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Diário Liberdade
Domingo, 12 Novembro 2017 17:07 Última modificação em Quinta, 16 Novembro 2017 00:16

Dos 'Dias de Julho' à revolução dos trabalhadores em 1917 na Rússia

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País: Rússia / Resenhas / Fonte: Workers World

[John Catalinotto*, Tradução do Coletivo Vila Vudu] Quando terminou o malsucedido levante de trabalhadores e marinheiros em Petrogrado (São Petersburgo) em julho de 1917, quase todos os líderes do Partido Bolchevique estavam presos ou escondidos, massacrados como agentes do imperialismo alemão. Mas poucos meses depois, o mesmo partido bolchevique já estava posicionado para tomar o poder para a classe trabalhadora.

Dentre os prisioneiros estavam os marinheiros (F.F.) Raskolnikov e seu camarada Semyon Roshal, originários do ninho de fervor revolucionário na ilha vizinha de Kronstadt, e também Leon Trotsky e outros da sede nacional dos bolcheviques na cidade centro. Os líderes bolcheviques V.I. Lênin e Grigory Zinoviev fugiram para a Finlândia, por medo de serem assassinados. A sede dos bolcheviques foi tomada pelo Governo Provisório.

O verdadeiro crime dos bolcheviques não foi, claro, não terem servido ao Imperador alemão, mas, em vez disso, terem-se posicionado ao lado do proletariado revolucionário na Rússia,. Os bolcheviques fizeram precisamente isso durante "os dias de julho", quando grande parte – mas não a maioria – da classe trabalhadora saiu às ruas contra o Governo Provisório. Esse regime burguês provisório continuou a obrigar o Exército Russo a combater na 1ª Guerra Mundial, apesar da fúria das massas contra aquela guerra.

Depois houve outra reviravolta, quando se viu que os bolcheviques não apenas liderariam a luta para libertar os revolucionários presos, mas, além disso, por-se-iam em posição de liderar uma insurreição.

O general czarista Lavr Kornilov, numa conspiração com os líderes do Governo Provisório, vale dizer, com o primeiro-ministro Alexander Kerensky e outras forças pró-burguesia, prometeu liderar as tropas contra Petrogrado, para levar avante um golpe contra as forças da esquerda. Rapidamente se tornou claro que esses militares contrarrevolucionários visavam não só a prender e matar bolcheviques, mas também a eliminar todo o Governo Provisório que surgira da revolução e derrubara a monarquia em fevereiro e março.

A única defesa possível era a que dependia das massas, especialmente das unidades de trabalhadores armados chamados "Guardas Vermelhos". Os partidos no governo que temiam uma contrarrevolução czarista absolutamente precisavam que os bolcheviques organizassem uma defesa, porque os trabalhadores e marinheiros revolucionários só seguiriam ordens emanadas dos bolcheviques. Por sua vez, os bolcheviques só organizariam a defesa de Petrogrado se o governo libertasse seus líderes e lhes fornecesse armas para os trabalhadores.

Os bolcheviques são soltos 

Ante o perigo de uma reação czarista, o Governo Provisório permitiu que o soviete local, então liderado pelos bolcheviques, assumisse o comando do Comitê Militar Revolucionário, para defender Petrogrado. Ainda havia ameaça real de reação czarista, mas o levante de Kornilov já havia colapsado pela mesma razão de as forças czaristas não terem conseguido impedir mais cedo a revolução: os soldados não obedeceram as ordens dos oficiais czaristas.

Sem soldados para o combate, muitos dos oficiais que Kornilov havia recrutado ofereceram pretextos para não entrar em combate.

Em seu livro Kronstadt and Petrograd in 1917, Fyodor Raskolnikov oferece um exemplo de como isso aconteceu com "a chamada 'Divisão Selvagem', uma divisão de cavalaria, de voluntários de povos do Cáucaso (a maioria deles muçulmanos) não submetidos ao alistamento militar obrigatório. O Partido Bolchevique mobilizou uma delegação de muçulmanos notáveis, que visitou as tropas já em deslocamento para combater e explicou que haviam sido enganados sobre a real situação em Petrogrado."

Como aconteceu tão frequentemente naqueles dias, bastou fazer contato com os trabalhadores revolucionários de Petrogrado, para convencer as tropas a redirecionar a mira das próprias armas, virando-as contra os próprios oficiais.

Em meados de outubro, os bolcheviques eram maioria no Soviete de Petrogrado e dirigiam o Comitê Militar Revolucionário. A revolta dos soldados contra o Czar durante a "Revolução de Fevereiro" havia sido em grande medida espontânea, com os soldados mudando o próprio modo de ver por efeito do contato direto com os/as grevistas de Petrogrado, muitos dos/das quais eram mulheres.

Servindo-se do acesso mais livre aos soldados que conseguiram nessa revolução, os bolcheviques aprofundaram a agitação e a organização dos soldados, não só em Petrogrado, mas também no front. Os soldados formaram suas próprias organizações, elegeram representantes ao Soviete de Trabalhadores e Soldados e efetivamente quebraram a cadeia de comando.

Entrementes, os marinheiros do Kronstadt e a Frota do Báltico estavam firmemente com a revolução. Em alguns navios, centenas de marinheiros já se haviam unido aos bolcheviques e exigiam que os sovietes tomassem o poder em nome da classe trabalhadora.

