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Diário Liberdade
Quarta, 31 Outubro 2018 23:39 Última modificação em Quinta, 01 Novembro 2018 12:45

2018, Ano Marx (X) / Razom dialética e superaçom do capital

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Mauricio Castro

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Já foi dito em textos anteriores desta mesma série que, para além do carácter inconcluso da sua principal obra, O Capital, Karl Marx deixou sem elaborar, pola brevidade de umha só vida humana, muita cousa que tinha prevista.


Estudos literários e sobre estética, sistematizaçom do método, um estudo aprofundado da antropologia materialista… em todos os casos, ainda sem chegar a elaborar nengumha monografia, a extensa obra de Marx deixou esparsas importantes referências que servírom de base para elaboraçons posteriores, que nalguns casos fôrom feitas e noutros poderám ainda vir a ser.

A dialética é umha dessas áreas que, no plano teórico, ficárom pendentes de um desenvolvimento sistemático e específico por parte do nosso autor, ficando no entanto refletida no próprio método aplicado por ele à realidade da sociedade burguesa. Nom há dúvida que foi Marx quem mais avançou no conhecimento crítico do capitalismo, nem que o fijo de modo dinámico, partindo da prioridade ontológico-histórica do objeto e construindo a teoria e as suas categorias a partir dele. Eis algumhas características da sua dialética materialista.

 Nom é, portanto, na cabeça do sujeito que nasce a dialética, como simples modo de pensar. Ela fai parte do objeto ou, mas genéricamente, do ser. Sendo Hegel o antecedente mais avançado na formulaçom e aplicaçom da dialética, Marx parte também da consideraçom do ser como processo, já presente no grande teórico do idealismo objetivo alemám.

 Nom é fácil abordar a dialética, por ir muito além da aparência fenoménica ou esquemática do nosso conhecimento direto da realidade, sem por isso contrariar o facto de que essa aparência existe realmente, para além da subjetividade das nossas cabeças pensantes.

 Deixem-me partir, nesta mínima aproximaçom, de um episódio pessoal, que me aconteceu há alguns anos, numha conversa com um grupo de camaradas, num jantar após umha reuniom partidária. Nela, surgiu a questom da verdade objetiva e de como aceder a ela, caso existisse. Hoje qualquer pós-moderno “de esquerda” responderia que de facto nom existe, a nom ser como particularidade de quem a observa e a vive à sua maneira. Puro subjetivismo relativista que nega qualquer pretensom de verdade ou mesmo de existência objetiva do real. Nós, naquela ocasiom, sendo já militantes comunistas, chegamos a umha conclusom diferente: que o real era umha espécie de consenso entre os observadores, que desse modo permitia aceder à verdade.

 Repare-se que ambas as respostas partem da limitaçom do sujeito na hora de conhecer. No primeiro caso, o idealismo abstrato é claro, pois a realidade depende do subjetivismo do observador. Puro agnosticismo derivado da descrença na racionalidade do conhecimento e, portanto, da transformaçom social. Essa é a visom dominante hoje na chamada “nova esquerda”, carregada de tintes irracionalistas.

 Porém, no segundo caso, nós nom passamos na altura, sem o sabermos, de umha abordagem kantiana do processo de conhecer (e transformar). Aquela que parte da impossibilidade de um conhecimento completo da realidade, atribuindo a verdade a umha dimensom superior e inalcançável para o ser humano, o qual só pode aspirar a um contraste entre as consciências individuais para atingir um consenso, resultado da “intersubjetividade”.

 Desconhecíamos, vendo aquele episódio a partir de hoje, que o conhecimento ganha umha natureza diferente já a partir de Hegel, mas sobretodo com Marx, quando a objetividade deixou de ser considerada como dependente da subjetividade e da particularidade individual ou intersubjetiva. É o objeto do conhecimento que tem prioridade sobre o sujeito, ao ponto de configurar a subjetividade deste, a sua consciência, constituindo-se a práxis em verdadeira prova de verdade.

 Além disso, é o sujeito coletivo que ganha novo protagonismo através das classes. Nom é o discurso que cria ou transforma a realidade, é a realidade objetiva que constitui os discursos, adequados ou inadequados para a captura da mesma. Sendo o estudo da objetividade umha tarefa coletiva e de classe, poderá haver indivíduos burgueses que acolham a perspectiva proletária na investigaçom social e proletários aderidos à perspectiva burguesa: positivista ou subjetivista, agnosticista ou irracionalista, tanto tem.

