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Quinta, 15 Setembro 2016 17:45 Última modificação em Terça, 20 Setembro 2016 15:46

A gênese da teoria do imperialismo

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País: Rússia / Batalha de ideias / Fonte: Grabois

Recuperamos um trabalho publicado há quase 20 anos na revista Princípios, sobre a importáncia da teoria do imperialismo difundida por Lenine na obra Imperiailsmo, fase superior do capitalismo.

[Luís Fernandes] A teoria do imperialismo, elaborada por Lênin cinqüenta anos depois da obra "O Capital" de Karl Marx, representou um avanço fundamental na compreensão teórica do marxismo sobre a realidade do sistema capitalista no século XX.

Mesmo hoje, mais de setenta anos depois da sua primeira publicação, o livro de Lênin "O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo" surpreende quem quer que o leia com espírito isento e objetivo, pela grande atualidade das suas formulações essenciais. Neste artigo, examinaremos como a teoria leninista surgiu do debate teórico sobre o imperialismo no início do século, sabendo apoiar-se e ao mesmo tempo superar diversas formulações que, aberta ou veladamente, se afastavam de uma compreensão marxista desse fenômeno.

O próprio significado do termo "imperialismo" sofreu uma profunda mudança na literatura política, econômica e social no decorrer do século XIX. No início desse século, ele estava mais vinculado à caracterização de sistemas de governo dominados pela figura de um imperador. Na França, por exemplo, era empregado para identificar as idéias dos defensores do Império Napoleônico. Ou então, os governos dos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II no Brasil poderiam ser classificados de "imperialistas". Só no final do século passado é que o termo "imperialismo" passou a ter um significado mais ou menos semelhante ao da linguagem comum de hoje — a ação de um Estado no sentido de estender a sua soberania sobre outros povos, nações e territórios.

O pano de fundo para esta mudança no significado do termo foi a grande corrida de expansão colonial das grandes potências européias nas três últimas décadas do século XIX. O livro de Lênin traz bastante dados sobre a expansão territorial das potências capitalistas naquele período. Basta dizer que foi a época da partilha e ocupação da maior parte da África e da Ásia, sem falar na afirmação da hegemonia britânica na América Latina. Mas esta "recaída" de expansão colonial, associada a um rápido desenvolvimento do sistema capitalista no mundo, suscitava problemas e desafios teóricos novos para os pensadores dos mais diferentes matizes. Afinal, a afirmação do capitalismo, sobretudo após a Revolução Industrial, era tida, até então, como um processo que levaria à decomposição dos antigos impérios coloniais. A lógica do novo sistema se apresentava como "anti-mercantilista" e se apoiava na defesa teórica do "livre mercado" por Adam Smith. Como explicar, então, esta aparente anomalia?
Na passagem do século XIX para o século XX desenvolveu-se um rico debate teórico entre autores dos mais diversos quadrantes, que procuravam "dar conta" deste novo imperialismo. O autor mexicano Alonso Aguilar Monte-verde fornece a seguinte lista parcial de alguns estudos mais importantes sobre o imperialismo que surgiram nesse período:

Swift, "O Imperialismo e a liberdade", Los Angeles, 1899
Bérard, "A Inglaterra e o imperialismo", Paris, 1900
Lair, "o imperialismo alemão", Paris, 1902
Hobson, "O imperialismo", Londres, 1902
Seiltière, "A filosofia do imperialismo", Paris, 1903
Louis, "Esboço do imperialismo", Paris, 1904
Revue Socialiste. "O imperialismo anglo-saxão", Paris, 1904
Patouillet, "O imperialismo norte-americano", Dijón, 1904
Du Hemme, "O imperialismo financeiro", Paris, 1910
Esteve, "Uma nova psicologia do imperialismo", Paris, 1913.

