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Diário Liberdade
Sábado, 22 Abril 2017 16:02

Três interpretações erradas sobre o golpe parlamentar

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Valério Arcary

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Tenho horror a teorias da conspiração. Mas tenho mais medo do autoengano.


A mente humana tem vieses ou preferências, e uma delas é a busca incessante por padrões, modelos, regularidades, esquemas. Estamos inquietos à procura de descobrir relações simples entre causas e consequências. Temos uma tendência a pensar assim, porque foi útil aos nossos ancestrais ter a capacidade de antecipação. Mas, perigosamente, uma limitação muito comum, e que nos condena a interpretações erradas, é o raciocínio de tipo paranoico que favorece a credulidade em teorias de conspiração. Ter ideias paranoicas não é o mesmo que ser paranoico. O grau faz toda a diferença. Mas não deixa de ser uma ironia cruel que, pela necessidade de manter uma atitude crítica ou de desconfiança cética possamos ser levadas à suspeita generalizada, com mais frequência do que seria desejável, ou até mesmo saudável.

Escrevo estas linhas porque, participando de debates sobre a conjuntura, tenho me surpreendido com algumas conclusões que militantes honestos parecem ter retirado do que aconteceu no país no último ano:

(a) Não é verdade que Dilma Rousseff foi derrubada porque Eduardo Cunha aceitou a tramitação do impeachment. Sim, ele favoreceu as condições para o golpe. É verdade que ele o fez em retaliação à posição da bancada do PT de não defendê-lo na Comissão de ética da Câmara dos deputados. Mas o papel dele nesse processo teria sido substituível. Outro teria assumido o seu lugar sem maiores dificuldades.

(b) Não é verdade que Dilma Rousseff foi derrubada porque seu governo iniciou um ajuste anticíclico para evitar o aumento do desemprego em 2012. É verdade que Guido Mantega, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini tomaram medidas que flexibilizavam os fundamentos macroeconômicos de câmbio flutuante, altas taxas de juros, e busca de superávit primário, e que as metas de inflação deixaram de ser um critério absoluto. Mas embora estas inflexões tenham produzido resistência em setores da burguesia, a maioria da burguesia não rompeu com o governo do PT nesse momento. Somente três anos e meio depois, e por outras razões. O tempo faz muita diferença quando se faz análises sérias.

(c) Não é verdade que Dilma Rousseff foi derrubada pela LavaJato. A LavaJato favoreceu as condições que permitiram o triunfo do golpe parlamentar, porque incendiou as expectativas frustradas da classe média que foi para as ruas. Mas esta operação, que foi articulada em cooperação com os serviços norte-americanos, começou no primeiro semestre de 2014, antes das eleições presidenciais. Não era a política de Obama a deposição de Dilma Rousseff. A LavaJato merece ser criticada, severamente, mas não foram os procuradores de Curitiba, nem o juiz Sergio Moro que derrubaram Dilma Rousseff.

Quem concluiu que o impeachment fragilizou o regime democrático-liberal de dominação errou “rude”. O regime saiu fortalecido. Estabeleceu-se um novo equilíbrio institucional, com maior regulação do Judiciário, apoiado na Polícia Federal. Mas as instituições estão fortalecidas para fazer o ajuste econômico-social subvertendo os poucos direitos conquistados na Constituição de 1988.

A alternância no poder foi possível durante três mandatos e meio do PT. E caminhava para uma possível ou até provável quarta vitória eleitoral do PT em 2018. Dilma caiu através de um golpe institucional porque, primeiro, a classe dominante assim o quis, depois que ficou claro que o governo do PT seria incapaz de fazer os ajustes que ela considerava indispensáveis para reposicionar o Brasil na economia mundial. E tinha capacidade política de fazer o golpe, mesmo que para isso tivesse que inventar um crime de responsabilidade, porque se apoiou nas mobilizações da classe média, e sempre manteve maioria no Congresso. Quem, depois de tudo isso, ainda tem ilusões na democracia se engana a si próprio. Eu tenho horror ao autoengano.

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