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Diário Liberdade
Terça, 25 Dezembro 2018 21:25

Um mundo de Detonadores Múltiplos de Guerras Globais. Guerras por Procuração

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James Petras

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Deparamo-nos com um mundo de múltiplas guerras, algumas das quais conduzindo a conflagrações de poderes globais e outra que começam como conflitos regionais mas rapidamente alastram para confrontos entre grandes potências.


Iremos proceder a identificar confrontos entre “grandes potências” e depois discutiremos os escalões de “guerras por procuração” com consequências de guerra mundial.

No nosso tempo os EUA são a principal potência em busca de domínio mundial através da força e da violência. Washington aponta a alvos de alto nível, nomeadamente China, Rússia, e Irão; objectivos secundários incluem Afeganistão, Norte e Centro de África, o Cáucaso e a América Latina.

A China é o inimigo prioritário dos EUA por numerosas razões de ordem económica, política e militar: a China é a segunda maior economia mundial; a sua tecnologia tem posto em causa a supremacia dos EUA; construiu redes económicas globais atravessando três continentes. A China desalojou os EUA em mercados exteriores, investimentos e infraestruturas. A China construiu um modelo socioeconómico alternativo que associa bancos e planeamento estatal com prioridades do sector privado. Em todos estes aspectos os EUA atrasaram-se e as suas perspectivas de futuro estão em declínio.

Em resposta a esta situação os EUA recorreram a uma economia interna protecionista e fechada e a uma agressiva economia exterior imperial e conduzida por via militar. O presidente Trump declarou à China uma guerra tarifária; uma guerra múltipla, separatista e de propaganda; e uma guerra de cerco marítimo e aéreo.

A primeira linha de ataque são as exorbitantes tarifas sobre as exportações chinesas para os EUA e seus vassalos. A segunda é a expansão das bases ultramarinas na Ásia. A terceira é a promoção de clientes separatistas em Hong Kong, Tibete e entre os uigures. A quarta é a utilização de sanções para matracar aliados na UE e asiáticos no sentido de se juntarem à guerra económica contra a China. A China respondeu incrementando a sua segurança militar, expandindo a sua rede de ligações económicas e aumentando as tarifas sobre exportações dos EUA.

A guerra económica dos EUA elevou-se a um patamar superior com a detenção e prisão de um executivo de topo da mais destacada empresa tecnológica chinesa, Huawei.

A Casa Branca subiu um degrau na escala da agressão passando das sanções à provocação, e ficou a um passo da retaliação militar. O rastilho nuclear foi colocado em ignição.

A Rússia depara-se com ameaças semelhantes contra a sua economia e os seus aliados exteriores, em particular China e Irão. Para além disso, os EUA romperam o acordo sobre mísseis nucleares de alcance intermédio.

O Irão defronta-se com sanções sobre o petróleo, cerco militar e ataques a aliados próximos, nomeadamente, Iémen, Síria e região do Golfo. Washington apoia-se na Arábia Saudita, Israel e seus grupos paramilitares para pressionar económica e militarmente e para minar a economia do Irão e impor uma “mudança de regime”.

Cada um dos três alvos estratégicos dos EUA é central para o seu objectivo de dominação global; dominar a China conduziria à tomada da Ásia; enfraquecer a Rússia isola a Europa; o derrube do Irão amplia o poder dos EUA sobre o mercado do petróleo e o mundo islâmico. À medida que prossegue a escalada de agressão e de provocação dos EUA ficamos perante a ameaça de uma guerra nuclear global ou, na melhor das hipóteses, de um colapso económico mundial.

A hegemonia já deixou de ser rentável para os EUA

Guerras por procuração

Os EUA apontam a um segundo grupo de inimigos, na América Latina, Ásia e África.

Os EUA têm promovido guerras económicas contra a Venezuela, Cuba e Nicarágua. Mis recentemente têm aplicado pressão económica e política sobre a Bolívia. Washington tem-se apoiado nos eus aliados vassalos, incluindo Brasil, Peru, Chile, Equador, Argentina e Paraguai e nas elites domésticas de direita.

Em numerosos outros casos, Washington recorre a golpes militares e a juízes e legisladores corruptos para intervir contra regimes progressistas no poder. Contra o Presidente Morales, Washington apoia-se em ONG’s financiadas por fundações EUA; em líderes indígenas dissidentes e em oficiais do exército na reforma. Washington apoia-se em grupos armados locais seus associados para fazer avançar com os seus objectivos imperiais, de modo a criar a aparência de uma “guerra civil” em vez de uma grosseira intervenção EUA.