Nota-se que uma boa parte desta literatura se ocupava em denunciar o imperialismo dos outros... De todos estes trabalhos, a análise mais séria do imperialismo é desenvolvida pelo jornalista inglês John Hobson. O próprio Lênin, na abertura do seu livro "Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo", faz as seguintes observações sobre Hobson — "O autor, que defende o ponto de vista do social-reformismo e do pacifismo burguês — ponto de vista que coincide, no fundo, com a posição do atual ex-marxista Karl Kautsky — faz uma descrição excelente e pormenorizada das particularidades econômicas e políticas fundamentais do imperialismo"

Hobson foi o 1º a abordar o tema sistematicamente

O livro "Imperialism — A Study" de John A. Hobson foi, de fato, a primeira obra a tentar abordar o fenômeno do imperialismo de forma mais profunda e sistemática. O imperialismo é definido pelo autor inglês como “a política de um Estado expandir para além dos limites da sua nacionalidade’”. Por esta concepção, o termo se associa unicamente à prática do colonialismo aberto. Mas Hobson não se prende unicamente às aparências deste fenômeno. Horrorizado com a corrida das principais potências do seu tempo para a partilha da África e da Ásia, ele procura identificar os impulsos e os interesses que serviam de força motriz para a nova escalada colonialista.

Aqui reside a grande contribuição de Hobson na discussão teórica sobre a natureza do imperialismo. Ele identifica que o novo colonialismo tem motivações essencialmente econômicas, relacionadas com o papel do capital financeiro nas sociedades capitalistas modernas.
"A raiz econômica do imperialismo é o desejo de poderosos interesses financeiros e industriais de assegurar mercados privados para os seus bens e capitais excedentes, às custas do dinheiro público e da força pública".

Ao colocar o problema do "excesso de bens e de capital", Hobson retoma formulações da chamada "teoria do subconsumo" desenvolvida por economistas como Sismondi e Rodbertus no século passado. A distribuição desigual de riquezas nas sociedades modernas geraria uma de "subconsumo" crônico por parte da maioria de consumidores, já que a capacidade de consumo estaria permanentemente defasada da capacidade de produção na economia. Por outro lado, isto provocaria um quadro de "super-poupança" crônica, já que os grandes investidores não achariam escoamento para as suas mercadorias na economia interna, o que diminuiria a lucratividade dos seus investimentos.

A teoria do "subconsumo" de Sismondi foi criticada em várias obras de Marx e Engels. As mesmas observações críticas valem também para Hobson. Em primeiro lugar, eles chamam atenção para o fato do problema do "subconsumo" não ser um fenômeno unicamente capitalista, já que ele se fez sentir com força em todas as diferentes formações sociais pré-capitalistas na história humana. Assim, ele não poderia por si só explicar o surgimento das crises capitalistas de superprodução, que só começam a se manifestar na passagem do século XVIII para o século XIX. Da mesma forma, ao abordar um problema crônico na economia, a teoria do "subconsumo" não consegue explicar a ocorrência de crises cíclicas no sistema capitalista. Por fim, a teoria marxista das crises do capitalismo localiza a sua raiz nas condições de produção, enquanto que a teoria de Sismondi (adotada por Hobson) localiza o cerne do problema fora da produção — nas relações de distribuição. Vale lembrar que, para a economia política marxista, as relações de distribuição e de troca no mercado estão condicionadas e subordinadas às relações de produção.

Para o autor inglês, no entanto, este estrangulamento provocado pelo "subconsumo" levava os grandes grupos financeiros e industriais a se valerem do poder de Estado para tentar conquistar novas áreas de investimento no globo. Era este o impulso econômico fundamental por trás da política imperialista de expansão colonial. Cabe ressaltar que, para Hobson, o fator essencial era a procura de mercados para o investimento de capital. Mesmo a obtenção de termos mais favoráveis de comércio, através do colonialismo, estaria subordinada ao objetivo maior de aumentar a lucratividade dos investimentos realizados nas colônias. Neste aspecto, sua análise é muito mais avançada e correta do que a de boa parte dos nossos estudiosos contemporâneos, que situam a problemática do imperialismo fundamentalmente na questão dos termos desiguais do comércio, sem compreender a diferenciação essencial entre o imperialismo capitalista moderno e o colonialismo de períodos anteriores. Outra contribuição de Hobson para a compreensão do imperialismo foi identificar seu caráter parasitário nas sociedades capitalistas dominantes. Na sua opinião, o imperialismo beneficiava apenas uma minoria dessas sociedades — justamente os grupos dominantes — que faturavam em cima dos lucros extras obtidos nos empreendimentos coloniais. Comparando o parasitismo dos grandes grupos financeiros ao parasitismo das oligarquias no antigo Império Romano, o autor inglês concluía que o imperialismo condenava as próprias potências coloniais a um futuro de decomposição, atrofia, decadência e até mesmo extinção.

