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Diário Liberdade
Domingo, 05 Agosto 2018 00:00 Última modificação em Domingo, 19 Agosto 2018 11:24

As verdadeiras razões da guerra na Síria: entrevista com Bashar al-Assad (2ª parte, final)

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País: Síria / Direitos nacionais e imperialismo / Fonte: NTV

[Tradução da Vila Vudu] Leia a primeira parte aqui.

Jornalista: O que o senhor espera da Rússia, nesse caso? Porque o senhor disse a tanta gente que têm de sair da Síria... O senhor disse que mais dia menos dia a nação síria dirá que todos têm de sair desse território. Assim sendo, o que o senhor espera que a Rússia faça? Porque somos aliados, somos amigos.

Presidente Assad: A amizade entre Síria e Rússia é questão de longo prazo, décadas, sessenta anos. Mas assinamos o tratado militar já há mais de 40 anos. Assim sendo, temos duas questões: a primeira é que Síria e Rússia têm interesse em combater e derrotar o terrorismo na Síria, na Rússia, em todo o mundo. Em primeiro lugar, essa é nossa primeira expectativa, nosso primeiro objetivo com os russos.

Nosso segundo objetivo é de longo prazo. A Rússia é muito importante para o equilíbrio global que todos perdemos depois do colapso da União Soviética. Assim sendo, a presença da Rússia aqui, militarmente e politicamente, na Síria e no Oriente Médio e em todo o mundo é fator muito importante para o equilíbrio. Não é só importante para a própria Rússia e demais superpotências; esse equilíbrio é muito importante para os países menores, como a Síria. O que esperamos da Rússia é isso, e nos dois níveis [local e global]: combater o terrorismo e preservar o equilíbrio global.

Jornalista: Estive em Ghouta Oriental e vi que sofreu destruição brutal, completa. Tanto quanto sei, o senhor precisa de $400 bilhões para reconstruir o país, mas o ocidente diz que não dará um vintém enquanto o senhor estiver no poder. O que o senhor pode fazer nessa situação? O senhor vai reconstruir todo o país?

Presidente Assad: Sinceramente, o ocidente disse isso durante a guerra, que aqueles países não participariam da reconstrução da Síria. E não participação, simplesmente porque não permitiremos que participem, venham com dinheiro ou não, seja empréstimo, doação, presente, seja o que for: não precisamos do ocidente. O ocidente não é honesto, nada dão, só tiram. Para começar, os sírios ao longo da história não construímos a Síria com dinheiro de fora; construímos com nosso dinheiro e nossos recursos humanos. Apesar da guerra, ainda temos os recursos humanos para reconstruir cada setor de nosso país. Essa questão não nos preocupa.

Quanto ao dinheiro, antes da guerra a Síria não tinha dívidas, porque construímos nosso país com alguns empréstimos de nossos amigos. Não temos dinheiro. Mas se pode conseguir empréstimos dos países amigos, podemos receber dinheiro de sírios que vivem fora daqui, de sírios que permanecem na Síria e os recursos do governo. Não estamos preocupados com isso. Talvez demore um pouco mais, mas reconstruir a Síria não é questão que nos preocupe. Não esqueça que reconstrução depois da guerra, quando se fala de aproximadamente $400 bilhões, um valor aproximado, é questão que mobiliza toda a economia, um mercado inteiro, investimentos de peso. Os europeus que dizem que vêm para reconstruir não vêm para ajudar Síria; vêm para investir e ganhar dinheiro. Há muitas empresas europeias que já estão em contato conosco para que lhes abramos o caminho, para vir e investir na Síria.

Jornalista: São negociações sigilosas?

Presidente Assad: Claro que sim, sigilosas, claro. Mas com o apoio dos respectivos governos. Todos, sim, precisam desse mercado. Desde 2008 os países europeus, quase todos, vivem situação economicamente muito difícil. Precisam de muitos mercados. A Síria é um desses mercados e não vamos admitir que venham pelas regras deles; se vierem, virão pelas nossas regras. É simples.

Jornalista: Quando falamos sobre a restauração de todo o país, significa a restauração da confiança e da amizade entre os cidadãos, porque a guerra pode ser vista em parte como guerra entre irmãos, por diferenças religiosas ou diferenças de ideias. Nesse caso, o senhor começou com uma comissão constitucional. A oposição preparou lista própria para a Comissão. O senhor é candidato ao próximo mandato presidencial? Como restaurar essa estrutura política da Síria?