 Frente às categorias fixas e ideais impostas aos indivíduos (como o imperativo categórico kantiano), surge a compreensom da interaçom dialética entre causalidade e finalidade ou teleologia. A relaçom entre indivíduo e género humano fica mais complexa, com mais mediaçons, com categorias como a classe ou a história. Nom há unilateralismos nas relaçons sociais, sendo a contradiçom inerente ao decorrer histórico. Isso fica cada vez mais evidente nas sociedades classistas, com destaque para o capitalismo e a sua divisom entre máxima socializaçom do processo de produçom e apropriaçom crescentemente individual do excedente em forma de mais-valia.

 As velhas categorias estáticas do pensamento burguês pré-dialético (Descartes, Kant...) cedem passagem a umha mais rica compreensom do conhecimento e da transformaçom da realidade com Hegel, embora seja ainda através de umha interpretaçom idealista e especulativa. É com Marx e em plena época de recuo conservador da ideologia burguesa já instalada no poder que se compreende a prioridade do pólo material sobre o ideal, sem deixar de reconhecer a interaçom e influência mútua existente entre ambos. Marx ataca na Miséria da Filosofia (1847) o “método absoluto” hegeliano, enquanto especulaçom autónoma do objeto do conhecimento. Ao invés, o método de Marx parte do próprio objeto, que dita o roteiro no percurso da pesquisa.

 Nom há, portanto, resoluçom das contradiçons sociais nem no método nem na ideia absoluta hegeliana, que no plano da história pretende encarnar no Estado democrático. A contradiçom histórica subsiste e desenvolve-se, movida polo motor material das luitas de classes, surgindo da própria essência histórica do ser social a nova classe capaz de resolver a contradiçom crescente entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relaçons de produçom estancadas em funçom dos interesses da classe dominante.

 O Iluminismo, que na etapa de ascenso histórico burguês afirmou a verdade sem limites frente ao obscurantismo religioso anterior, converte-se no seu oposto, quando a nova classe dominante assume umha posiçom ideológica contrária à verdade. Nom se trata de umha escolha individual dos seus representantes teóricos, mas da plasmaçom dos interesses coletivos da classe burguesa, instalada no poder e empenhada em fazer ver que essa é a única organizaçom social possível e, como tal, natural e eterna. Assi tem sido desde meados do século XIX até hoje.

 A verdade e a falsidade, opostos dialéticos, batem-se portanto na realidade histórica em funçom de interesses de classe, como componente ideológica da luita económica. A ruptura entre a práxis e a consciência produziu-se com o surgimento da divisom social do trabalho (= propriedade privada) e, especialmente, da divisom entre trabalho material e espiritual. Religiom, filosofia, moral… passam a constituir umha teoria pretensamente separada do mundo material e, nessa medida, falsa. É nesse sentido que Marx apela ao carácter científico do socialismo, na medida que a nova classe revolucionária precisa, como a burguesia precisou anteriormente, da compreensom verdadeira como premissa para a transformaçom da realidade. Daí surge a crítica marxiana de ideologia, como falsa consciência fomentada pola classe dominante, formulada n’A ideologia alemá (1846), obra que, curiosamente, só foi conhecida nos anos 30 do século XX. Entretanto, Lenine tinha desenvolvido umha aceçom alternativa de ideologia, como conjunto de ideias ao serviço de cada classe em pugna, a burguesa e a proletária.

 O conhecimento social, portanto, parte da realidade empírica, mas nom fica por aí, ao invés do que propugna o empirismo. Eleva-se à abstraçom, à procura de estudar as suas determinaçons e mediaçons, regressando do abstrato para um novo concreto pleno de determinaçons. O objeto da pesquisa é o mesmo, mas agora o pesquisador vê aspetos que no início nom lhe eram visíveis. Tal é o teor do processo de conhecimento dialético.

 Se na atualidade os estudos sociais costumam caracterizar-se polo acúmulo de dados empíricos, o conhecimento teórico com assunçom da sua essência dialética vai do imediato ao mediato, dos dados empíricos à sua análise, até se atingir a síntese de múltiplas determinaçons que Marx denomina “o concreto”. O pensamento nom muda esse concreto, unicamente o reproduz como “concreto pensado”.

 O objeto do conhecimento, na perspectiva dialética, fai parte de umha totalidade ou visom de conjunto que relativiza toda verdade, sem por isso cair no relativismo. A verdade existe, mas o processo de conhecimento nom tem um fim absoluto, sendo sempre passível de ser completado ou inclusive emendado, como tantas vezes tem acontecido na história da ciência.

