Publicidade

Diário Liberdade
Sexta, 04 Agosto 2017 12:15 Última modificação em Sábado, 05 Agosto 2017 03:16

O “fora Temer” da Globo e a questão da legitimidade do poder

Avalie este item
(1 Voto)
Roberto Bitencourt da Silva

Clica na imagem para ver o perfil e outros textos do autor ou autora

Instigante artigo escrito por Bia Barbosa e Camila Nóbrega, publicado em Carta Capital (1), descreve as divisões existentes entre os conglomerados de comunicação, a respeito do golpista Michel Temer (PMDB). Mapeia as diferenças entre as linhas editoriais das Organizações Globo em face da Band e do Estadão. Ademais, suscita uma importante indagação: o que a Globo quer?


A Globo, há algum tempo, tem se notabilizado pela veiculação de notícias desfavoráveis a Temer e pela retirada de potencial apoio ao nefasto e ilegítimo presidente. Uma circunstância realmente interessante e que merece reflexão, pois revela percepções distintas no seio do bloco de poder no Brasil.

Em caráter meramente especulativo, procuro nas linhas abaixo tecer algumas considerações que permitam refletir sobre o posicionamento atual das Organizações Globo. Um tempo atrás escrevi artigo em que retratava a Globo como uma espécie de "príncipe eletrônico", a partir da mobilização de reflexões do sociólogo Octávio Ianni (2). Isto é, o exercício então feito identificava as empresas da família Marinho como um intelectual coletivo, persuasor ativo e galvanizador de vontades, dotado de projeto para a sociedade brasileira.

Diferentemente de outros setores do condomínio de poder no Brasil, a Globo manifesta-se pela saída de Temer. Defende todas as suas medidas lesivas ao País e ao Povo, eivadas de ranços liberais-conservadores. Quer, inclusive, que as contrarreformas, antinacionais e antipopulares, sejam aprofundadas. Mas, sem Temer à frente do barco.​

O que passa com a Globo? Me parece que a questão diz respeito a projeções de futuro. Politicamente, envolve sobretudo a variável legitimidade, tanto no tocante ao próprio conglomerado, quanto no que diz respeito ao projeto neocolonial que preconiza.

Do ponto de vista organizacional, a preservação do conglomerado empresarial no curso do tempo demanda uma visão que explore o longo prazo. Ganhos e êxitos no presente não são suficientes. Requerem compatibilização com uma escala de tempo mais dilatada.

A Globo opera em regime de semimonopólio. Um ativo importante é a atribuição de valor à sua imagem/marca, enquanto conjunto de empresas que lida com a informação. Algum fiapo de credibilidade política para a sua linha editorial torna-se variável decisiva para o planejamento estratégico do conglomerado.

Após sublinhar ad nauseam a “corrupção” como mote para apoiar a destituição da presidente Dilma Rousseff (PT), o despudor do governo Temer é difícil ser acobertado e sustentado, notadamente quando os seus índices de rejeição quase chegam a 100%.

Dar a apoio a projetos privatistas e vende pátria, a despeito dos nomes que os conduzem no Poder Executivo, em diferentes esferas do Estado brasileiro, é prática contumaz da Globo. Como exemplo, anos a fio ofereceu enquadramentos e pautas altamente favoráveis ao ex-prefeito carioca, César Maia (DEM). O mesmo se pode dizer em relação ao PMDB fluminense e carioca: o ex-governador Sergio Cabral Filho, o atual, Pezão, e o ex-prefeito Eduardo Paes. Apoios sistemáticos a esses governos.

Desgastaram-se? Perderam capacidade eleitoral e prestígio para a execução de políticas públicas que a Globo assevera como melhores, senão mesmo inescapáveis? Retira-se o apoio, buscando preservar a sua imagem editorial, assim como das políticas em questão. Apego a nomes e pessoas não faz parte do comportamento do conglomerado.

O poder em sua forma bruta ou sinuosa está bastante consolidado no âmbito do governo federal. Os artifícios típicos do leão (força) e da raposa (astúcia), antigas metáforas de Maquiavel, são rotineiramente explorados pelo governo Temer. Incentivo à policialização das Forças Armadas, amplo apoio do Judiciário, plena satisfação dos interesses das finanças, de demais setores do grande capital doméstico e internacional, e compra de votos de oligarquias políticas. O poder em estado bruto muito bem assentado.

Porém, o exercício do poder demanda mais do que força e astúcia. Estas são eficazes de maneira episódica. São sempre instáveis. Em especial em nosso tempo, com a proliferação do uso de tecnologias de comunicação e informação.