Presidente Assad: Para começar, não há guerra civil na Síria, porque guerra civil baseia-se em linhas sectárias, étnicas, religiosas. Nada disso há na Síria. Você pode andar livremente e, especialmente nas áreas controladas pelo governo, você verá todo o espectro da rica sociedade síria, todos vivendo em harmonia. É verdade, não há aí qualquer exagero – a guerra foi lição muito importante. Assim, essa sociedade diversa vai-se tornando hoje mais unida do que antes da guerra, porque aprendeu a lição. Mas se você andar nas áreas controladas pelos terroristas, eles nada têm a ver com a sociedade síria. Na verdade, só refletem o local onde são incubados e de onde vêm, e as pessoas só vivem nessas áreas porque não têm escolha. Na Síria, portanto, nunca houve guerra civil. Aqui não há irmão contra irmão: há mercenários e terroristas contra os sírios. Vocês [russos] também têm terroristas em seu país e não se pode dizer que representem parte da sociedade: terroristas só representam o próprio terrorismo. Aqui na Síria acontece o mesmo. Quanto a reunificar o povo sírio, esse problema é inexistente para nós.

Sobre a presidência, há dois fatores: primeiro, minha vontade, e minha vontade será baseada no segundo fator, que é a vontade do povo sírio. Ainda temos três anos pela frente. Até lá, em 2021, o povo sírio quererá o mesmo presidente? Quererá outro? Se quiser outro presidente, o que valerá eu 'querer' a presidência? Nesse caso, minha resposta será não, não concorrerei. Mas ainda é cedo. Ainda faltam três anos.

Jornalista: Mas e quanto àquelas mudanças na Constituição, que a ONU está exigindo?

Presidente Assad: Fizemos reformas em 2012, e agora temos a conferência de Sochi, que discutirá isso. Nenhuma reforma constitucional se liga ao presidente ou ao governo; só se liga ao povo sírio, e é assim que deve ser – se faremos alguma mudança, algum tipo de emenda, o que for – tudo será feito mediante o referendo nacional. Se houver o referendo nacional e o povo aprovar uma nova Constituição, claro que a cumpriremos, mas nada disso tem qualquer coisa a ver com o desejo da ONU ou de países estrangeiros. Esse processo será integralmente sírio. Se os sírios não quiserem mudanças, não haverá mudanças.

Jornalista: Um dos principais atores são os EUA, e Trump reuniu-se em Singapura com Kim. Recentemente, o Irã disse que jamais nos reuniremos com Trump porque não é muçulmano; e não compreende o que está acontecendo. O senhor, se for necessário, se encontrará com Trump diretamente ou indiretamente? O senhor acha necessário conversar com Trump?

Presidente Assad: Sempre entendemos que conversar e discutir ou negociar com nossos adversários e, claro, com qualquer outro interlocutor, é sempre produtivo. Mas nesse caso, negociamos com os EUA pela primeira vez em 1974, e jamais obtivemos qualquer acordo sobre qualquer assunto. 

O problema de conversar com presidentes dos EUA é que não têm qualquer poder, são reféns dos respectivos lobbies, da grande mídia-empresa, das corporações gigantes, das finanças, do petróleo, de armas, etc. Eles até dizem, às vezes, o que se quer ouvir, mas fazem o contrário, como acontece hoje novamente, e a coisa só piora e piora, e Trump é exemplo muito claro. Por isso, conversar ou discutir com norte-americanos agora, por nada, sabendo que nada se alcançará, é perder tempo. Não interessa discutir com os norte-americanos só porque sejam norte-americanos. Nada significa. Estamos prontos a negociar e conversar com qualquer interlocutor que possa fazer negociação ou conversa produtiva, mas absolutamente não vemos qualquer possibilidade de, em futuro próximo, haver qualquer mudança na política dos EUA. Hoje, repito, seria perda de tempo.

Jornalista: Sempre que penso sobre a Síria, lembro que o senhor é médico, por formação, que estudou e viveu muito tempo em Londres, que é homem integrado naquela sociedade. E, hoje, aquela sociedade vê o senhor como símbolo do pior que pode haver no mundo. E todos estão convencidos – os jornais e os políticos – de que o senhor envenenou pessoas com armas químicas e que o senhor fez coisas horríveis contra seu próprio povo. Como o senhor sente-se sobre isso? Essas coisas o pressionam, emocionalmente, de algum modo? Ou pressionam sua família? Como o senhor explica a eles o que está acontecendo?

Presidente Assad: Fato é que, em termos emocionais, vivemos cercados de desastres, na Síria, já há sete anos. Quando você tem de enfrentar um grande desastre, as pressões menores como que desaparecem. Quero dizer que o sangue derramado de cada sírio, diariamente sacrificado, gera emoção maior que qualquer narrativa forjada que inventem pelo mundo. Isso, em primeiro lugar. Segundo, quando você sabe que o que dizem contra você são mentiras, o que você houve é como que esvaziado de qualquer carga emocional. Há emoções se você sente alguma coisa de crível, de razoável, no que dizem. Nesse caso, sim, pode-se falar de dor emocional ou de pressão emocional. O problema com o ocidente é que já não sabem o que seja um estadista, um homem com laços reais com o próprio povo. Não acontece mais por lá. Hoje os estadistas e a política real foi trocada por simulacros de políticos e de política. Para alimentar os simulacros, é preciso inventar histórias. Os ataques de armas químicas são parte dessa histórias que têm de ser forjadas. 