 Além disso, o processo situa-se numha linha temporal que determina a mudança. Mesmo quando ela nom é percetível ao olho humano, sabemos que a mudança existe. Da mesma forma, o próprio objeto da pesquisa determina a abrangência da totalidade concreta, que sempre ficará inscrita numha maior. Saber delimitar essa abrangência é fundamental para atingir um conhecimento adequado do objeto de estudo.

 É possível conhecer a economia contemporánea da Galiza sem estudar o carácter mundial do desenvolvimento capitalista na atual etapa? Chega com estudar a dimensom particular de um indíviduo ou grupo de indivíduos para analisar as caracteríticas da classe social a que pertencem? É suficiente a análise imanente da técnica para abordar na sua totalidade o conhecimento de umha obra ou de um dado artista pictórico?

 Qual a referência que pode ajudar-nos a resolver a maior ou menor adequaçom de umha proposta de pesquisa? Para o irracionalismo, poderá ser a intuiçom, ficando assi no nível aparencial ou fenoménico do processo de conhecimento.

 Na perspectiva marxista, a práxis e o critério de verdade. Para além da imediatez, devemos chegar à dimensom mediata. Trata-se de ir além da lógica formal, cuja validade é restrita polo seu próprio formalismo. Nom que seja inútil, mas si insuficiente para captar o processo e as suas contradiçons inerentes. Num nível imediato, podemos dizer que umha semente é umha semente e só isso, mas num estudo aprofundado chegaremos à conclusom de como ela é, ao mesmo tempo, resultado e premissa de um ser que é processo e movimento sem fim (semente, árvore, nova semente, nova árvore…). Além disso, cada semente concreta terá as suas características, em funçom do clima da regiom, da intervençom humana, da ocorrência do acaso… Sem negar a validade da lógica formal, o conhecimento dialético vai além e tenta captar e compreender o ser como processo complexo, que no caso das ciências sociais agrega componentes particulares de complexidade como resultado da açom teleológica humana em interrelaçom com a causalidade da natureza e a presença do acaso.

 Nesse senso, a conceçom marxiana vai muito além da dialética hegeliana, da qual parte, ao descartar o carácter fechado da totalidade histórica. O movimento material da história é aberto e mesmo cria e modifica a própria natureza humana. Marx exemplifica isso já nos seus Manuscritos económico-filosóficos (1844), quando afirma que "a formaçom dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história universal até nossos dias”.

 Aí vê-se bem que o conhecimento e as condiçons de transformaçom correspondem, como dixemos no início, à classe e nom ao indivíduo particular, com base no real-histórico e nom no ideal absoluto. A matriz económica e as luitas de classes como motor da história orientam o conhecimento coletivo e as formas de sociabilidade associadas ao desenvolvimento das forças produtivas em cada ámbito espacial e temporal. Os desafios e conquistas colocados correspondem às condiçons de possibilidade realmente existentes para cada formaçom social. Se à burguesia se colocou a questom de humanizar as relaçons sociais, retirando-lhes as mistificaçons religiosas, quebrando a dependência pessoal própria das relaçons servis e estendendo a figura do cidadao livre, comprador e vendedor de mercadorias; ao proletariado coloca-se a questom de resolver a contradiçom dialética que caracteriza o modo de produçom capitalista, impondo a socializaçom da apropriaçom de um excedente cuja produçom já há muito foi totalmente socializada.

 A relaçom contraditória de Marx com a dialética hegeliana tornará pleno reconhecimento da sua utilidade para o seu estudo científico a partir da Contribuiçom para a crítica da economia política (1859), segundo reconhece na correspondência da época.

 Em definitivo, a razom dialética, entendida como racionalidade objetiva submetida à realidade; o historicismo concreto, que dá prioridade à produçom material da vida sobre as formas de relaçons humanas delas decorrentes; e o humanismo, que situa o ser humano como produto da sua própria atividade histórica; constituem os esteios do pensamento revolucionário fundado por Marx.

 Tal como a ruptura com o historicismo concreto deu lugar a positivismos conservadores e a negaçom do humanismo trouxo o individualismo exacerbado, a ruptura com a razom dialética conduziu para as diversas versons irracionalistas e agnosticistas que hoje pululam polo ermo teórico das correntes maioritárias da esquerda, incapazes de superar a miséria do capitalismo na sua etapa de decadência.

 Talvez alguém estivesse à espera de que citássemos as habituais leis da dialética como explicaçom de um tema complexo como este. Porém, julgamos mais adequada esta apresentaçom que, como nos restantes temas tratados nesta série divulgativa, só aspira a espicaçar quem nos lê para ir direto à obra e realizar o seu próprio estudo crítico. Se conseguirmos isso, a nossa missom divulgadora será considerada cumprida.

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