De facto, uma vez que os chamados “dissidentes” ou “rebeldes” consigam estabelecer uma testa de ponte, eles “convidam” conselheiros militares EUA, conseguem ajuda militar e servem como arma de propaganda contra Rússia, China, e Irão – os adversários de “primeiro escalão”.

Nos anos recentes, os conflitos EUA por procuração constituíram um instrumento privilegiado na guerra separatista do Kosovo conta a Sérvia, no golpe ucraniano de 2014 e na guerra contra a Ucrânia oriental; na tomada curda do norte do Iraque e da Síria; do ataque dos separatistas uigures apoiados pelos EUA na província chinesa de Xinjiang.

Os EUA instalaram 32 bases militares em África, para coordenar actividades com os senhores da guerra e os plutocratas locais. As suas guerras por procuração são descritas como conflitos locais entre regimes “legítimos”, e terroristas islâmicos, tribalistas e tiranos.

Os objectivos das guerras por procuração são de triplos. Servem como “alimentadoras” de guerras territoriais mais alargadas cercando China, Rússia e Irão.

Em segundo lugar, as guerras por procuração são “campos de teste” para avaliar a vulnerabilidade e a capacidade de resposta do adversário estratégico alvo, i.e. Rússia, China e Irão.

Em terceiro lugar, as guerras por procuração são ataques a inimigos estratégicos com “baixo custo” e “baixo risco”. Conduzem discretamente a um confronto de grande escala.

É igualmente importante que as guerras por procuração servem como instrumentos de propaganda, acusando adversários estratégicos de “regimes autoritários expansionistas” inimigos dos “valores ocidentais”.

Conclusão

Os construtores de império EUA empreendem múltiplos tipos de agressão apontados a impor um mundo unipolar. No seu centro estão guerras comerciais contra a China; conflitos militares regionais com a Rússia e sanções económicas contra o Irão.

Estas armas de grande escala e de longo prazo são complementadas com guerras por procuração, envolvendo estados vassalos regionais, que visam erodir as bases económicas de aliados das potências anti-imperialistas.

Assim, os ataques EUA contra a China pela via da Guerra tarifária visam sabotar os seus projectos de infraestrutura globais “Cinturão e Estrada” ligando a China a 82 países.

Do mesmo modo, as tentativas EUA de isolar a Rússia através de uma guerra por procuração na Síria, tal como fez no Iraque, Líbia e Ucrânia.

Isolar a potência estratégica anti-imperial por meio de guerras regionais cria as condições para o “assalto final” – a mudança de regime através de golpe ou de guerra nuclear.

Contudo, a acção EUA no sentido do domínio mundial não conseguiu, até agora, enfraquecer ou isolar os seus adversários estratégicos.

A China avança com o seu programa global de infraestrutura; e a guerra comercial teve pouco impacto em isolar Pequim dos seus principais mercados. Mais ainda, a política dos EUA ampliou o papel da China enquanto principal defensor do “livre comércio” contra o protecionismo do Presidente Trump.

Igualmente, as tácticas de cerco e sancionamento da Rússia aprofundaram os laços entre Moscovo e Pequim. Os EUA aumentaram os seus “procuradores” nominais na América Latina e em África, mas todo eles dependem do comércio e dos investimentos da China. Isto é particularmente verdade no que diz respeito às exportações agro-minerais para a China.

Tendo em conta os limites do poder EUA e a sua incapacidade de derrubar regimes, Washington tomou medidas no sentido de compensar os seus falhanços pela via das ameaças de uma guerra global. Sequestra líderes económicos chineses; desloca navio de guerra para a proximidade das costas chinesas, alia-se com elites neofascistas na Ucrânia. Ameaça bombardear o Irão. Por outras palavras, os líderes políticos EUA embarcaram em políticas aventureiras à beira de fazer rebentar um, dois, muitos fusíveis nucleares.

É fácil imaginar como uma guerra comercial falhada pode levar a uma guerra nuclear; um conflito regional pode implicar uma guerra maior.

Poderemos impedir a 3ª Guerra Mundial? Creio que podemos. A economia EUA assenta sobre alicerces frágeis; as suas elites estão profundamente divididas. Os seus principais aliados em França e na Grã-Bretanha atravessam sérias crises. Os belicistas e fazedores de guerras carecem de apoio popular. Há razões para ter esperança!

Fonte: O Diário

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