Na verdade, na política ocidental – não falo do povo, dos eleitores ocidentais, falo dos políticos – já não há qualquer princípio moral, nenhum valor civilizacional. Quando se tem de lidar com gente que não tem moral, não tem valores morais, o contato, digamos assim, não desperta o coração, nem o cérebro, nem qualquer emoção.

Jornalista: Cada vez que se visita Ghouta Ocidental, veem-se dísticos deixados pelo ISIS ou Frente al-Nusra: “Voltaremos.” Para nós [os russos] é assustador, porque gastamos muito dinheiro, perdemos muitos soldados na ação de apoiar a Síria em sua luta contra o “califato.” Para nós, o pensamento de que eles voltem algum dia é assustador. O que lhe parece?

Presidente Assad: Para começar, é essa ideologia, essa ideologia obscura que foi promovida durante os últimos cinco, quase cinco décadas – porque começou no final dos anos 1960s, não é coisa dos anos 1990s ou posterior – em todo o mundo, disseminada principalmente pelos wahhabitas sauditas, e, claro, com o apoio dos EUA e do ocidente em geral. É perigo religioso com apoio político, quer dizer é duplo perigo. Nada aí é movimento espontâneo. 

É claro que os terroristas voltarão, porque serão usados outra vez, outra vez, outra vez pelas potências ocidentais, talvez sob diferentes 'grifes'. Há 30 anos, estavam no Afeganistão, os "combatentes santos" como dizia Reagan. Reagan jamais os chamou de terroristas. Mas é o que são. São terroristas. E o ocidente usa esses terroristas. 

Em dez anos, quem sabe, serão novamente usados em algum ponto do mundo, sob nova marca: o mesmo produto, apenas reformatado. O terrorismo é ferramenta do ocidente. Faz perfeito sentido que você sinta o perigo latente.

Isso, em primeiro lugar. Em segundo lugar, também faz sentido que você se preocupe, mesmo na Rússia, mas não porque morreram russos na Síria, mas porque os mesmos terroristas estão também na Rússia. Como eu vejo tudo isso? Se esses terroristas forem bem-sucedidos na Rússia, os sírios também estarão em perigo, porque virão para a Síria e para outros países, e também o contrário. 

Os russos aqui defenderam os sírios, mas também defenderam os russos. Houve um preço alto a pagar na Síria, defendendo sírios, mas também os russos foram defendidos. Terrorismo não é movimento que se deixe paralisar por fronteiras por fronteiras políticas; para esses terroristas, há um só campo de batalha, da Rússia até a Síria, talvez até a Indonésia, talvez até o Marrocos, no Oceano Atlântico.

Jornalista: Como o senhor deterá a ocupação no norte da Síria, depois desse acordo entre EUA e Turquia, em território sírio?

Presidente Assad: Adotamos duas vias: a primeira e principal foi a reconciliação; deu certo. Foi assim que conseguimos trazer aquelas áreas de volta à normalidade, com o povo vivendo normalmente e o governo governa e as instituições funcionam. A outra via é atacar os terroristas nos pontos em que não tenham ainda cedido e não se interessem pela reconciliação. Vamos atacá-los e assumir pela força o controle daquelas áreas. Não é o meio que preferimos, mas é o único modo de retomar o controle do território.

Jornalista: Mas parece que as áreas foram separadas, que estão divididos entre eles. Acho que norte-americanos e turcos entendem que aquele território é controlado... 

Presidente Assad: Não é verdade. Não acredite nisso. Os EUA controlam tudo, controlam a Turquia; e os EUA avisaram a Turquia, há cinco anos, quando Erdogan quis invadir a Síria, e os EUA o proibiram. Por quê? Porque naquele momento os terroristas estavam vencendo, estavam em expansão... Para quê os EUA precisavam de Erdogan naquele momento? Quando os terroristas foram forçados a começar a recuar, os americanos disseram a Erdogan que "OK, agora você pode interferir, porque a guerra está pendendo para o lado dos sírios e russos e para o grupo do Irã, e todos que estão combatendo contra os terroristas... OK, melhor você [Turquia] intervir agora, só para aumentar a confusão novamente". Isso é o que está acontecendo hoje. 

Mas na verdade são áreas controladas pelos EUA, só pelos EUA, mais ninguém.

Jornalista: E por isso tanto pressionam o Irã? É o que o senhor está dizendo?

Presidente Assad: Exatamente. Por diferentes razões, mas no fim comandam o ISIS no leste e apoiaram o ISIS no leste, e apoiaram a Frente al-Nusra em Idlib no noroeste, e apoiaram al-Nusra e ISIS e outras facções no sul. Os norte-americanos. Mas os norte-americanos atribuem 'funções' diferentes a diferentes países. Às vezes mandam os turcos, às vezes, os sauditas, às vezes os qatari... Mas todos esses países, inclusive França e Grã-Bretanha, todos eles são satélites, fantoches dos norte-americanos, para dizer de forma simples e clara.

Jornalista: Muito obrigada pela entrevista.
Presidente Assad: Obrigado a você.

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