Mas é na hora de apresentar a alternativa ao imperialismo que os limites da análise de Hobson se tornam mais aparentes. Para ele, o imperialismo não se tratava de uma etapa necessária ou intrínseca ao sistema capitalista, e sim de uma política adotada por grupos dominantes para avançar os seus interesses às custas do resto da Nação. Nestes termos, o imperialismo era visto como uma distorção no desenvolvimento do capitalismo. O seu questionamento do imperialismo não levava a um questionamento da propriedade privada capitalista em si. Sua conclusão era de que uma política de redistribuição de renda quê combatesse as distorções do sistema evitariam o quadro de "subconsumo" e "super-poupança", e, portanto, o próprio imperialismo. É neste sentido que seu pensamento político pode ser melhor caracterizado como "liberal-reformista". Em certa medida, ao defender uma ação firme do Estado capitalista no combate à concentração de riquezas, Hobson foi precursor de certas idéias que seriam desenvolvidas mais adiante pelo próprio Keynes. Apesar de não ser marxista, a análise de Hobson acabou tendo grande influência no debate marxista sobre o imperialismo no início do nosso século.

A primeira obra de maior profundidade que procurou analisar o fenômeno do imperialismo pela ótica da teoria marxista foi o livro "O Capital Financeiro" de Rudolf Hilferding. Esta obra do economista austríaco, que foi dirigente do Partido Social-Democrata alemão e até ministro de Estado na. Alemanha na década de 20, foi publicada pela primeira vez em 1909. O livro não se propunha a analisar propriamente o imperialismo, e sim as "características econômicas da fase mais recente de desenvolvimento capitalista", como pode ser lido no prefácio do próprio autor. Mas como a fase a ser descrita abarcava justamente o período da nova expansão colonial que passou a ser conhecida como "imperialismo", a obra entrou para a história como a primeira elaboração teórica marxista a tentar dar conta do fenômeno. Na abertura da sua obra clássica sobre o imperialismo, Lênin fez as seguintes considerações sobre o trabalho do autor austríaco.

O monopólio é a principal marca do imperialismo

"Apesar do erro do autor quanto à teoria do dinheiro e de certa tendência para conciliar o marxismo com o oportunismo, a obra mencionada constitui uma análise teórica extremamente valiosa da 'fase mais recente do desenvolvimento do capitalismo' (tal é o subtítulo do livro de Hilferding)".
A grande contribuição de Hilferding é mostrar a relação do imperialismo com o que ele considera a principal marca do capitalismo moderno: o processo de monopolização que, por um lado, elimina a livre concorrência através da formação de cartéis e trustes, e por outro, leva a uma relação cada vez mais "íntima" do capital industrial com o capital bancário, formando o que ele chama de "capital financeiro".

A inevitabilidade da concentração e monopolização das economias capitalistas já havia sido apontada anteriormente por Marx. O que Hilferding mostra é que, no início do século XX, este processo já estava de tal forma adiantado que os monopólios passavam a dominar o grosso das economias capitalistas.

A formação do "capital financeiro" seria um patamar superior dentro deste processo. Com o desenvolvimento do capitalismo, haveria um crescimento contínuo do dinheiro à disposição dos bancos, que o fornecem na forma de créditos para os industriais. O controle destes fundos massivos está nas mãos dos bancos. Assim, se acentua cada vez mais a dependência dos industriais em relação aos bancos. Uma parte cada vez maior do capital empatado na indústria não pertence aos industriais que o aplicam. Estes têm acesso ao grande volume de capital exigido por intermédio dos bancos. Por seu lado, os bancos têm que investir uma parte cada vez maior do seu capital na indústria, e se transformam cada vez mais em capitalistas industriais. Desta forma, o capital investido na indústria toma cada vez mais a forma do "capital financeiro" — capital à disposição dos bancos que é usado pelos capitalistas industriais. Este "capital financeiro" atinge o seu apogeu com a monopolização tanto dos bancos como da indústria, quando os mesmos magnatas passam a dominar acionariamente tanto os grandes bancos quanto as grandes empresas industriais.