Os soldados também estavam determinados a não continuar a combater a guerra contra a Alemanha. No registro detalhado que redigiu, "The Russian Revolution of 1917: a Personal Record," o menchevique de esquerda N. N. Sukhanov relata como representantes de regimentos vieram, um a um, para dizer ao Comitê Militar Revolucionário que não confiavam no governo de Kerensky e se levantariam ao primeiro chamado para derrubá-lo.

Dia 21 de outubro (3 de novembro pelo calendário ocidental), o movimento já incluía a guarnição de Petrogrado, com suas centenas de milhares de soldados. Petrogrado e a Rússia caminhavam inexoravelmente rumo a uma segunda revolução.

Soldados mudam de lado 

Foi quando uma nova crise irrompeu no Soviete de Petrogrado. O comandante da Fortaleza Pedro-Paulo, muito provavelmente oficial pró-czar, recusou-se a reconhecer o Comissário noemado para a fortaleza pelo Comitê Militar Revolucionário e ameaçou prendê-lo. Essa fortaleza estrategicamente importante dentro de Petrogrado era essencial à vitória do levante planejado. Mas tentar tomá-la à força era operação arriscada, um ato de guerra. Sukhanov escreveu:

"Trotsky tinha outra proposta, a saber, que ele, Trotsky, iria à fortaleza, faria uma reunião lá e capturaria, não as paredes, mas o espírito dos soldados (...) Trotsky partiu imediatamente para lá, com Lashevich. As falas dos dois foram recebidas com entusiasmo. A guarnição, quase unanimemente, aprovou uma resolução a favor do regime soviético e da prontidão da própria guarnição para o levante, armado, contra o governo da burguesia. (...) Mais 100 mil rifles passaram para mãos dos bolcheviques."


O Congresso Nacional dos Sovietes estava marcado para 25 de outubro (7 de novembro) em Petrogrado. Seria ocasião perfeita para aquele corpo aprovar a tomada do poder. Mas o Governo Provisória ainda podia cercar o Congresso com tropas reacionárias e prender o soviete.

Os líderes bolcheviques consideraram mais prudente agir preventivamente. Não seriam necessários confrontos de rua. Todos os combates de rua já haviam acontecido em fevereiro (março). E não era movimento secreto. Os principais líderes bolcheviques do Comitê Militar Revolucionário declararam abertamente a intenção de proteger o Congresso dos Sovietes.

Os marinheiros da Frota do Báltico, os trabalhadores que controlavam as pontes, a guarnição de Petrogrado, os soldados da Fortaleza Pedro-Paulo – todos já se haviam incorporado à Revolução. Por ordens do Comitê Militar Revolucionário dos Sovietes, na noite de 24-25 de outubro (6-7 de novembro), trabalhadores armados conhecidos como Guardas Vermelhos e marinheiros revolucionários tomaram as instalações postais e de telégrafo, os serviços de eletricidade, estações ferroviárias e o banco do estado.

Às 21h45 daquela noite, soou um tiro de canhão disparado do Cruzador Aurora, cujos marinheiros eram leais aos bolcheviques, ancorado no Rio Neva. Àquele sinal, milhares de marinheiros e Guardas Vermelhos avançaram e invadiram o Palácio de Inverno. O Governo Provisório foi derrubado.

Trabalhadores, soldados e líderes bolcheviques exaustos lotavam o Congresso dos Sovietes marcado para 25 de outubro (pelo calendário ocidental, 7/11). Até que começaram a chegar notícias de que o Palácio de Inverno fora tomado. A sala encheu-se de gritos e vivas. 

"Lênin, que passara o dia na rua, coordenando a movimentação e que só então chegava ao Congresso, subiu ao palanque para uma comunicação sobre a paz. Foi recebido com um tumulto de saudações. A massa de delegados arregalava os olhos para aquele ser misterioso que haviam sido treinados para odiar e aprenderam a amar sem jamais o terem visto. Lênin, apoiou-se sobre a mureta do palanque, os olhos franzidos percorrendo a multidão, como se nem ouvisse a ovação que não amainava e durou vários minutos. Quando afinal se fez silêncio, ele disse apenas 'Agora vamos construir a ordem socialista'."**

Foi só o começo. Assinar a paz com os alemães demorou meses. Ainda houve uma luta longa e uma guerra civil antes que a União Soviética pudesse ser oficialmente criada. Os marinheiros da Frota do Báltico e os trabalhadores armados de Petrogrado tornaram-se as tropas de choque do Exército Vermelho, e muitos desses heróis, a força viva que empurrou a Revolução Russa rumo ao futuro, morreram na guerra civil e quando a Rússia foi invadida pelo Japão, Tchecoslováquia, Grã-Bretanha, França e EUA e outros países capitalistas, luta que durou até 1922.

Mesmo assim, o experimento de 1917 na Rússia mostrou que a interação entre trabalhadores e soldados revolucionários na guarnição de Petrogrado, bem como a ação decisiva dos marinheiros da Frota do Báltico, tornaram possível a vitória daquela revolução.

* Adaptado de um capítulo de Turn the Guns Around: Mutinies, Soldier Revolts and Revolutions de John Catalinotto.

** Vladimir Lenin, Second All-Russia Congress of Soviets of Workers' and Soldiers' Deputies, Relato do discurso final, depois do relatório sobre a paz, 25-26/10(6-7/11)/1917, publicado no dia seguinte em Rabochy i Soldat, n. 9 e 10, in Lenin Internet Archivemarxists.org [Epígrafe acrescentada pelos tradutores]

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