A brutalidade do poder contra os grupos políticos e sociais que não participam da mesa dos grandes, seja essa brutalidade física e armada, seja financeira, afetando as condições de vida de amplas frações da sociedade, é visível demasiadamente rápido e circula em escala global.

Deparamo-nos, então, com o problema da legitimidade. O grosso da população, excluído de qualquer horizonte de ações positivas do bloco de poder, precisa ser convencido da legitimidade da ordem política, social e econômica instituída. É aí o calcanhar de Aquiles.

Como chamaria a atenção o filósofo Antonio Gramsci, acompanhando a força, a persuasão é variável decisiva para o poder, no sentido em que visa conferir legitimidade a um ordenamento social, econômico e político. E, no momento, ela é infrutífera. Só pode se efetivar com o acolhimento, parcial e tímido que seja, de alguma aspiração, demanda de setores alheios à estrutura de poder.

Não existe exercício de poder minimamente estável sem a mobilização de instrumentos que permitam acomodar interesses e agrupamentos sociais divergentes; sem a neutralização ou a divisão de potenciais áreas de descontentamento social e político. O “fora Temer” da Globo, a meu ver, opera dentro dessa lógica.

Do ponto de vista material, a Globo ventila absolutamente nada que incentive ao poder atenuar descontentamentos, atuais e potencialmente crescentes, nas camadas populares e médias. Assim como Temer e seus aliados. Mas, a associação contínua e flagrante entre as contrarreformas neoliberais e entreguistas e a persona de Temer retira absoluta credibilidade daquelas. As compromete.

O “fora Temer” da Globo silencia-se sobre problemas econômicos e distributivos e apega-se a uma resposta política e simbólica ao dilatado descontentamento. Observa a floresta e não a árvore.

A chefia da Globo sabe ou intui os latentes riscos a médio e longo prazo de uma ordem social, política e econômica sem qualquer legitimidade. Sem investir em alguma resposta, mínima que seja e não comprometedora à ordem, às demandas e insatisfações dos setores alheios, submetidos ou espoliados pelo poder.

Trata-se de um terreno favorável à criação de uma plataforma unitária de descontentes. A potencial emergência de um bloco que identificaria claramente a fonte do mal-estar é sempre uma ameaça à ordem. Com o risco adicional, no tempo, do aparecimento de uma liderança carismática, na acepção dada pelo sociólogo Max Weber, que seja atribuída a condição de símbolo antissistêmico, abalando as rotinas confortáveis ou tradicionais do poder.

O descarte de Temer pela Globo indica que ela olha para frente e abdica dos anéis, sem perder os dedos.

(1) https://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/globo-ataca-mas-midia-segue-dividida-sobre-futuro-de-temer

(2) https://gz.diarioliberdade.org/opiniom/item/41763-o-principe-eletronico-a-globo-contra-o-povo-brasileiro-em-dois-atos.html

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

Diário Liberdade é um projeto sem fins lucrativos, mas cuja atividade gera uns gastos fixos importantes em hosting, domínios, manutençom e programaçom. Com a tua ajuda, poderemos manter o projeto livre e fazê-lo crescer em conteúdos e funcionalidades.

Doaçom de valor livre:

Microdoaçom de 3 euro:

Adicionar comentário

Diário Liberdade defende a discussom política livre, aberta e fraterna entre as pessoas e as correntes que fam parte da esquerda revolucionária. Porém, nestas páginas nom tenhem cabimento o ataque às entidades ou às pessoas nem o insulto como alegados argumentos. Os comentários serám geridos e, no seu caso, eliminados, consoante esses critérios.
Aviso sobre Dados Pessoais: De conformidade com o estabelecido na Lei Orgánica 15/1999 de Proteçom de Dados de Caráter Pessoal, enviando o teu email estás conforme com a inclusom dos teus dados num arquivo da titularidade da AC Diário Liberdade. O fim desse arquivo é possibilitar a adequada gestom dos comentários. Possues os direitos de acesso, cancelamento, retificaçom e oposiçom desses dados, e podes exercé-los escrevendo para diarioliberdade@gmail.com, indicando no assunto do email "LOPD - Comentários".

Código de segurança
Atualizar

Quem somos | Info legal | Publicidade | Copyleft © 2010 Diário Liberdade.

Contacto: info [arroba] diarioliberdade.org | Telf: (+34) 717714759

Desenhado por Ritech

O Diário Liberdade utiliza cookies para o melhor funcionamento do portal.

O uso deste site implica a aceitaçom do uso das ditas cookies. Podes obter mais informaçom aqui

Aceitar