O processo de monopolização descrito acima leva à acumulação de gigantescos lucros extras. Estes, por sua vez, após serem capitalizados, retornam aos bancos que passam a concentrar grandes somas de capital. Mas, ao mesmo tempo, a monopolização tende a provocar uma redução dos investimentos de capital na economia. Isto tanto nos setores monopolizados da indústria (já que a preocupação primeira do monopólio seria restringir a produção para explorar preços monopolistas artificialmente altos), quanto nos setores não-monopolizados (já que a grande diferença nas taxas de lucros dessas indústrias em relação aos monopólios desestimularia novos investimentos). A conseqüência é que o volume de capital destinado à acumulação aumenta rapidamente, enquanto as oportunidades de investimento se contraem. O resultado é uma forte pressão para a exportação de capital em direção a áreas que permitam uma taxa de lucro mais elevada, em especial para os territórios coloniais do "além-mar" que ainda não tivessem sido industrializados. Este seria o impulso econômico fundamental do imperialismo.

A análise feita por Hilferding tem contradições

A análise do imperialismo desenvolvida por Hilferding tem algumas implicações interessantes, e de certa forma contraditórias. Ao contrário de Hobson que vinculava o imperialismo a uma "distorção distributiva" do capitalismo, o autor austríaco mostra como ele se vincula a uma etapa absolutamente inevitável (nos marcos do sistema) de predomínio dos monopólios. Mas no tocante à realidade interna das potências capitalistas centrais, ele considerava que o altíssimo grau de monopolização gerava uma tendência a atenuar o impacto das crises cíclicas do sistema. Ele chegava mesmo a afirmar que este processo, levado às últimas conseqüências, tenderia até mesmo a eliminar as crises cíclicas e inaugurar um novo período de desenvolvimento capitalista planificado. Esta formulação contém já o germe da sua teoria sobre o "capitalismo organizado", que viria a desenvolver mais tarde. No fundo, a concepção é de que o predomínio dos monopólios elimina a concorrência do seio das economias capitalistas, permitindo a regulação consciente da produção, mesmo com a sociedade dividida em classes antagônicas. Nesta sociedade monopolizada ao extremo, a luta para expropriar a oligarquia dominante seria a última fase da luta de classe entre a burguesia e o proletariado.

Só que, segundo Hilferding, como o "capitalismo organizado" avança tanto na regulação da produção, os monopólios acabam facilitando enormemente a transição para o socialismo. Assim, nas condições da Alemanha do início do século, bastaria à sociedade "tomar nas mãos seis grandes bancos de Berlim" para controlar as esferas mais importantes da indústria. Com base neste raciocínio, o economista austríaco resvalou para posições centristas e de conciliação com o oportunismo na crise da Segunda Internacional, supervalorizando o caminho parlamentar-pacífico para a tomada do poder pelo proletariado. A conseqüência histórica-prática dessa orientação foi a vitória do nazismo na Alemanha. Podemos dizer que a conclusão política do pensamento de Hilferding também não saiu dos limites do reformismo.

Esta formulação de Hilferding sobre o "capitalismo organizado" teve profunda influência em dois outros autores famosos que procuraram situar sua análise do imperialismo em termos marxistas — Karl Kautsky e Nikolai Bukharin. Contemporâneo de Hilferding e dirigente do mesmo partido, Kautsky era tido como o "maior teórico marxista" do início do nosso século. Por isso é de estranhar que ele não tenha dedicado uma obra teórica de maior fôlego à análise do imperialismo. Suas observações sobre o tema estão espalhadas por diferentes artigos e panfletos. Em certo sentido, sua posição pode ser considerada um "desdobramento" da concepção do "capitalismo organizado" de Hilferding.
Lênin dedica boa parte de sua obra clássica sobre o imperialismo a. demolir a posição de Kautsky sobre o assunto, sem encontrar nada que "se salvasse". Kautsky procura extrapolar a formulação de Hilferding para o marco mundial, desenvolvendo sua tese sobre a possibilidade de uma nova fase de "ultra-imperialismo" Para Kautsky os monopólios eliminam a concorrência
"A furiosa concorrência entre fábricas gigantes, bancos gigantes e bilionários levou ao surgimento da idéia do cartel das grandes potências financeiras, que engolem as potências menores. Da guerra mundial entre as grandes potências pode surgir, agora, a federação das potências mais fortes, o que dará um fim à corrida armamentista. Do ponto de vista puramente econômico, portanto, não está excluída a possibilidade do capitalismo passar por outra fase, a da transferência da política dos cartéis para a política externa, a fase do ultra-imperialismo".

