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Diário Liberdade
Quarta, 17 Outubro 2018 01:05 Última modificação em Terça, 30 Outubro 2018 20:57

Bem-vindo ao inferno do G-20

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/ Laboral/Economia / Fonte: Resistir

[Pepe Escobar] Líderes mundiais lutam com um turbilhão de questões complexas e candentes quando se preparam para cimeira de 30 de Novembro.

A cimeira G-20 em Buenos Aires, em 30 de Novembro, poderia atear um incêndio mundial – talvez literalmente. Vamos começar com a guerra comercial EUA-China. Washington nem mesmo começará a discutir comércio com a China no G-20 a menos que Beijing proponha uma lista bastante pormenorizada de potenciais concessões.

A atitude dos negociadores chineses não é de todo negra. Alguma espécie de acordo poderia ser alcançada sobre um terço das exigências estado-unidenses. O debate sobre outro terço poderia seguir-se. Mas o último terço está absolutamente fora dos limites – devido a imperativos chineses de segurança nacional, tal como a recusa a permitir a abertura do mercado interno de computação cloud à competição estrangeira.

Beijing nomeou o vice-primeiro-ministro Liu He e o vice-presidente Wang Qishan para supervisionar todas as negociações com Washington. Eles enfrentam uma tarefa árdua: atravessar o limitado espaço de atenção do presidente Donald Trump.

Acima de tudo, Beijing exige um "responsável" ("point person") com autoridade para negociar em nome de Trump – considerando o congestionamento de mensagens mistas que emanam de Washington.

Agora compare isto com a mensagem vinda do instituto de investigação fantasticamente chamado Pensamento Xi Jinping sobre Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era, sob a alçada da Escola do Partido do Comité Central do Partido Comunista da China (PCC): os EUA começaram a "fricção comercial" essencialmente "para perturbar o aperfeiçoamento industrial da China".

Este é o consenso no topo

E o choque está destinado a ficar pior. O vice-presidente Mike Pence acusou a China de "imiscuir-se na democracia americana", na "diplomacia da dívida", na "manipulação da divisa" e no "roubo de IPs". O ministro dos Negócios Estrangeiros em Beijing descartou tudo isto como "ridículo" .

É instrutivo prestar atenção ao que o ministro dos Estrangeiros Wang Yi disse ao Council on Foreign Relatlions – tão diplomaticamente quanto possível: "A China seguirá um caminho de desenvolvimento diferente das potências históricas". E a China não procurará hegemonia.

Do ponto de vista da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, isso é irrelevante; a China tem sido falsamente acusada de competidora brutal e mesmo uma ameaça. O presidente Xi Jinping não se dobrará às exigências comerciais de Washington. Assim aguarda-se uma possível não-reunião entre Xi e Trump em Buenos Aires.

A ameaça de um primeiro ataque nuclear

As coisas parecem mais hirsutas na frente russa. Apesar de toda a paciência taoísta do ministro dos Estrangeiros Sergy Lavrov, círculos diplomáticos em Moscovo estão exasperados pelas graves ameaças americanas – como a de a US Navy impor um bloqueio para restringir o comércio de energia russo. Ou pior: o ultimato de que a Rússia deve cessar de desenvolver um míssil que, segundo Washington, viola o Tratado Intermediate Range Nuclear Forces (INF), caso contrário o Pentágono o destruirá.

Isto é tão sério quanto parece – porque equivale a comprometer-se com um primeiro ataque nuclear dos EUA.

Em paralelo, o presidente da BP, Bob Dudley, disse na conferência Oil & Money em Londres que quaisquer sanções adicionais dos EUA contra companhias de energia russas de topo seriam desastrosas. "Se sanções fossem aplicadas à Rosneft ou à Gazprom ou à Lukoil como as que foram aplicadas à Rusal, virtualmente seriam encerrados os sistemas de energia da Europa, é algo de uma coisa extrema a acontecer", disse ele.

Na frente dos BRICS, a Rússia e a Índia habilmente manobraram por conta própria e conseguiram esborrachar o planeamento geoestratégico dos EUA contra os três principais pólos de integração da Eurásia: Rússia, China e Irão.

O Quarteto – EUA, Japão, Austrália, Índia – fora concebido para tolher a China no Índico-Pacífico e em paralelo confinar a margem de manobra da Rússia. O Quartelo não está exactamente em excelente forma depois de a Índia ter decidido comprar sistemas anti-mísseis S-400 russos.

