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Diário Liberdade
Quinta, 22 Setembro 2016 09:45

Esquerda e pós-modernidade: cidadania, pobreza e empreendedorismo

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Mauricio Castro

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Pode parecer um dramatismo excessivo, mas som muitas as evidências de que vivemos tempos de dissoluçom de toda umha civilizaçom, a burguesa-capitalista.


Ao longo de vários séculos, ela tivo, como todas as civilizaçons históricas anteriores, a sua época de surgimento e de apogeu, vivendo na atualidade umha lenta, mas inexorável decadência que atravessa de maneira cada vez mais visível todos os poros da sua existência social.

A mais conhecida e patente das suas manifestaçons é a crise económica. Muito se esforça a ideologia ainda dominante em explicar-nos que se trata de umha crise episódica, mesmo subjetiva ou de “estado de ánimo”. Essa era a mensagem –lembrades?– daquela campanha de 2010 no Estado espanhol: “Esto lo arreglamos entre todos”. Financiada por 18 das maiores grandes empresas espanholas e através de umha série de caras amáveis do mundo do espetáculo, o seu objetivo declarado era “contagiar confiança e fomentar as atitudes positivas” como melhor via para deixar atrás a crise.

Apesar do forte financiamento de Telefónica, Repsol, BBVA e El Corte Inglés, entre outras, a propaganda ideológica tem os seus limites. Aquela campanha ajudou a difundir o “cidadanismo” e a amortecer as luitas de classes, o que nom é pouco, mas ficou longe do seu falso objetivo inicial: deixar atrás umha crise que, como já era evidente na altura, nom respondia a nengum problema de confiança ou autoestima, e sim aos limites históricos do próprio sistema, que continuam aí, diante dos nossos olhos.

Porém, gostava nesta ocasiom de abordar umha outra manifestaçom bem ilustrativa da dissoluçom a que aludia mais acima. Refiro-me a como a própria esquerda participa da decadente conceçom de vida burguesa, de maneira inevitável até que consiga enxergar primeiro, planificar depois e aplicar por fim, um programa alternativo de superaçom desta decadente civilizaçom.

A crise de identidade do que algum dia foi a esquerda revolucionária, derrotada nas suas diversas tentativas de superaçom do sistema capitalista, após tumultuosos e contraditórios avanços e recuos, manifesta-se principalmente na sua participaçom “crítica” na recuperaçom do sistema. O tema é suficientemente complicado para nom o despacharmos aqui num artiguinho como este, mas sim gostava de referir alguns exemplos de como a linguagem expressa a lamentável integraçom da nossa esquerda na cosmovisom burguesa.

Desarmada de qualquer ferramenta teórica transformadora, as posiçons e referências da esquerda pós-moderna fam toda a diferença frente a qualquer afirmaçom de rutura revolucionária com o sistema, o que se mostra desde logo nas suas categorias programáticas.

Vamos comentar três que consideramos bem significativas.

A primeira renúncia destacável é a adoçom da “cidadania” como sujeito e referente político permanente da mudança que essa esquerda defende. O significado profundo de tam superficial etiqueta vai muito além da renúncia ao uso de categorias científicas como “proletariado”, “classe trabalhadora” ou a sua antagonista, “burguesia”. Na verdade, o esconjuro dirige-se à essência mesma da noçom de “classe social”, que na versom da esquerda dos nossos tristes dias ficou reduzida a vestígio arqueológico.

O que pode parecer um puro bizantinismo terminológico converte-se em porta aberta à ideologia liberal que, em nome do individualismo metodológico, pretende converter a sociedade numha coleçom de pessoas à procura da satisfaçom particular de desejos, base explicativa da teoria económica atual.

Desaparecem assim do tabuleiro de jogo, numha só cartada, duas categorias imprescindíveis para umha compreensom cabal do funcionamento de qualquer sociedade de classes: a de “antagonismo” e a de “totalidade”. Deixam de fazer qualquer sentido tanto a luita coletiva com critério de classe como a visom da sociedade enquanto complexo integrado de determinaçons e interesses materiais ligados ao próprio papel de cada grupo na reproduçom social. A renúncia à compreensom global torna impossível umha abordagem política integral, que é substituída polos parches e medidas parciais dos governos “para todos”, com simpáticos programas de reformas que nada de substancial resolvem.