No fundo desta formulação está a mesma concepção de Hilferding, de que o predomínio dos monopólios elimina a concorrência. Só que Kautsky transpõe isto para a análise da disputa interimperialista mundial, indo bem mais longe do que o seu antecessor austríaco. Para Kautsky, a ameaça de guerra no mundo poderia ser evitada mesmo nos marcos do imperialismo. Bastaria, para isso, que o proletariado desenvolvesse uma política de alianças com os setores burgueses interessados em "isolar" os setores burgueses mais agressivos (qualquer semelhança com a política atual de Gorbachev não é mera coincidência). Para o dirigente social-democrata alemão, isto seria possível porque, desde a eclosão da 1ª Guerra Mundial, já se notava um novo avanço na acumulação industrial capitalista graças ao progresso técnico. Os capitalistas teriam começado a se dar conta de que os custos de expansão colonial e da corrida armamentista representavam uma ameaça à acumulação do capital e aos próprios fundamentos econômicos do capitalismo. Neste sentido, já não pressionariam mais para a exportação de capital como antes, o que se refletia na elevação das suas taxas de juros internas. Com isto, o perigo das guerras imperialistas poderia ser evitado através de uma política de redistribuição de riquezas no interior das potências capitalistas, que viabilizasse novos campos para a acumulação de capital. No fundo, o argumento do principal teórico da Segunda Internacional era de que interessava aos próprios capitalistas o fim da política belicista do imperialismo. Assim, por trás da fraseologia marxista, suas conclusões políticas voltam ao ponto de partida da análise feita sobre o imperialismo pelo liberal assumido Hobson.

Bukharin repetiu os mesmos erros de Hilferding

Também Bukharin, membro da direção do Partido Bolchevique russo, assume uma compreensão essencialmente "Hilferdingista" do imperialismo. Assim como o economista austríaco, ele também considera que o predomínio dos monopólios reduz e até elimina a concorrência das sociedades capitalistas nacionais. Esta análise é desenvolvida repetidas vezes ao longo do seu livro "O Imperialismo e a Economia Mundial", publicado pela primeira vez em 1916.

"Todas as peças desse sistema, altamente organizado (cartéis, bancos, empresas estatais), sofrem um processo contínuo de integração, que se acentua à medida que se desenvolve a concentração capitalista... Assim, as diversas esferas do processo de concentração e de organização estimulam-se reciprocamente e criam poderosa tendência à transformação de toda a economia nacional em uma gigantesca empresa combinada sob a égide dos magnatas da finança e do Estado capitalista" 7.
Em outro livro escrito em 1927, "O Imperialismo e a Acumulação do Capital", Bukharin chega às mesmas conclusões de Hilferding em relação à possibilidade de amainar e até eliminar as crises nos marcos das economias capitalistas modernas, onde a classe capitalista se une num truste unificado e gera uma economia ao mesmo tempo organizada e dividida em classes antagônicas.

"Em lugar da 'anarquia na produção', um plano racional do ponto de vista do Capital... Ou seja, neste caso, não poderá haver uma crise de superprodução"8.

Só que, ao contrário de Kautsky, Bukharin considerava que a concorrência eliminada da economia nacional se transferia para a arena da economia mundial. Por isso considerava inevitável, na época do imperialismo, a eclosão de guerras gigantescas sucessivas entre os "trustes capitalistas nacionais". Na verdade, ele inclusive vinculava a perspectiva de uma vitória revolucionária à eclosão dessas guerras. Por isso Bukharin assumiu uma posição "esquerdista" contra Lênin no momento decisivo para a sobrevivência da revolução soviética que foi a assinatura do acordo de Brest-Litovsk de paz com a Alemanha. Posteriormente evoluiu para posições abertamente "direitistas", defendendo a integração no "socialismo" da nova burguesia rural (os kulaks), gerada no campo soviético durante o período da NEP.

