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Diário Liberdade
Quinta, 02 Agosto 2018 09:41 Última modificação em Domingo, 05 Agosto 2018 05:25

Irã: Khamenei recompõe a bússola da política exterior

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País: Irão / Resenhas / Fonte: Indian Punchline

[22/7/2018, M. K. Bhadrakumar, Tradução da Vila Vudu] A fala do Supremo Líder do Irã Aiatolá Ali Khamenei na reunião anual dos mais altos funcionários da diplomacia iraniana e enviados a capitais em todo o mundo sempre é ouvida atentamente, como evento no qual podem ser explicitadas chaves vitalmente importantes para se compreender corretamente a trajetória da diplomacia e da política exterior do país. Claro que o que é dito abertamente é importante, mas muitas vezes há não ditos ainda mais importantes. E, claro, o modo persa de falar, de dizer coisas de modo oblíquo, só aumenta e aprofunda o mito. Seja como for, o discurso de Khamenei em Teerã no sábado será lido e relido em chancelarias pelo mundo, até nas mais distantes uma da outra como Moscou e Washington ou Pequim e Bruxelas (IRNA. Há matéria traduzida sobre essa fala do Aiatolá Khamenei, no Blog do Alok [NTs]).

A fala desse ano reveste-se de especial interesse, com a política do Oriente Médio num ponto de inflexão, e grandes questões de guerra e paz agitando o pensamento – com o Irã dessa vez, claro, no epicentro. As orientações de Khamenei mostram os seguintes elementos chaves:

  1. Os interesses nacionais do Irã devem nortear as políticas externas como princípio fundamental. As ancoragens ideológicas da Revolução Islâmica e os interesses nacionais coincidem e somam-se.
  2. O Irã deve trabalhar ativamente em rede com a comunidade internacional.
  3. Mantêm-se os compromissos assumidos no acordo de 2015; também continuam as negociações com UE+UE3.
  4. Conversações com os EUA são "inúteis", enquanto as intenções dos norte-americanos permanecerem hostis, e suas políticas, inconsistentes. (Mas Khamenei tampouco fechou a porta e jogou fora a chave.)
  5. Que ninguém tenha qualquer dúvida de que o Irã retaliará fortemente contra qualquer tentativa, pelos EUA, de impedir que prossigam as exportações de petróleo do Irã; a resposta virá em ação que bloqueará completamente o fluxo de petróleo da região do Golfo Persa para o mercado mundial.
  6. A presença iraniana na região compõe realidade integral com os interesses de segurança e da influência regional do país.

A fala de Khamenei deixa perfeitamente claro que, no esforço para alcançar interesses nacionais, o Irã terá de navegar caminho próprio por meios próprio e à velocidade que mais lhe convenha, como já acontece ao longo das últimas quatro décadas de história nacional. A diplomacia será flexível, mas orientada por objetivos (“sábia e orientada”).

Khamenei não mencionou o conflito na Síria, mas sugeriu que o Irã manterá sua presença na Síria. O enviado do presidente da Rússia à Síria Alexander Lavrentiev esteve em Teerã no fim de semana para atualizar os iranianos sobre a reunião de cúpula em Helsinki. Mas só foi recebido no nível do vice-secretário do Conselho Nacional de Segurança do Irã, Amir Saeid Iravani (o número 2 abaixo de Ali Shamkhani e também principal especialista em Síria no Irã). Interessante: Iravani criticou o “papel negativo” de Israel na Síria e as tentativas do estado judeu para interferir nas relações Irã-Rússia.

O Irã revelou semana passada que Trump fez oito tentativas, interessado em se reunir com o presidente Hassan Rouhani, mas Teerã rejeitou todas essas iniciativas. A ‘linha vermelha’ para Teerã é os EUA terem abraçado a agenda da ‘mudança de regime’ e renovado seus laços com a organização Mujahadeen-e-Khalq (MEK) (que sempre esteve na lista de grupos terroristas sob vigilância do Departamento de Estado dos EUA). O atual Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA John Bolton e o advogado de Trump, Rudy Guiliani, estiveram na folha de pagamento do MEK.

Claro, o processo está só começando, e o discurso de Khamenei evitou frases muito duras. Não há qualquer dúvida de que Teerã percebeu que duas vezes, no passado recente, a Casa Branca sinalizou que recentemente tem sentido maior moderação nas políticas regionais do Irã. O próprio Trump mencionou essa sensação (duas vezes) durante a conferência de imprensa em Singapura, depois da reunião com Kim Jong Un; e Bolton repetiu o comentário depois de visita que fez a Moscou há duas semanas, na preparação para a reunião de Helsinki.

Assim, não pode ter sido simples coincidência que a Agência de Notícias oficial do Irã (IRNA) tenha divulgado comentário, dia 21 de julho (que apareceu também no Teheran Times) analisando a abordagem flexível de Trump ao tratar da questão nuclear da Coreia do Norte. O comentário, intitulado ‘Resiliência dos EUA diante do programa nuclear da Coreia do Norte’, analisa que Trump “optou por recuar da posição inicial muito rígida”, logo que compreendeu que táticas de pressão e bullying não funcionariam com Pyongyang.

O comentário conclui que os EUA não podem esperar extrair “resultados construtivos”, se impõem sanções contra a Coreia do Norte “ou qualquer outro país”, e que essa tática de pressão “não ajudará a resolver questões críticas.” O que o comentário não disse, mas parece lá estar implícito, é que Trump é perfeitamente capaz de agir com pragmatismo ao tratar com adversários, em negociações orientadas com vistas a resultados. Curiosamente, o comentário foi publicado no mesmo dia marcado para a reunião em que Khamenei falaria aos principais diplomatas iranianos.

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