É claro que a reivindicaçom da “cidadania” tivo todo o sentido no capitalismo ascendente, ligado ao surgimento de umha nova sociedade marcada pola contradiçom central entre quem compra e quem vende a força de trabalho no mercado capitalista. Porém, umha vez universalizada tal contradiçom como motor da nova reproduçom social burguesa, carece de qualquer significado ressuscitar semelhante etiqueta, a nom ser que continuemos a pensar que um setor significativo da sociedade galega vive num sistema de tipo servil ou feudal. Tenhamos em conta que, de facto, o termo “cidadao/cidadá” inclui hoje na Galiza qualquer indíviduo de qualquer classe social que compra ou vende força de trabalho: tanto o dono de Inditex como a última das suas operárias exercem desse modo a sua cidadania. Todas elas som, portanto, cidadás ou cidadaos.

Umha outra referência anestésica que fai imenso sucesso nos tempos pós-modernos que vivemos é a de “pobreza”. Novamente, nom se trata de negar a existência da pobreza, nem muito menos de ocultar a sua significativa e crescente dimensom. O problema neste caso é que a exibiçom do efeito oculta por completo a causa e, nessa medida, retira do foco aquilo que deve realmente ser combatido: a “exploraçom”.

Convido quem isto lê a reparar a grande freqüência com que todo o tipo de partido, ONG católica, campanha instituicional e coletivo social reconhecem e denunciam a “pobreza” e, em simultáneo, a quase absoluta desapariçom de referências à sua causa, que nom é outra que a “exploraçom” e a desigualdade crescente que ela gera. O motivo dessa desapariçom parece evidente: a “exploraçom” é o núcleo duro do capital. Questioná-la significa questionar radicalmente a própria reproduçom do sistema, o que nengumha esquerda “realista” está disposta a fazer nos dias de hoje. Em lugar disso, fica no assistencialismo e na distribuiçom da renda, sem maiores pretensons.

A terceira das categorias pós-modernas que comentamos provém diretamente do campo da ideologia liberal dominante. Trata-se da figura do “empreendedorismo” como parte do programa de saída da crise proposta polo conjunto de forças políticas de todo o espetro parlamentar, incluídas as da esquerda.

Neste caso, a noçom remete, de umha parte, para o espírito do “american way of life”, situando a iniciativa particular e o autoemprego como melhor alternativa em tempos de crise, sem esperar que nem o Estado nem ninguém che solucione os “teus” problemas; e doutra parte, para a defesa dos pequenos capitais, da pequena empresa, como alternativa à hegemonia incontestável do grande capital.

Frente a ambos mitos, nom deveria ser necessário insistir na dupla falácia: a da saída individual mediante a conversom de cada trabalhador/a em autónomo ou pequeno empresário; e a da suposta alternativa progressiva do pequeno capital frente ao grande.

Para já, a própria dinámica do capital promove que a pequena empresa e o trabalhador autónomo colaborem barateando o custo de produçom mediante a autoexploraçom ou a pressom sobre os salarios do seu pessoal, geralmente bem inferiores nas pequenas empresas do que nas grandes, pola menor margem objetiva para a extraçom de mais-valia.

Doutra parte, o próprio desenvolvimento histórico do capitalismo implica desde o seu nascimento a imparável concentraçom e centralizaçom do capital, tornando inviável o regresso a fases historicamente superadas, de livrecambismo e pequena escala produtiva. Um programa de esquerda deveria propor que a socializaçom crescente da atividade produtiva seja coroada pola socializaçom da propriedade, mediante umha determinante intervençom pública na economia, e nom a intervençom em defesa de uns capitalistas “bons” contra outros “maus”.

A lista de conceitos, categorias e práticas que delatam a integraçom da esquerda política atual no sistema que tinha combatido é muito ampla e mostra bem a dimensom de umha derrota histórica. Porém, julgo os três exemplos brevemente comentados significativos da nossa incapacidade coletiva para fazermos frente a sério à crise estrutural do sistema da única maneira efetiva: com a imprescindível reconstruçom de umha esquerda que, com todas as mediaçons e luitas parciais que forem necessárias, aponte para a superaçom histórica do capital, um modo de produçom agonizante que deve ser definitivamente relegado.

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