Rosa Luxemburgo não aborda a questão dos monopólios

Outra autora que procurou analisar o fenômeno do imperialismo com base num referencial teórico marxista, embora partindo de premissas totalmente diferentes de Hilferding, foi Rosa Luxemburgo, dirigente da ala esquerda do Partido Social Democrata Alemão e depois da "Liga Spartacus". Sua principal obra sobre o tema foi o livro "A Acumulação do Capital", publicado pela primeira em 1913.

A tese essencial de Luxemburgo era de que seria possível a acumulação do capital num meio puramente capitalista. Criticando os esquemas de reprodução ampliada do capital formulados por Marx no segundo livro do Capital, ela conclui que a contradição entre produção e consumo na sociedade capitalista forçava a burguesia a encontrar compradores fora do meio capitalista para realizar o seu capital. O capitalismo viveria, assim, uma crise de realização permanente, que o forçaria a estar sempre procurando conquistar e criar mercados para os seus produtos em áreas não-capitalistas. O sistema padeceria de um mal semelhante ao "subconsumo crônico" apontado por Sismondi e Hobson. Esta crise de "realização" seria o impulso econômico fundamental do imperialismo. O próprio imperialismo não passaria de uma fase do capitalismo onde se esgota a partilha territorial das áreas não-capitalistas, e por isso há uma luta de morte entre as potências capitalistas pelo controle e domínio dessas regiões.

O fato é que todo o edifício da teoria de Rosa Luxemburg sobre o imperialismo está construído sobre bases nada sólidas. Sua argumentação fundamental gira em torno de uma compreensão anti-dialética dos esquemas de reprodução ampliada de Marx. No fundo, a autora não concebe os esquemas em movimento. Não vê o processo de reprodução e acumulação passando de uma fase para outra, de um ciclo para o próximo. Por isso fica presa a uma concepção de "crise permanente" de realização no capitalismo, sem conseguir dar conta do caráter cíclico das crises desse sistema.

Assim, do ponto de vista teórico, ela dá um passo atrás em relação a Hobson e Hilferding ao localizar a problemática central do imperialismo na necessidade de exportar mercadorias, e não capital. Mas com isso ela não consegue distinguir a lógica de expansão do imperialismo moderno das fases anteriores de desenvolvimento do sistema. Rosa Luxemburg argumenta repetidas vezes que o imperialismo é uma fase do capitalismo. Mas, a bem da verdade, não há nada na sua argumentação que possa justificar essa caracterização. Os elementos que ela aponta como raízes econômicas e impulsos básicos do imperialismo estão presentes no capitalismo desde o seu nascedouro. A ligação do imperialismo com os monopólios nem sequer é abordada por ela.

Lênin superou os estudiosos do imperialismo

O que parece fundamentar a caracterização do imperialismo como uma fase do capitalismo por Rosa Luxemburgo é o afã de fechar a sua análise com conclusões revolucionárias, em oposição às conclusões reformistas das alas de direita e de centro do seu próprio partido. Mas se é inegável a sua fibra revolucionária, o fato é que a sua teoria não dá ao revolucionarismo bases conseqüentes. Na sua concepção, à medida que o capitalismo fosse eliminando em todo o mundo as formas de produção pré-capitalistas, se esgotaria igualmente a sua capacidade de acumular. O sistema caminharia rapidamente para o colapso. Abrir-se-ia um período "catastrófico", marcado por guerras e convulsões sociais. A revolução proletária surgiria com força, como uma necessidade objetiva. A verdade é que esta concepção de revolução acaba privilegiando o fator espontâneo, em detrimento da ação consciente dos partidos revolucionários. Neste sentido, situa-se no campo do revolucionarismo pequeno-burguês, e não do revolucionarismo proletário. Precisamente por isto, a concepção de Rosa Luxemburg considerava a greve geral, e não a insurreição armada, como o caminho principal para a revolução.

