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Diário Liberdade
Quinta, 22 Março 2018 23:07 Última modificação em Segunda, 26 Março 2018 17:25

De Trump a Putin: a aliança Atlântica com a Europa em frangalhos

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País: Estados Unidos / Direitos nacionais e imperialismo / Fonte: Esquerda Diário

Donald Trump aproveitou as eleições russas para colocar mais lenha na fogueira da fratura exposta com seus tradicionais aliados ocidentais.

Donald Trump aproveitou as eleições russas para colocar mais lenha na fogueira da fratura exposta com seus tradicionais aliados ocidentais. Parabenizou o novamente eleito presidente Vladimir Putin, em telefonema particular, e deixou a mensagem de que uma “corrida armamentista” entre os dois países “não é uma coisa boa”.

Trump ainda prometeu a Putin que pretende organizar um encontro entre os dois “num futuro não muito distante”. É o segundo encontro com rivais que promete realizar, depois da inesperada proposta de um encontro pessoal com o líder norte-coreano Kim Jong-un.

Putin foi reeleito com mais de 76% dos votos, um dos resultados eleitorais mais contundentes na Rússia pós-soviética. Putin se esmerou na arte de aproveitar as contradições e debilidades do Ocidente para parecer mais forte do que realmente é. Fez isso na crise da Ucrânia em 2014, na guerra civil síria, e agora em relação à China: com a emergência do gigante asiático, surge uma oportunidade de ouro para travar boas relações com um “competidor estratégico” dos Estados Unidos, enquanto as relações transatlânticas entre a Europa e Washington estão em frangalhos.

Enquanto não seria uma “coisa boa” entrar em más relações com Moscou, na opinião de Trump uma guerra comercial com a União Europeia e seus mais próximos aliados “é algo fácil de vencer”. Essa disparidade de conduta irritou as principais potências europeias, em especial a Alemanha, que precisam lidar com a imposição de tarifas de 25% para importação de aço e 10% para o alumínio. A Alemanha depende excessivamente das exportações para manter estável sua economia, e é o oitavo maior fornecedor de aço para os Estados Unidos.

A congratulação transmitida a Putin torna também mais amarga a relação entre Washington e o Reino Unido, estratégico aliado dos Estados Unidos. Na semana passada a primeira ministra britânica, Theresa May, soltou declarações robustas contra Putin após o duplo agente de espionagem Sergei Skripal ter sido encontrado envenenado em Salisbury. May havia dito que era “tremendamente provável” que Putin estava por trás do envenenamento, e pediu apoio de seus aliados contra Moscou. Expulsou 23 diplomatas russos do território inglês, mas não ouviu sequer uma sonata vinda de Washington.

As relações deterioradas com a Alemanha e o Reino Unido, eixos da aliança transatlântica, revelam as intenções da administração Trump frente aos chamados “valores ocidentais”, como a OTAN e os organismos comerciais multilaterais. A saída da rara avis Democrata do gabinete, o globalista Gary Cohn, e a entrada do ex-chefe da CIA e ultranacionalista Mike Pompeo no cargo de secretário de estado (após a renúncia forçada de Rex Tillerson) dão asas à ala dura do “America First” que mais antipatia nutre pelas velhas alianças tradicionais.
Contornando atritos?

As relações entre Estados Unidos e Rússia estão longe de ser amáveis. A anexação da península da Criméia pela Rússia em 2014 e o apoio irrestrito de Moscou a seu aliado Bashar el-Assad na Síria (país em que a Rússia tem sua única base naval externa a seu território) são constantes fontes de atrito. Frente ao incremento do poderio militar da China e da Rússia, Trump aumentou a dosagem financeira ao Departamento de Defesa, além de manter três generais que fazem parte da nata do gabinete (Jim Mattis, HR McMaster, John Kelly).

O interesse do gabinete de Trump é manter a Rússia afastada tanto quanto possível da China, que para seu pesar acaba de estabelecer um acordo de fornecimento de 60 milhões de toneladas petróleo com Moscou, através das estatais Rosneft e CEFC China Energy. A fixação de Trump para conter a China - um giro agressivo dos EUA - está nos cálculos de cortesia com a Rússia, num momento em que Trump planeja impor tarifas de 60 bilhões de dólares em tarifas sobre produtos chineses.

Já Putin tratará de aproveitar a péssima atmosfera entre Estados Unidos e Europa para incrementar suas reivindicações na Ucrânia contra a Alemanha (tendo cuidado ao pisar no Leste europeu, que agora traz mais a marca “Made in China” do que o hábito de pertencimento à antiga “cortina de ferro”).

O escândalo da intervenção russa nas eleições norte-americanas também não diminuiu no establishment político ianque. John McCain, senador Republicano, criticou Trump dizendo que este “insultou cada cidadão russo que teve negado seu direito a uma eleição justa para determinar o futuro do país”.
Aliança transatlântica em ruínas

Entretanto, o verdadeiramente simbólico dessa relação bilateral é o telefonema de Trump. Este parece querer demonstrar abertamente seu desprezo pela União Europeia diante da mais profunda crise diplomática e comercial em décadas no eixo transatlântico. Nas palavras de Robert Cooper, diplomata veterano do Reino Unido, “Trump não está apenas atacando a Europa, está atacando o mundo que os Estados Unidos construiu. Ele odeia a União Europeia, a OMC, o comércio multilateral. Trata-se da ordem mundial do segundo pós-guerra. Se ele está falando sério, então a coisa é séria”.

Até mesmo “atlantistas” instintivos como a chanceler alemã Angela Merkel defendem abertamente que a Europa comece a tomar conta de si mesma. Estas fricções fizeram com que Bruxelas desse via livre para a proposta de taxação digital que incidirá sobre as gigantes norte-americanas Google, Facebook e Apple. Apesar disso, cada país europeu adota uma conduta distinta diante das tributações de Trump, um revés de magnitude para o projeto que sustenta o imperialismo alemão.

No momento das piores relações em décadas entre Estados Unidos e Europa, volta à tona a perspectiva de que guerras comerciais - "rupturas no equilíbrio instável" da economia mundial - possam se converter em conflagrações de magnitude.

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