De facto, valoramos positivamente que muitas pessoas comprometidas do ‘outro lado’ (editores/as, membros da RAG, conselheiras e conselheiros de diferentes orientaçons políticas, representantes nos três parlamentos...) tenham assinado o manifesto.

O problema nom se formulou, entom, nem em termos proselitistas nem tampouco em termos filológicos, mas em termos unicamente éticos. Por isso se utilizou a palavra ‘apartheid’, como umha metáfora desta descriminaçom. Nom pensamos que seja umha situaçom social comparável à da África do Sul, mas pensamos que nom estamos em igualdade de condiçons e havia que dar-lhe um nome o mais forte possível a isso. Essa foi a táctica para que ficasse claro que há umha barreira invisível e que ficamos à margem dela, e que nom é obrigatório ficarmos nas margens. Nom estamos pensando tampouco em reclamar postos de hegemonia ou centralidade no sistema, nom é um assunto de poder, mas consideramos que umha cultura como a galega, tam ameaçada polo poder imediato (e também, em sentido lato, pola globalizaçom capitalista), nom pode permitir-se perder tantas forças e tanta energia de tantos militantes reinteigracionistas.

Voltando a Bolcheviques, penso que é umha vitória que tenhamos esse projeto de duas editoras, que nasceu antes do Manifesto e nom foi alterado por ele. Ademais, como coordenadora, sou autora de um texto no volume dos autores reintegracionistas, mas também tenho um prólogo que escrevim sob o Acordo Ortográfico e que foi aceite para os dous volumes. Isso pode ser um indicativo de que as cousas vam mudar.  

LançamentoCompos       Lançamento do Manifesto do Fim do Apartheid em Compostela

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