Em meio a este acirrado debate no início do século, a formulação da teoria do imperialismo por Lênin veio superar as formulações dos seus autores contemporâneos. Em síntese, sua análise do imperialismo o caracteriza como uma fase no desenvolvimento do capitalismo que tem cinco traços fundamentais:

1. a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais passam a desempenhar um papel decisivo na vida econômica;

2. a fusão do capital bancário com o capital industrial, e a criação, baseada nesse capital financeiro, da oligarquia financeira;

3. a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância especialmente grande;

4. a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si;

5. o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes.

Cada ponto destes é desenvolvido com farta referência a documentos e dados oficiais. Nos cadernos preparatórios para a obra, compilados por Lênin, estão anotados trechos de nada menos de 148 livros e 232 artigos em diversas línguas, analisando diferentes aspectos do imperialismo. Mas o grande dirigente da revolução soviética não se limitou a compilar os mais recentes estudos sobre a evolução do capitalismo. Também submeteu esta literatura a uma crítica profunda, procurando superar as limitações teóricas dos enfoques respectivos de cada autor. Nesta base, ele chega a conclusões absolutamente fundamentais sobre a natureza do imperialismo. Entre estas, podemos destacar:

1. a continuidade e o acirramento da concorrência nos marcos do capitalismo monopolista, e, portanto, a inevitabilidade das crises cíclicas do sistema;
2. a tendência à estagnação que também é gerada pelos monopólios, gerando um processo de decomposição que empurra o sistema para uma crise geral;
3. a possibilidade da expansão imperialista assumir formas distintas do colonialismo aberto, subordinando estados que mantêm independência política formal;
4. a inevitabilidade das guerras no sistema imperialista, em função do desenvolvimento desigual das potências;
5. a formação de uma "aristocracia operária" no interior do proletariado dos países capitalistas centrais, que acaba servindo de base social de apoio para concepções reformistas no interior do movimento operário;
6. o desdobramento do movimento revolucionário mundial em duas vertemos que se reforçam mutuamente — a luta do proletariado contra a burguesia nos países centrais, e a luta anti-imperialista dos povos nos países coloniais, semi-coloniais e dependentes.

O gigantesco salto teórico dado por Lênin ao formular sua teoria do imperialismo fundamentou todo o processo de ascenso do movimento revolucionário mundial na primeira metade do século XX. Mas além da impressionante validade que a teoria leninista sobre o imperialismo continua mantendo nos dias de hoje como vimos no início, ela também nos traz, importantes ensinamentos do ponto de vista do método da produção teórica na ciência do marxismo. A "chave" do grande sucesso teórico de Lênin é saber estar aberto para o que de mais avançado se produz nos diversos campos do conhecimento humano e, ao mesmo tempo, submeter essa produção ao crivo de uma análise de classe, baseada nos conceitos fundamentais da teoria marxista. È uma postura avessa tanto ao dogmatismo, quanto ao ecletismo.

* Luís Fernandes, colaborador da Princípios.

NOTAS
1.Alonso Monteverde, "Teoria Leninista del Imperialismo", La Habana, Editorial de Ciências Sociales, 1984, p. 80.
2.V. I. Lênin, "O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo", in V. I. Lênin — Obras Escolhidas, Lisboa, Edições AVANTE!, 1977, p. 586.
3.J. A. Hobson, "Imperialismo: A Study", Michigan, University of Michigan Press, 1985, p. 6 (tradução minha - L.F.).
4.Ibid., p. 106.
5.Op. Cit., V. I: Lênin, "O Imperialismo...", p. 586.
6.K. Kautsky, "Accumulation and Imperialism", in Karl Kautsky: Selected Political Writings, Londres, Macmillan Press, 1983, p. 88 (tradução minha - L.F.).
7.N. Bukharin, "O Imperialismo e a Economia Mundial", Rio de Janeiro, Editora MELSO, s.d., pp. 104-5.
8.N. Bukharin, "El Imperialismo y Ia Acumulación de Capital", Cidade do México, Ediciones Pasado y Presente, 1980, p. 168 (tradução minha - L.F.).

EDIÇÃO 16, DEZEMBRO, 1988, PÁGINAS 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25

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