Além do acordo do S-400, companhias russas construirão seis reactores nucleares adicionais na Índia, a um custo de US$20 mil milhões cada um, ao longo da próxima década. A Rosneft assinou um acordo de 10 anos para vender à Índia 10 milhões de toneladas de petróleo por ano. E a Índia continuará a comprar petróleo do Irão, pagando por ele em rupias.

Na frente da UE, tudo gira em torno da Alemanha. Em Berlim há poucas ilusões acerca do futuro vacilante da UE. A economia alemã centrada na exportação está focada na Ásia. A Alemanha está a redobrar a solidificação de um modelo estilo asiático – algumas grandes empresas que são campeãs nacionais capazes de turbinar exportações. O mercado dos EUA – sob ventos protecionistas – agora é apenas uma reflexão tardia.

Trópicos tóxicos

E então há a tragédia brasileira. O presidente Maurício Macri arruinou a Argentina com um choque neoliberal. A nação é agora um refém do FMI.

Um cenário possível é um G-20 no qual a Argentina estará a aprender como tratar com um fascista a liderar seu vizinho próximo e parceiro comercial importante, o Brasil.

Antigo paraquedista, Jair Bolsonaro pode ser xenófobo e misógino, mas certamente não é nacionalista. O "Messias" tropical auto-apregoado saúda rotineiramente a bandeira dos EUA. Seu sucessor económico é um Chicago Boy que quer vender o país – para o deleite dos "investidores" e peritos em "mercado" desde Nova York e Zurique até Rio e São Paulo.

Esqueçam a criação de empregos ou mesmo a tentativa de resolver imensos problemas sociais do Brasil: desigualdade social aguda, investimentos prementes em saúde e educação, insegurança urbana. A única "política" de Bolsonaro é armar a população em estilo Mad Max.

Tudo sob Bolsonaro deveria prosseguir sob o reino absoluto de um mercado "livre" Hobbesiano. Esqueçam acerca de qualquer possibilidade uma intervenção moderada do Estado nas complexas relações entre o Capital e o Trabalho.

Isto é o cume de um processo complexo desencadeado anos atrás no Brasil através de think tanks tais como a Atlas Network , cargas de dinheiro e, por último mas não menos importante, um tsunami evangélico/neo-pentescostalista.

Os pilares da carnificina brasileira são poderosos interesses do agro-business e da exploração mineral, os tóxicos media "de referência" brasileiros, evangélicos, um sector financeiro totalmente subserviente à Wall Street, a indústria de armas, o judiciário completamente politizado, a polícia, os serviços de inteligência e as forças armadas.

E as estrelas do espectáculo são naturalmente o conjunto Boi-Bíblia-Bala – com os seus montes de membros no Congresso – supervisionados pela Deusa do Mercado.

O neoliberalismo nunca ganha eleições no Brasil. Assim, o único meio de implementar "reformas" através de um sub-Pinochet. Esperem devastação social-ambiental generalizada, matança indiscriminada de líderes rurais e índios brasileiros, uma absoluta prosperidade para a indústria de armas, bancos a celebrarem o Natal toda semana, repressão cultural abissal, desnacionalização total da economia e trabalhadores e pensionistas a pagarem por todas estas "reformas". Chamem a isto negócios como de costume.

As tendências fascistas de Bolsonaro foram normalizadas não apenas pelos poderes do Brasil. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Argentina, Jorge Faurie, qualificou-o como um político de "centro-direita".

Beijing e Moscovo – devido aos BRICS – e a UE em Bruxelas estão estarrecidos pelo afundamento do Brasil dentro do turbilhão. A Rússia e a China contavam com um Brasil forte contribuindo para um mundo multipolar durante o período de Lula, o qual era uma importante força condutora do BRICS.

Para a UE, é difícil tolerar um fascista a liderar seu principal parceiro comercial na América Latina e o cerne do Mercosul. Para o Sul Global como um todo, a implosão do Brasil, um dos seus líderes, é uma tragédia absoluta.

Agora imagine Washington como um furioso compêndio de ameaças e sanções. Uma UE fracturada ao máximo – denunciando o não-liberalismo asiático enquanto impotente para combater a "ascensão dos deploráveis" em casa. Os BRICS em desordem, com dois num confronto grave com Washington, um fora do jogo e um em cima do muro – entre os quatro primeiros. A Casa de Saud a apodrecer a partir de dentro. O Irão nem mesmo na mesa do G-20. Hora de cantar Que mundo maravilhoso .

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