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Diário Liberdade
Sábado, 30 Julho 2016 12:36 Última modificação em Quarta, 03 Agosto 2016 21:38

Brexit - Porque é que os eleitores Ignoram os especialistas?

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País: Reino Unido / Laboral/Economia / Fonte: O Diário

[Pisani-Ferry] Mesmo os epígonos do sistema do capital, como é o caso de Jean Pisani-Ferry, têm dificuldade em esconder a frustração que a União Europeia e outras estruturas de domínio do capital monopolista provocam nos cidadãos.

Neste texto, o autor procura explicar aos propagandistas que transbordam nos meios de comunicação disfarçados de jornalistas, comentadores, peritos e especialistas, como agir para alterar o sentimento reinante em «um número significativo de cidadãos que se tornou hostil aos especialistas».

Quando os cidadãos britânicos foram a votos em 23 de Junho para decidir se o seu país continuava na União Europeia, não houve falta de aconselhamento para ficarem na Comunidade. Líderes estrangeiros e autoridades morais manifestaram a sua legítima preocupação sobre as consequências de uma saída, os economistas não se cansaram de avisar sobre os custos económicos significativos que uma saída da União Europeia acarretaria.

Mas os avisos foram ignorados. Um pré-referendo YouGov explica porque aqueles que votaram saída não tiveram qualquer interesse em escutar opiniões. Não acreditaram em políticos, académicos, jornalistas, organizações internacionais ou pensadores. Como dizia um dos lideres da campanha pela saída, o secretário de Justiça, Michael Gove, que tentou suceder a David Cameron como Primeiro-Ministro, «as pessoas deste país já têm de especialistas que chegue».

É tentador entender esta atitude como um triunfo sobre a racionalização. Este padrão visto na Grã-Bretanha é já muito familiar nos Estados Unidos. Os eleitores republicanos não ligaram aos políticos e nomearam Donald Trump como seu candidato presidencial. Em França, Marine Le Pen, líder da extrema-direita na Frente Nacional, pouca simpatia tem nos especialistas, mas tem grande apoio popular. Por toda a parte um número significativo de cidadãos tornou-se hostil aos especialistas.

Porquê esta atitude irritada para com os especialistas e opinadores? A primeira explicação é que muitas pessoas dão pouco valor às opiniões dos que não os avisaram a tempo dos riscos de uma crise financeira em 2008. A Rainha Isabel II falou por muitos quando numa visita à Faculdade de Economia de Londres, no Outono de 2008, perguntou porque ninguém a viu chegar. Além disso, a suspeita de que os economistas que foram apanhados pela indústria financeira, situação apresentada no filme de 2010, Inside Job, não foi aplacada. As pessoas normais estão iradas pelo que consideram uma traição da parte dos intelectuais.

A maioria dos economistas, e especialistas noutras disciplinas, enfrentam acusações de mau comportamento, porque só alguns deles se dedicam a escrutinar os desenvolvimentos financeiros, embora a sua credibilidade tenha sido seriamente atingida. Como ninguém se considerou culpado pelo sofrimento que se seguiu a esta crise, a culpa tornou-se colectiva.

A segunda explicação tem a ver com as políticas seguidas pelos especialistas. São acusados de serem donos da verdade, não necessariamente porque são engodados por interesses especiais, mas porque como numa profissão, apoiam a mobilidade de trabalho internacional, a abertura de comércio e em geral a globalização.

Há uma certa verdade neste argumento embora nem todos os economistas e certamente nem todos os cientistas sociais, advoguem a integração internacional. Estão sem duvida mais inclinados a receber os seus benefícios do que o cidadão comum.

Os pontos da terceira e melhor explicação são: enquanto os especialistas sublinham os benefícios essenciais de abertura, tendem a não prestar atenção ou a minimizar os seus efeitos nalgumas profissões ou comunidades. Encaram a imigração — à qual Cameron atribuiu a vitória da campanha do SAIR — como um benefício claro para a economia, mas não ligaram ao que isso implica para trabalhadores que sofrem a pressão dos juros ou para comunidades que lutam com a escassez de casas, escolas cheias e um sistema exausto de saúde. Por outras palavras são culpados de indiferença.

Esta crítica está muito correcta. Como Ravi Kanbur da Universidade Cornell indicou há muito, os economistas (e os fazedores de politica) tendem a ver os problemas dos agregados, numa perspectiva de meio-termo, e a assumir que os mercados trabalham o suficiente para absorver uma grande parte de choques adversos. As suas perspectivas embatem nas perspectivas das pessoas que se preocupam mais com assuntos de distribuição, têm ideias diversas de horizontes de tempo (quase sempre mais curtas) e tomam cuidado com o comportamento monopolístico.

Se os economistas e outros especialistas querem reconquistar a confiança dos seus concidadãos, não deviam ficar indiferentes a estes problemas. Primeiro deviam ser humildes e evitar as palavras ocas. Deviam basear as suas visões políticas numa evidência credível, em vez de pré-concepções. E deviam mudar de ideias se o tempo não confirmar as suas crenças. Isso estaria mais de acordo com o que os pesquisadores fazem actualmente; mas quando falam em público, os especialistas tendem a simplificar demais as suas opiniões.

Para os economistas, a humildade também implica ouvir as pessoas de outras disciplinas. Sobre a imigração, deviam ouvir o que os sociólogos, cientistas políticos, ou psicólogos têm a dizer sobre o que pode advir da coexistência em comunidades multiculturais.

Segundo, os especialistas deveriam ser mais granulares na sua aproximação. Deviam examinar tipicamente o impacto de políticas não só no conjunto PGB a médio prazo, mas também os efeitos das políticas agindo através do tempo, do espaço e entre categorias sociais. Uma decisão política pode ser positiva no agregado mas muito má para alguns grupos — o que acontece frequentemente com as medidas de liberalização.

Terceiro, os economistas deveriam mover-se acima (é geralmente correcto) da observação de como esses efeitos distributivos podem ser efectuados através de impostos e transferências, e descobrir como realmente isso acontece. Sim, se a decisão politica levar a lucros do agregado, os perdedores podem em principio ser compensados. Mas é mais fácil dizê-lo que fazê-lo.

Na prática, é frequentemente difícil identificar os perdedores e encontrar o instrumento certo para os apoiar. Afirmar que esse problema pode ser resolvido sem examinar como e em que circunstancias pode ser feito, é pura preguiça intelectual. Dizer às pessoas que foram feridas que poderiam ter escapado à dor, não lhes dá menos razão de queixa; fornece-lhes o combustível do ressentimento pelos especialistas tecnocráticos.

Devido à crescente desconfiança pública nos especialistas cria-se um terreno fértil para os demagogos, coloca-se uma ameaça à democracia. Académicos e politólogos podem ser tentados a responder não acreditando no que parece ser uma celebração de ignorância e de retiro para a torre de marfim. Mas isso não melhora os factos. E não é preciso rendição. O que é preciso é maior honestidade, mais humildade, mais análise granular, e prescrições melhores.

* Economista

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