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Segunda, 03 Julho 2017 16:33 Última modificação em Sexta, 07 Julho 2017 10:43

Londres e Pedrógão Grande

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País: Portugal / Consumo e meio natural / Fonte: Jornal Mudar de Vida

[Urbano de Campos] No incêndio em Londres que fez arder como uma tocha um prédio de apartamentos com 24 andares, morreram quase 80 pessoas.

Em Pedrógão Grande, num dos maiores fogos florestais de que há registo, morreram mais de 60 pessoas. Em Londres, os 600 habitantes atingidos eram quase todos imigrantes e descendentes de imigrantes e ficaram sem nada. Em Pedrógão, as centenas de pessoas das aldeias isoladas, onde os bombeiros mal podem chegar, não eram ricas e muitas perderam tudo.
Num caso como noutro as causas dos fogos terão sido naturais: um curto-circuito num frigorífico, e um raio que incendiou uma árvore. Não há portanto a desculpa útil da “mão criminosa”.

O prédio de Londres era de habitação social, mas fora entregue pelo Estado à “gestão privada”. Sofrera obras de “melhoramento” em que foi aplicado um isolamento térmico no exterior facilmente combustível, responsável pela propagação do fogo a todo o imóvel e pela emissão de fumos tóxicos.

Para tornar mais rentável (e apetecível) a gestão privada, tinha sido aumentado o número de apartamentos (seis por piso) suprimindo uma escada de serviço. Foram eliminados os detectores de incêndio e não havia sistema de combate ao fogo, apesar dos alertas repetidos dos moradores. Tudo dentro da lei: as normas de segurança mais apertadas foram revogadas a fim de facilitar o negócio aos gestores privados.

Casa roubada, trancas à porta: nos últimos dias, mais de 70 prédios de Londres em condições semelhantes foram evacuados e vão ser sujeitos a “medidas correctivas”.

Em Pedrógão e arredores, faltaram os meios adequados de combate ao fogo. Falhou o sistema de comunicações (Siresp) que devia pôr em contacto os diversos órgãos de intervenção. O Siresp, que custou 500 milhões de euros, foi negociado pelos mesmos bandidos que tiraram proveito do BPN e da Sociedade Lusa de Negócios, sem que ninguém os tenha chamado à pedra. E depois foi adjudicado pelo PS. É legítimo pensar que os 47 mortos na fatídica estrada 236-1 podiam estar vivos se as comunicações funcionassem e a GNR soubesse a tempo que tinha de cortar a via.

Antes desta aflição toda, havia e continua por resolver o caos da floresta e do ordenamento do território, em grande parte responsável pela propagação fácil dos fogos e pelo isolamento das populações.

A propriedade florestal, esmagadoramente de pequena dimensão, não está tratada nem devidamente cadastrada. Muita dela está ao abandono. O Estado detém escassos 3% da floresta, quando na União Europeia a média é de 40%. Na Grécia, Espanha e Itália, países com clima idêntico ao nosso, a floresta tem aumentado, e por cá diminuído.

Para “economizarem” e “racionalizarem”, os governos extinguiram os guardas florestais (PS) e os serviços florestais (PSD-CDS) e acabaram com as normas que restringiam a propagação do eucalipto (PSD-CDS), facilitando a vida à indústria da pasta de papel. E em cima disto o PS apresentou em Março uma lei que atribui a gestão das terras abandonadas, não ao sector público, mas a empresas financeiras. Virão depois, nesta lógica, as medidas que tornem “atractiva” a gestão privada.

Um colunista, involuntariamente cómico, dizia sobre a desgraça de Pedrógão que a chave para acabar com os fogos é “desenvolvermo-nos” como país — passará então a haver menos fogos incontrolados, tal como diminuíram os mortos em acidentes de automóvel graças ao cinto de segurança e aos testes de alcoolemia. É uma fé, pelo menos, duvidosa: basta atentar no fogo de Londres, capital de um país “desenvolvido”.

Esta fé no “desenvolvimento” esquece deliberadamente que o progresso se opera sempre dentro de limites estreitos, e agora cada vez mais estreitos. O “desenvolvimento” tem por condição — render. E não rende dar condições de vida seguras às pessoas, não rende prevenir os fogos. Mas rende a gestão privada dos bens sociais, rende o negócio de apagar incêndios todos os anos. Tal como não rende a medicina preventiva, comparada com a medicina curativa.

Alguém lembrou em tempos que o capital desenvolvido não precisa de falsificar a mercadoria ou roubar no peso como o industrial ou o comerciante de vão-de-escada — porque os seus processos de acumulação o colocam acima disso. Mas é assim quando o capital se expande e progride. Agora que chegou à velhice e decai, parece tender a voltar aos velhos métodos; simplesmente, à escala dos grandes potentados económicos. É que à falta de vontade de sempre soma-se hoje a sua incapacidade para acorrer às necessidades, muito mais vastas e complexas, da colectividade humana — com efeitos de crime social.

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