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Diário Liberdade
Sábado, 13 Mai 2017 22:00

Mães por causa de um estupro

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Ilka Oliva Corado

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A esta hora em qualquer esquina, bar, canto, casa e matagal da América Latina, estão estuprando uma menina, adolescente e mulher, nos próximos cinco minutos serão mais dezenas de abusadas, ao meio dia serão centenas e ao pôr do sol, milhares. Destas, a maioria será maltratada, muitas assassinadas em crimes de ódio, algumas desaparecerão e jamais de saberá delas, possivelmente morram nos infernos do tráfico de pessoas; e de outras aparecerão seus corpos desmembrados em qualquer rua, em um saco de lixo ou de batatas. Dessas meninas, adolescentes e mulheres violentadas, centenas ficarão grávidas.


Serão obrigadas a parir, a parir filhos da maior dor de suas vidas, filhos do ultraje, da violência, do deboche a sua dignidade. Uma sociedade carente de sensibilidade as obrigará a parir, um estado patriarcal e machista as obrigará a parir, o silêncio dos justos as obrigará a parir. Serão mães.

A esta hora em qualquer esquina, bar, canto, casa e matagal da América Latina, há meninas, adolescentes e mulheres parindo filhos que são produto de uma violação. Diremos que elas procuraram, porque eram bêbadas, submissas, putas ou mesmo pobrezinhas mas que a vida não é justa e fazer o quê. Talvez digamos que são uns malditos os que as estupraram, mas só por obrigação. E também diremos que esse anginho que ela leva no ventre não tem culpa, que é bênção de Deus.

Vamos apontar o dedo se pensam remotamente em abortar, aí então conhecerão nossa fúria: de hipócritas, conservadores e descarados. Então iremos com tudo sobre elas, sem piedade e vamos flagelá-las, vamos estigmatizá-las, culpá-las novamente, para que não sejam desumanas, para que aprendam a respeitar a vida, para que não sejam animais. Nós, como representantes da santidade do Todo Poderoso, seremos juízes e se for necessário enviá-las para a prisão, as enviaremos, porque são assassinas! Mas sobre o estuprador não diremos nada, vamos a nos compadecer, porque, pobre sujeito, foi provocado, e é impossível se conter quando uma puta se oferece. Quando uma menina o pede que a estupre. Se é familiar ou conhecido, fecharemos o bico, não diremos nem um pio e nem sequer pensaremos em enviá-lo à prisão, porque é um violador!

A esta hora em qualquer esquina, bar, canto, casa e matagal da América Latina, há centenas de mães chorando como choram todos os dias a ausência de seus filhos assassinados e desaparecidos. Pobres loucas que não se resignam, devem entregar sua alma ao Senhor para que lhes dê paz. Seria mais merecido que seus filhos morressem, por serem delinquentes e cheirarem cola, por andar de forma errada, porque elas não souberam colocá-los no lugar. Aí está, foi merecido. Agora que não chorem, que aguentem ser cafetinas. Por não serem duras com suas filhas se estas se tornassem putas e “orgieiras”, que aguentem!

A esta hora em qualquer esquina, bar, canto, casa e matagal da América Latina, há centenas de meninas, adolescentes e mulheres sendo estupradas, serão obrigadas a ser mães. Como uma menina enfrenta a responsabilidade de ser mãe? Como pretendemos matá-las em vida obrigando-as a parir? Já que, por si mesma, uma violação seca, marca, mata.

E quando nascem essas crianças, as estigmatizamos por sua origem, por sua condição social. Mas o que pode oferecer no desenvolvimento integral uma mãe violada, que vive na miséria, que não conseguiu se desenvolver, que lhe mataram em vida. Que lhe obrigaram a parir sendo criança ou adolescente. Que, sendo mulher, lhe mutilaram.

Somos uma rede, todos fazemos parte do círculo da violência de gênero. Aqui o que cala consente.

A esta hora em qualquer esquina, bar, canto, casa e matagal da América Latina, há milhares de meninas, adolescentes e mulheres sendo estupradas. A esta hora em qualquer esquina, bar, canto, casa e matagal da América Latina, há milhares de mulheres parindo filhos que são fruto de uma violação. E se fôssemos nós? Se fôssemos nós, seríamos contra o aborto?

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